Num momento em que juros altos e inflação persistente corroem a confiança dos eleitores em governos de todo o mundo, Lula enfrenta a difícil tarefa de manter os programas sociais que lhe deram a vitória sem alimentar as forças que quase o derrotaram. A questão, observada pelo colunista Celso Rocha de Barros na Folha, é como conter o crescimento da dívida pública a ponto de liberar a queda dos juros, sem romper o pacto social que sustenta o projeto. Trata-se de um dilema antigo da política brasileira, agora colocado diante de um eventual quarto mandato e de uma reforma tributária ainda longe de
Lula 4: como conciliar preservação dos programas sociais com o combate a juros e inflação altos
Equilibrar o que lhe fez ganhar com o que quase lhe fez perder
Qual é a tese central da coluna?
Que Lula ganhou defendendo programas sociais, mas quase perdeu por juros e inflação altos. Para governar, precisa conter a dívida para os juros caírem, sem desmontar o que o elegeu.
E por onde começar o ajuste?
Pelas isenções a ativos financeiros como LCA, LCI e debêntures incentivadas. Segundo Bráulio Borges, custaram R$ 32 bilhões em arrecadação no último ano.
Esse número é de uma coluna de opinião citando outra. Não temos aqui metodologia nem o cálculo do que o governo ganharia ao acabar com as isenções.
E sobre as políticas sociais?
Só se ainda precisar cortar mais, ele sugere rever reajustes e vinculações, tornando-as anticíclicas. Diz que isso preservaria o aumento real do salário mínimo.
É uma afirmação do autor, sem simulação que a sustente. Também não diz quanto se economizaria.
E a proposta de Lara Resende?
Ele a considera ruim: exigiria um conselho superpoderoso, traria risco cambial e demandaria ajuste fiscal.
Vale notar que ele diz que o debate levou a essa conclusão, mas não detalha quem debateu. A avaliação é dele.
O que fica no ar?
Se o ajuste reduzirá mesmo os juros. A coluna sugere, não demonstra.
O Pulso
- Juros altos e inflação elevada quase custaram a eleição a Lula, e o risco de repetir o desgaste pesa sobre qualquer novo mandato.
- Benefícios fiscais a ativos financeiros, que somaram R$ 32 bilhões de perda de arrecadação no último ano, são o alvo mais imediato de reforma.
- A vinculação orçamentária das políticas sociais é apontada como ponto sensível, com proposta de torná-la anticíclica para evitar que o gasto seja cortado nas crises.
- A reforma tributária ainda não produziu todos os seus efeitos, e o ajuste precisará ser feito cedo, antes que a popularidade se desgaste.
Num momento em que juros altos e inflação persistente corroem a confiança dos eleitores em governos de todo o mundo, Lula enfrenta a difícil tarefa de manter os programas sociais que lhe deram a vitória sem alimentar as forças que quase o derrotaram. A questão, observada pelo colunista Celso Rocha de Barros na Folha, é como conter o crescimento da dívida pública a ponto de liberar a queda dos juros, sem romper o pacto social que sustenta o projeto. Trata-se de um dilema antigo da política brasileira, agora colocado diante de um eventual quarto mandato e de uma reforma tributária ainda longe de mostrar todos os seus frutos.
Lula venceu a eleição com a promessa de preservar os programas sociais, mas quase perdeu por outro motivo: a combinação de juros altos com inflação alta, que tem corroído a popularidade de governos em vários países desde a pandemia. Para o colunista Celso Rocha de Barros, a tarefa de um eventual quarto mandato é equilibrar o que garantiu a vitória com o que quase provocou a derrota.
O caminho passa por conter a dívida pública o bastante para que os juros caiam, já que a dívida cresce com os juros e juros menores aceleram a economia. O ponto de partida mais óbvio seria rever a isenção tributária sobre ativos financeiros como LCA, LCI e debêntures incentivadas, que custou R$ 32 bilhões em arrecadação no último ano e ainda concorre com os títulos do próprio governo.
