Nos primeiros seis meses de 2026, a corrida presidencial brasileira entre Lula e Flávio Bolsonaro revelou-se um equilíbrio instável, em que nenhum dos dois conseguiu consolidar uma vantagem duradoura. O senador fluminense viveu uma ascensão expressiva enquanto o governo enfrentava desgaste, mas um áudio comprometedor sobre o filme 'Dark Horse' interrompeu sua trajetória em maio, reequilibrando a disputa. O eleitor independente, sempre o mais sensível às oscilações do noticiário, permanece o árbitro não declarado de uma eleição que ainda não encontrou seu eixo definitivo.
'Lua de mel' de Flávio cede espaço à remontada de Lula nas pesquisas do 1º semestre
Ninguém cristalizou uma vantagem enorme nem de um lado nem do outro
Como é possível que Flávio tenha crescido tão rápido se Lula era presidente e tinha toda a máquina do governo?
Flávio se beneficiou de um momento muito específico. Lula estava com aprovação baixa entre fevereiro e abril, e havia investigações sobre o Banco Master que prejudicavam a percepção pública do governo, mesmo sem estar implicado. Flávio se apresentava como alternativa.
Mas é importante notar que essa vantagem nunca foi decisiva. Mesmo em abril, quando Flávio estava na frente, era empate técnico. As margens de erro das pesquisas são grandes o suficiente para que nenhuma delas pudesse afirmar com segurança quem estava ganhando.
E então o áudio do Dark Horse muda tudo?
Sim, mas não completamente. O áudio foi um baque significativo, especialmente entre eleitores independentes e de direita não bolsonarista que viam Flávio como diferente de Lula em termos de corrupção. Ele caiu seis pontos em uma pesquisa.
Seis pontos em uma pesquisa. Mas em outras pesquisas o impacto foi menor ou diferente. E mesmo após o áudio, em junho, eles continuavam em empate técnico. Não sabemos ainda qual será o efeito duradouro.
O pacote de bondades de Lula funcionou?
Começou a funcionar. O Desenrola 2.0 e a isenção de imposto de renda mostraram aprovação crescente, especialmente entre eleitores de renda mais baixa. Mas isso coincidiu com o baque de Flávio, então é difícil separar os dois efeitos.
Exatamente. A recuperação de Lula pode ser tanto pelo pacote quanto pela queda de Flávio. Os especialistas dizem que a disputa é "suscetível à agenda factual", o que significa que qualquer notícia pode mudar as coisas novamente.
Então quem vai ganhar?
Os especialistas dizem que a eleição será decidida pelos eleitores independentes, que ainda não cristalizaram suas escolhas. É um campo aberto.
E vale lembrar que essas pesquisas são de junho. Faltam meses para a eleição. Nenhum dos dois consolidou uma vantagem que encerre a disputa. Tudo ainda pode mudar.
El Pulso
- Flávio Bolsonaro chegou a ultrapassar Lula nas pesquisas entre março e abril, alimentado pelo desgaste do governo e pela adesão entusiasta do eleitorado bolsonarista.
- A divulgação de um áudio em que Flávio pedia dinheiro para a produção do filme sobre seu pai desfez em semanas a imagem de alternativa à corrupção que sustentava sua ascensão.
- O impacto foi mais severo entre independentes e a direita não bolsonarista — exatamente os grupos que o senador precisava conquistar para vencer.
- O governo reagiu com um 'pacote de bondades' — isenção de imposto de renda e o Desenrola 2.0 — que começou a recuperar a aprovação presidencial a partir de maio.
- Em junho, os dois candidatos seguiam em empate técnico, com a disputa aberta e nenhuma vantagem cristalizada de lado algum.
