Presidente promete criar Ministério da Segurança Pública e afirma ter apreendido R$ 35 bilhões do crime organizado, versus R$ 1 bilhão no governo Bolsonaro. Ato resgata trajetória sindical de Lula, homenageia mulheres e evangélicos, e enfatiza soberania brasileira contra pressões dos EUA e alinhamento de Bolsonaro com Trump.
Lula abre campanha à reeleição com acenos ao Congresso, mulheres e evangélicos
Eu virei herói quando os trabalhadores reconheceram que eu estava certo
Por que Lula encurtou o discurso desta vez? Trinta e seis minutos é bem menos que os sessenta e dois da convenção.
A orientação do partido era tornar o discurso mais objetivo. Havia uma estratégia: falar menos, mas de forma mais direta, focando em temas específicos que ainda não havia explorado — segurança pública, principalmente.
E por que segurança pública é tão importante agora?
Porque é uma defasagem. Lula não havia abordado o tema com força na campanha até então, e é um problema real para as pessoas. Ao prometer um Ministério da Segurança Pública, ele estava sinalizando que ouve essas preocupações. Mas havia uma condição: ele precisaria de uma bancada maior no Congresso para viabilizar a medida.
Então o ato inteiro era sobre conseguir votos para o Congresso?
Não apenas votos — era sobre construir uma coligação. Mulheres, evangélicos, trabalhadores do ABC, a esquerda tradicional. Cada grupo recebeu um sinal específico. Janja discursou, Kleber Lucas cantou, metalúrgicos antigos abraçaram Lula no palco.
Qual era o sinal para evangélicos?
Kleber Lucas, um cantor e pastor, foi homenageado e cantou "Deus Cuida de Mim" para Lula. É um gesto simbólico, mas deliberado. Lula tem defasagem entre evangélicos nas pesquisas, então precisava mostrar respeito e abertura para esse segmento.
E a soberania nacional? Por que isso ganhou tanto espaço?
Porque há tensão real com os Estados Unidos — Trump impôs tarifas, e Bolsonaro está alinhado com Trump. Lula estava tentando colar em Bolsonaro a pecha de "entreguista". Ao falar de minerais críticos, terras raras e industrialização interna, ele estava dizendo: eu defendo o Brasil, não entrego para ninguém.
O que o saudosismo dos metalúrgicos do ABC significava?
Era um retorno às raízes, uma lembrança de quem Lula é e de onde veio. Mas também era um apelo emocional — aqueles homens que estavam no palco, abraçando Lula, representavam a lealdade de quem o conhece há décadas. Era difícil de ignorar.
El Pulso
- Lula apreendeu R$ 35 bilhões do crime organizado versus R$ 1 bilhão no governo Bolsonaro
- Discurso durou 36 minutos, bem menos que os 62 minutos da convenção do PT
- Promessa de criar Ministério da Segurança Pública condicionada a maioria no Congresso
- Ato reuniu mulheres, evangélicos e metalúrgicos do ABC em sinais políticos direcionados
Presidente promete criar Ministério da Segurança Pública e afirma ter apreendido R$ 35 bilhões do crime organizado, versus R$ 1 bilhão no governo Bolsonaro. Ato resgata trajetória sindical de Lula, homenageia mulheres e evangélicos, e enfatiza soberania brasileira contra pressões dos EUA e alinhamento de Bolsonaro com Trump.
Lula abriu campanha à reeleição em ato simbólico focado em segurança pública, soberania nacional e apelos a mulheres e evangélicos, com discurso moderado de 36 minutos visando ampliar base no Congresso.
Lula subiu ao palco do Estádio 1º de Maio em São Bernardo do Campo no domingo para abrir oficialmente sua campanha à reeleição, e o que se viu foi um cálculo político cuidadoso: um discurso de 36 minutos — bem mais curto que os 62 minutos de sua fala na convenção do partido duas semanas antes — estruturado para falar diretamente aos grupos que ainda o desafiam nas pesquisas.
O presidente prometeu criar um Ministério da Segurança Pública, tema que havia deixado de lado até então. Mas a promessa vinha com uma condição clara: ele precisaria de uma bancada maior no Congresso para viabilizá-la. O texto já havia sido enviado à Comissão de Constituição e Justiça do Senado na véspera do evento, sinalizando que a medida não era apenas retórica. Lula disse que a nova pasta serviria para "dividir responsabilidade com Estados e municípios" no combate a organizações criminosas que atuam em bairros pobres, e que ele queria prender "todo mundo que se acha dono de favela ou de bairro pobre". Para reforçar o ponto, citou números: seu governo havia apreendido R$ 35 bilhões do crime organizado, comparado com R$ 1 bilhão durante o governo Bolsonaro. Criticou também o ex-governo por ter vendido mais de 1 milhão de armas e 1 bilhão de balas ao mercado durante o afrouxamento das regras de posse e porte.
