Um tapa na cara do povo, mas com R$ 300 mil de orçamento
No coração de uma disputa sobre a natureza jurídica do Banco Central, um sindicato regional escolheu uma atriz famosa — e R$ 300 mil — para traduzir ao público uma questão de alta complexidade institucional. O gesto, que coincidiu com a aprovação da PEC 65 na CCJ do Senado em junho de 2026, revelou não apenas uma estratégia de comunicação controversa, mas uma fratura profunda entre os próprios servidores que deveriam falar a uma só voz. Quando a representação se divide, a autoridade se esvazia — e é a sociedade que aguarda, sem bússola clara, a votação que pode redesenhar o lugar do Banco Central no Estado brasileiro.
- O pagamento de R$ 300 mil a Luana Piovani, autorizado em 9 de junho, gerou imediata suspeita sobre a legitimidade técnica e financeira da ação sindical.
- Mais de 30 ex-dirigentes do Banco Central assinaram carta em defesa da mesma PEC que o sindicato pagou para combater, escancarando um racha sem precedentes na categoria.
- A escolha de uma celebridade em vez de especialistas para debater uma reforma constitucional complexa alimentou críticas de que o sindicato trocou argumento por visibilidade.
- A PEC 65, já aprovada na CCJ do Senado, aguarda votação no Plenário e pode transformar o Banco Central em entidade de natureza especial, desvinculada administrativamente dos ministérios.
- Com a representação dos servidores fragmentada entre regional, entidade nacional e associação de auditores, o debate público sobre a proposta chega ao Plenário sem uma voz institucional coesa.
No dia 9 de junho, a diretoria regional do Distrito Federal do sindicato dos servidores do Banco Central autorizou R$ 300 mil para contratar a atriz Luana Piovani. Na mesma data, ela publicou um vídeo patrocinado no Instagram criticando a PEC 65 — proposta que tramita no Senado e mudaria a natureza jurídica da instituição. A legenda chamava a proposta de "um tapa na cara do povo" e identificava o conteúdo como publicidade, marcando os perfis do sindicato e do conselho regional.
A contratação, revelada pela Folha de S. Paulo e confirmada pelo EXTRA, expôs uma fissura profunda dentro da própria organização. Enquanto a regional do DF se opunha à PEC, mais de 30 ex-dirigentes do Banco Central assinaram, dias depois, uma carta em defesa exatamente do mesmo projeto. O sindicato justificou a ação dizendo agir com base no mandato da maioria dos servidores e buscando tornar o tema acessível à população, já que suas consequências afetariam toda a sociedade.
A PEC 65 foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado no dia 10 de junho e aguarda votação no Plenário. Na prática, ela criaria para o Banco Central um estatuto de entidade pública de natureza especial, com funções de regulação e supervisão do sistema financeiro, desvinculada administrativamente dos ministérios. O Sinal, entidade nacional dos servidores, também criticou a proposta, argumentando que nenhum banco central relevante acumula a combinação de isenção orçamentária e blindagem parlamentar que a PEC pretende instituir.
Mas o episódio gerou incômodo até entre dirigentes do próprio sindicato, que avaliaram o valor como alto e questionaram a autoridade técnica da ação. A Associação Nacional dos Auditores do Banco Central, por sua vez, articula apoio ao projeto — aprofundando ainda mais a divisão. Ao escolher uma celebridade em vez de argumentos institucionais para travar esse debate, o sindicato regional não apenas expôs suas fraturas internas, mas colocou em xeque sua própria capacidade de representar com autoridade uma categoria diante de uma reforma que pode redesenhar o lugar do Banco Central no Estado brasileiro.
No dia 9 de junho, a diretoria regional do Distrito Federal do sindicato dos servidores do Banco Central autorizou um pagamento de R$ 300 mil para a atriz Luana Piovani. Na mesma data, ela publicou um vídeo patrocinado em seu Instagram criticando a PEC 65, uma proposta que tramita no Senado e que alteraria a natureza jurídica da instituição. "A PEC do Banco Central não é sobre autonomia, ela pretende mudar a natureza jurídica da instituição. Essa PEC 65 é um tapa na cara do povo!", dizia a legenda do post, acompanhada de hashtags que identificavam o conteúdo como publicidade e marcavam os perfis do sindicato e do conselho regional.