Nos primeiros seis meses de 2026, a corrida presidencial brasileira entre Lula e Flávio Bolsonaro revelou-se um equilíbrio instável, em que nenhum dos dois conseguiu consolidar uma vantagem duradoura. O senador fluminense viveu uma ascensão expressiva enquanto o governo enfrentava desgaste, mas um áudio comprometedor sobre o filme 'Dark Horse' interrompeu sua trajetória em maio, reequilibrando a disputa. O eleitor independente, sempre o mais sensível às oscilações do noticiário, permanece o árbitro não declarado de uma eleição que ainda não encontrou seu eixo definitivo.
Os primeiros seis meses de 2026 desenharam uma corrida presidencial sem vencedor definido. Em janeiro, Lula liderava com folga nas principais pesquisas — sete pontos à frente de Flávio Bolsonaro na Genial/Quaest, quinze no Datafolha. Mas o desgaste do governo e a consolidação de Flávio como herdeiro da máquina bolsonarista foram corroendo essa margem mês a mês. Em março, os dois estavam tecnicamente empatados. Em abril, Flávio havia passado à frente.
Especialistas identificaram dois motores dessa virada. O primeiro foi a desaprovação ao governo, que atingiu seu pico entre fevereiro e abril, com quase metade dos eleitores avaliando o noticiário sobre a gestão como predominantemente negativo. O segundo foi a chamada 'lua de mel' eleitoral de Flávio: ao se apresentar como alternativa em um momento de desgaste, ele atraiu rapidamente o eleitorado bolsonarista e começou a seduzir independentes.
Maio interrompeu essa trajetória. O Intercept Brasil divulgou um áudio em que Flávio pedia recursos a um empresário para financiar o filme 'Dark Horse', inspirado na vida de seu pai. O efeito foi imediato: seis pontos perdidos na AtlasIntel, e uma reconfiguração da percepção sobre o senador justamente entre quem o via como diferente. Entre os eleitores independentes, Lula saltou de 29% para 37%, enquanto Flávio recuava de 31% para 24%.
Ao mesmo tempo, o governo lançou medidas de impacto direto na renda — o Desenrola 2.0 e a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais — que começaram a reverter a aprovação presidencial. Em junho, o percentual de eleitores que relatava aumento de renda com a isenção havia crescido de 17% para 23%.
Ainda assim, os especialistas eram unânimes: a disputa permanecia aberta. Nenhum dos dois havia 'cristalizado uma vantagem enorme', nas palavras do cientista político Leandro Consentino. A eleição seguia sendo moldada pelo noticiário e pelo humor dos moderados — e estes, até o fim do primeiro semestre, ainda não haviam dado seu veredicto.
Nos primeiros seis meses de 2026, a corrida presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro se desenrolou como um jogo de xadrez em que nenhum dos dois conseguiu consolidar uma vantagem decisiva. As pesquisas Genial/Quaest, AtlasIntel e Datafolha revelaram uma disputa que oscilava mês a mês, com o senador fluminense vivendo seu melhor momento entre janeiro e abril, apenas para sofrer um baque significativo após a revelação de um áudio comprometedor em maio.
Flávio Bolsonaro chegou ao primeiro semestre como pré-candidato em um momento particularmente favorável para a oposição. Seu pai, Jair Bolsonaro, permanecia inelegível, e o filho havia consolidado o apoio da máquina bolsonarista após meses de especulação sobre quem representaria a família na disputa presidencial. Em janeiro, segundo a Genial/Quaest, Lula vencia em simulação de segundo turno por 45% contra 38%, uma vantagem de sete pontos que parecia confortável. Mas essa margem encolheu rapidamente. Dois meses depois, em março, os dois estavam empatados tecnicamente em 41% cada. Em abril, Flávio já apresentava leve vantagem numérica, com 42% contra 40% de Lula. O Datafolha registrou trajetória semelhante: em dezembro de 2025, Lula vencia por 51% a 36%; em março de 2026, essa vantagem havia caído para apenas três pontos porcentuais; em abril, Flávio passava à frente, 46% a 45%. A AtlasIntel mostrou o mesmo padrão, com Lula saindo de uma vantagem de 12 pontos em dezembro para empate técnico em fevereiro.