Se for preciso cortar mais, o autor sugere rever reajustes e a vinculação orçamentária das políticas sociais, tornando-a anticíclica, para que o gasto não caia justamente quando a economia vai mal. Ele também defende tornar a dívida menos sensível à Selic, embora reconheça o tema como altamente técnico. A proposta de André Lara Resende, por sua vez, é considerada ruim em sua forma atual.
Há, porém, um lado favorável: os efeitos da reforma tributária devem aparecer no próximo governo, e o presidente poderia começar os ajustes cedo, antes que uma perda momentânea de popularidade o deixe vulnerável. Tudo dependerá de a direita isolar o golpismo. O autor admite que não será fácil, mas conclui que o país tem alternativas melhores do que o impasse que levou a Argentina e o Paraguai a crises.
Lula venceu a eleição prometendo preservar os programas sociais. Segundo o colunista Celso Rocha de Barros, da Folha, quase perdeu por outro motivo: a combinação de juros altos com inflação alta, que, como mostraram as últimas eleições americanas, vem corroendo a popularidade de governos em vários países no período pós-pandemia.
A tarefa de um eventual quarto mandato, escreve ele, é equilibrar o que garantiu a vitória com o que quase provocou a derrota. Isso exige conter o crescimento da dívida pública o bastante para que os juros caiam. Como a dívida cresce em função dos juros, e juros menores aceleram o crescimento da economia, a relação dívida/PIB melhoraria por dois lados ao mesmo tempo.
Para o autor, o ponto de partida mais óbvio do ajuste fiscal é o que chama de privatização da Faria Lima. Ele se apoia na coluna de Bráulio Borges, publicada na Folha em 30 de julho de 2026, segundo a qual a isenção tributária sobre ativos financeiros (LCA, LCI, CRIs, CRAs, debêntures incentivadas de infraestrutura e similares) gerou, só no ano passado, perda de arrecadação de R$ 32 bilhões. Há ainda um efeito colateral: esses títulos subsidiados concorrem com os da dívida pública e, com isso, elevam o custo de o governo se financiar no mercado.
Se, depois de corrigir esse e outros gastos que considera ruins, como supersalários e o excesso de recursos para emendas parlamentares, ainda for preciso cortar mais, ele sugere rever os índices de reajuste e a vinculação orçamentária das políticas sociais. A vinculação seguiria existindo, mas de forma mais sustentável e, de preferência, anticíclica. Hoje, observa, o gasto público brasileiro tende a subir quando a economia vai bem e a cair quando vai mal, o oposto do desejável, o que deixa para a Selic toda a tarefa de regular os ciclos. Segundo o colunista, essas mudanças preservariam o aumento real do salário mínimo e outras promessas de campanha.
Outra frente é tornar a dívida menos sensível a altas da Selic. Ele cita a economista Monica de Bolle, para quem a proporção de títulos pós-fixados na dívida brasileira é bem maior que no resto do mundo. O autor diz tratar-se de tema altamente técnico, sobre o qual não se atreve a opinar, mas considera o debate legítimo.
Já a proposta do economista André Lara Resende, de mudar a forma como os juros são fixados no Brasil, foi debatida na semana passada, e a conclusão, diz o colunista, é que em sua forma atual ela é ruim. Ela pressupõe um conselho econômico superpoderoso, politicamente impossível de criar e provavelmente indesejável; envolve risco de crise cambial desastrosa que as reservas brasileiras, ao contrário do que supõe Lara Resende, não bastariam para evitar; e exige um ajuste fiscal importante, ao contrário do que parecem pensar seus defensores de esquerda.
Há, porém, um lado bom: os efeitos positivos da reforma tributária de Lula 3 devem começar a aparecer em Lula 4. E o presidente poderia fazer algum ajuste já no início do governo, sem o mesmo medo de que uma perda momentânea de popularidade o deixasse vulnerável a um golpe. Isso dependerá, escreve ele, de a direita marginalizar o golpismo, como deveria ter feito em 2023.
O autor admite que não será fácil. Ao menos, conclui, o país não dependerá da turma que quebrou o Paraguai para sair do impasse.
Citações Notáveis
O lugar mais óbvio para começar o ajuste fiscal é a privatização da Faria Lima, em referência às isenções a ativos financeiros.— Celso Rocha de Barros, colunista da Folha