A contratação, revelada inicialmente pela Folha de S. Paulo e confirmada pelo EXTRA, expõe uma fissura profunda dentro da própria organização que a realizou. Enquanto a regional do DF se posiciona contra a PEC, argumentando que o projeto retiraria a autoridade monetária da vinculação administrativa a ministérios e criaria um regime jurídico próprio para a instituição, mais de 30 ex-dirigentes do Banco Central assinaram uma carta em defesa exatamente dessa mesma proposta na sexta-feira seguinte. Os servidores da instituição estão divididos sobre o tema.
A PEC 65 foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado no dia 10 de junho e aguarda votação no Plenário. Na prática, ela estabeleceria para o Banco Central um estatuto de entidade pública de natureza especial, responsável por funções de regulação, supervisão e fiscalização do sistema financeiro. O sindicato regional justificou sua ação dizendo que o posicionamento contrário à PEC era "embasado no mandato concedido pela maioria dos servidores aos quais representa" e que buscava dar visibilidade a uma pauta complexa, tornando seu entendimento acessível à população, uma vez que as consequências impactariam toda a sociedade.
Mas a decisão gerou incômodo entre dirigentes e ex-dirigentes do próprio sindicato. Pessoas ouvidas pelo GLOBO relataram discordâncias com o conteúdo pago e avaliaram que o episódio expõe o clima de divisão que toma a organização naquele momento. Além do valor considerado alto para uma ação de comunicação, a contratação levanta suspeitas sobre a autoridade técnica do sindicato. Na mesma semana, o Sinal — a entidade nacional — havia publicado nota criticando a proposta, argumentando que nenhum banco central relevante, nem o Federal Reserve dos Estados Unidos nem o Banco da Inglaterra, acumula a combinação de isenção orçamentária e blindagem parlamentar que a PEC 65 pretende criar.
O episódio revela as fraturas que atravessam a representação dos servidores do Banco Central. De um lado, a regional do DF e a entidade nacional se opõem à PEC. Do outro, a Associação Nacional dos Auditores do Banco Central, que representa uma parcela dos servidores, articula apoio ao projeto. A contratação de uma celebridade para criticar a proposta, em vez de mobilizar argumentos técnicos ou institucionalizar o debate, aprofundou essas divisões e questionou a própria capacidade do sindicato de falar com autoridade sobre um tema que afeta diretamente seus representados.
Notable Quotes
A PEC do Banco Central não é sobre autonomia, ela pretende mudar a natureza jurídica da instituição. Essa PEC 65 é um tapa na cara do povo!— Luana Piovani, em post patrocinado no Instagram
Nenhum banco central relevante, nem o Federal Reserve dos Estados Unidos, nem o Banco da Inglaterra, acumula a combinação de isenção orçamentária e blindagem parlamentar que a PEC 65 pretende criar— Sindicato Nacional (SINAL), em nota crítica à proposta
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um sindicato de servidores públicos contrataria uma atriz para falar sobre uma questão técnica como a autonomia do Banco Central?
Porque a PEC 65 é complexa demais para a maioria das pessoas entender apenas com argumentos econômicos. O sindicato acreditava que uma figura pública conseguiria comunicar a mensagem de forma mais acessível e impactante.
Mas isso não parece contraditório? Usar celebridade para falar de política monetária?
Muito. É exatamente por isso que gerou tanta divisão interna. Dirigentes do próprio sindicato questionaram se isso não prejudicava a credibilidade técnica da instituição.
Os servidores do BC realmente estão divididos sobre a PEC?
Completamente. Você tem a regional do DF contra, a entidade nacional contra, mas mais de 30 ex-dirigentes assinando uma carta a favor. Não há consenso.
O que a PEC 65 realmente faz?
Tira o Banco Central da vinculação administrativa a ministérios e cria um regime jurídico próprio para a instituição. É sobre autonomia, mas também sobre poder e controle.
E por que isso importa para a população?
Porque afeta como o país controla a inflação, as taxas de juros, toda a política monetária. As consequências impactam todo mundo.