Especialistas consultados pelo Estadão identificaram dois fatores principais por trás dessa trajetória. O primeiro era a desaprovação ao governo Lula, que atingiu seu pico entre fevereiro e abril. Nesse período, 48% dos eleitores avaliavam as notícias sobre a gestão como "mais negativas", enquanto apenas 23% as viam como "mais positivas". Simultaneamente, as investigações sobre o Banco Master, embora o governo não estivesse implicado, prejudicavam a percepção pública: em março, 39,5% dos entrevistados achavam que aliados de Lula estavam mais envolvidos no esquema. O segundo fator era a adesão rápida do eleitorado bolsonarista a Flávio. Para Leandro Consentino, cientista político do Insper, o senador viveu uma "lua de mel" eleitoral ao se apresentar como alternativa em um momento de desgaste do governo.
Mas em maio, tudo mudou. O site Intercept Brasil divulgou um áudio em que Flávio pedia dinheiro a Daniel Vorcaro para a produção do filme "Dark Horse", cujo roteiro é inspirado na vida de seu pai. O impacto foi imediato e significativo. Na pesquisa AtlasIntel de maio, realizada após a divulgação, Flávio despencou seis pontos porcentuais. Mais importante, o áudio reconfigurou a percepção sobre o senador entre eleitores que o viam como uma alternativa à corrupção associada a Lula. Segundo Consentino, o áudio "nivelou por baixo" a pré-candidatura de Flávio, demovendo votantes que o apoiavam justamente por percebê-lo como diferente.
O impacto foi particularmente severo entre eleitores independentes e de direita não bolsonarista. Antes do áudio, 31% dos independentes votariam em Flávio e 29% em Lula; um mês depois, Lula havia subido para 37% nesse segmento, enquanto Flávio caía para 24%. Entre a direita não bolsonarista, a intenção de voto em Flávio caiu de 88% para 82%. Simultaneamente, a aprovação do governo começava a se recuperar, impulsionada pelo que especialistas chamam de "pacote de bondades": medidas como o Desenrola 2.0 e a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais mensais. Em junho, 50% dos entrevistados avaliava o Desenrola 2.0 como boa ideia, e o conhecimento do programa havia crescido de 57% para 61%. A isenção de imposto de renda também surtiu efeito: o percentual de eleitores que afirmava ter tido aumento significativo de renda com a medida subiu de 17% para 23% entre abril e junho, com impacto mais forte entre eleitores de renda familiar até dois salários mínimos.
Apesar dessa reversão, especialistas alertam que a disputa permanecia aberta no final de junho. Lula e Flávio continuavam em empate técnico, e nenhum dos dois havia cristalizado uma vantagem capaz de encerrar a corrida. Para Aldo Fornazieri, as pesquisas do primeiro semestre representavam apenas um "ponto de partida" da campanha, não uma tendência definitiva. Beto Vasques observa que a disputa é particularmente suscetível à "agenda factual", ou seja, aos efeitos do noticiário sobre o humor do eleitorado. Leandro Consentino enfatiza que o jogo não se encerrou entre os eleitores independentes, que se mostraram o campo de batalha mais decisivo. "Ninguém cristalizou uma vantagem enorme nem de um lado nem do outro. Isso significa que, de novo, parecemos estar caminhando para uma eleição a ser decidida pelos moderados", afirmou o cientista político. A campanha ainda não havia sido "introjetada" pelo eleitor de forma clara o suficiente para definir a disputa.
Citas Notables
Flávio Bolsonaro passou por uma 'lua de mel' ao apresentar a pré-candidatura em um momento oportuno para a oposição— Leandro Consentino, cientista político do Insper
A disputa ponto a ponto entre Lula e Flávio Bolsonaro aponta para uma campanha suscetível à 'agenda factual', ou seja, aos efeitos do noticiário sobre os humores do eleitorado— Beto Vasques