O ato foi carregado de sinais direcionados. Mulheres ocuparam lugar de destaque — a ministra das Mulheres Cida Gonçalves, as candidatas ao Senado Benedita da Silva, Simone Tebet e Marina Silva subiram ao palco ou foram citadas nominalmente. Apenas Janja e Benedita discursaram, mas a presença feminina era visível, em contraste marcante com a convenção de 2 de agosto, quando nenhuma mulher havia sido escalada para falar e Janja precisou ser convocada de improviso pelo próprio Lula após ele perceber a ausência. Durante seu discurso, Lula defendeu o respeito às mulheres, dizendo que homens "têm que respeitar mulheres, não como serviçais". Ao fim, pediu votos explicitamente para Tebet e Marina Silva no Senado, além de Fernando Haddad como candidato ao governo de São Paulo, e para todos os candidatos da coligação a deputado federal e estadual.
Para o eleitorado evangélico, que representa uma defasagem nas pesquisas para Lula, o ato incluiu uma homenagem conduzida por Janja ao cantor e pastor Kleber Lucas, que cantou "Deus Cuida de Mim" para o presidente. A escolha era deliberada: um sinal de que Lula buscava aproximação com esse segmento.
A soberania nacional foi outro eixo central. Diante dos atritos do governo com a Casa Branca desde as tarifas impostas por Donald Trump, Lula tratou da exploração de minerais críticos e terras raras, dizendo que o Brasil "não tem opção pela China, nem opção pelos Estados Unidos" e defendendo a industrialização interna dessas riquezas. O vice-presidente Geraldo Alckmin discursou em defesa "do nosso Pix" e "da nossa soberania". Simone Tebet citou a manifestação de 7 de setembro de 2025 na Avenida Paulista, quando apoiadores de Bolsonaro estenderam uma bandeira dos Estados Unidos, chamando os participantes de traidores da pátria. Uma bandeira gigante do Brasil foi erguida pelos militantes, e Lula, Janja, Haddad e Alckmin caminharam juntos segurando-a.
O ato também resgatou o saudosismo. Um vídeo relembrou a trajetória de Lula entre os metalúrgicos do ABC, e após a exibição, os trabalhadores que participaram do vídeo entraram no palco. Lula caminhou até o grupo e abraçou os antigos companheiros de luta sindical. Ele resgatou a greve de 1979 — quando discursou em cima de uma mesa de bar, sem microfone — e a greve de 1980, quando foi preso por 31 dias e a categoria teve mais de 15 mil demissões. "Eu virei herói", disse, contando que só depois os trabalhadores reconheceram que ele estava certo. Prestou homenagem a nomes como Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Antônio Cândido, Marco Aurélio Garcia, Chico Mendes e Margarida Maria Alves, que segundo ele ajudaram a formar o PT. Em tom pessoal, criticou a decisão do ministro Dias Toffoli que o impediu de deixar a prisão para ir ao enterro do irmão Vavá em 2019, comparando-a à autorização que recebeu durante a ditadura militar para acompanhar o enterro de sua mãe. Também voltou a falar de Marisa Letícia, sua ex-mulher morta em 2017: "da mesma forma que Deus levou a Marisa, me trouxe você", disse em referência a Janja.
O recado subjacente era claro: Lula precisa do Congresso. Paula Corradi, presidente nacional do Psol, disse que o ato reúne o time que vai "eleger a maior bancada de esquerda desse país", já que Lula "precisa dos nossos deputados, senadoras e deputados estaduais pra governar". Luiz Marinho, ministro do Trabalho, chamou de "tarefa revolucionária" mudar o perfil do Congresso, que classificou como "uma tragédia". O sucesso da campanha, portanto, não depende apenas de Lula vencer em 2026 — depende de ele conquistar uma maioria legislativa que lhe permita implementar sua agenda de segurança e governabilidade em um eventual quarto mandato.
Citas Notables
Precisa dos nossos deputados, senadoras e deputados estaduais pra governar— Paula Corradi, presidente nacional do Psol
Tarefa revolucionária mudar o perfil do Congresso, que é uma tragédia— Luiz Marinho, ministro do Trabalho