Livro revela trajetória dos Safra, banqueiros de um estilo que desapareceu

Edmond Safra morreu asfixiado em incêndio em seu banheiro em Mônaco em dezembro de 1999, junto com uma enfermeira.
Banqueiros ao velho estilo, num mundo que não existe mais
A descrição de como os Safra operavam com discrição e contas numeradas na Suíça, um modelo que desapareceu.
Mark

Por que um livro sobre os Safra importa agora, em 2026? Eles não são mais tão visíveis.

Mimi

Porque eles foram o último grande exemplo de um tipo de banqueiro que desapareceu. José Safra em 2015 era mais rico que qualquer Rothschild vivo, e quase ninguém sabia o nome dele.

Luke

Mas o livro realmente explica como isso foi possível? Ou apenas conta que aconteceu?

Mimi

Viturino mostra a estrutura — as contas na Suíça, o financiamento discreto de políticos, a filantropia estratégica. Mas há limites.

Mark

E a morte de Edmond? É o coração do livro?

Mimi

É o ponto de ruptura. Depois disso, tudo se fragmenta. Os irmãos se separam, a família se divide, e o mundo dos bancos começa a mudar.

Luke

Mas Viturino descobre o que realmente aconteceu naquele banheiro em Mônaco?

Mimi

Não. Ele deixa claro que não decifra o mistério. Mostra a moldura, as tensões, mas o que aconteceu exatamente permanece obscuro.

Mark

Então é um livro sobre segredos que não são totalmente revelados?

Mimi

É um livro sobre uma família que construiu sua riqueza na discrição, e a discrição permanece mesmo na história que é contada sobre eles.

Luke

Há algo que o livro não consegue alcançar? Alguma coisa que ficou de fora?

Mimi

Talvez o que realmente motivava José e Moise. Sabemos o que fizeram, mas não sabemos sempre por quê.

  • José Safra foi o banqueiro mais rico do mundo em 2015, superando Rothschild, Rockefeller e outras dinastias
  • Edmond Safra morreu asfixiado em incêndio em seu banheiro em Mônaco em dezembro de 1999
  • Os bancos Safra e J. Safra se estabeleceram em lados opostos da Avenida Paulista após divisão familiar
  • Paz entre os ramos da família foi selada em 2024, após décadas de conflito

José Safra foi o banqueiro mais rico do mundo em 2015, superando famílias como Rothschild e Rockefeller, mantendo estilo discreto e simples. A morte de Edmond em Mônaco em 1999 permanece envolta em mistério, com tensões familiares que se estenderam por gerações entre os irmãos.

Novo livro de Robson Viturino narra a trajetória da família Safra, que criou um dos maiores bancos do mundo em pouco mais de 50 anos, marcada por conflitos familiares e a morte misteriosa de Edmond em 1999.

Robson Viturino acaba de lançar um livro que conta a história do banco Safra, e é uma narrativa que traz à tona décadas de ambição, conflito e segredos guardados com o cuidado que caracterizou a família. Três irmãos — Edmond, José e Moise — construíram um império financeiro usando apenas o próprio sobrenome, e em pouco mais de cinquenta anos alcançaram uma posição que rivalizava com as dinastias bancárias mais antigas do mundo. Em 2015, José Safra era o homem mais rico entre os banqueiros vivos, superando os Rothschild, os Warburg, os Morgan, os Goldman, os Rockefeller, os Setúbal e os Moreira Salles. Fizeram tudo isso com um estilo que hoje parece quase impossível de imaginar: discreto, reservado, operando num mundo de contas numeradas na Suíça que não existe mais.

A trajetória dos Safra não foi apenas sobre acumular riqueza. José financiou políticos de espectros opostos — tucanos e petistas — e ajudou a fundar o Cebrap, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, que em 1969 abriu suas portas para professores expulsos da Universidade de São Paulo durante a ditadura militar, numa decisão que contou com a orientação do então ministro da Economia Delfim Netto. Mesmo assim, os Safra permaneceram figuras das sombras, homens que deixavam poucos rastros públicos, exceto quando se tratava de filantropia. José morreu em 2020 aos 82 anos, mantendo até o fim essa discrição que marcou sua vida inteira.

Mas o livro de Viturino não é apenas um registro de sucesso financeiro. No centro da narrativa está a morte de Edmond, ocorrida em dezembro de 1999 em Mônaco, cercada por circunstâncias que permanecem obscuras. Edmond sofria de Parkinson e estava em sua cobertura quando, temendo ser sequestrado, trancou-se num banheiro com uma enfermeira. Um enfermeiro ateou fogo a um cesto de lixo, e ambos morreram asfixiados pela fumaça. Viturino não resolve o mistério, mas expõe seus contornos, revelando as fraturas que já dividiam a família.

Essas fraturas eram profundas. Após a morte de Edmond, José e Moise separaram-se nos negócios. Quando os dois irmãos apareceram na sinagoga Hekhal Haness para o funeral, cadeiras tiveram que ser trazidas para eles através do templo porque seus nomes não constavam da lista de convidados — um detalhe que fala volumes sobre o estado do relacionamento. No cemitério de Veyrier, em Genebra, José e Moise precisaram abrir caminho no cortejo com os cotovelos para conseguir carregar o caixão do irmão. A viúva de Edmond, Lily Safra, observava tudo com desaprovação gélida. Ela se tornaria a mulher mais rica do mundo, e em 2008 vendeu a Villa Leopolda, onde havia dado festas com Edmond, por 530 milhões de dólares — o maior valor de uma propriedade residencial registrado até então.

Os dois bancos que emergiram dessa divisão — o Safra e o J. Safra — acabaram se estabelecendo em lados opostos da Avenida Paulista, na esquina com a rua Augusta, como um monumento físico à ruptura. Moise morreu em 2014 aos 79 anos, e José em 2020. A briga se propagou para a geração seguinte, criando uma divisão que só foi finalmente resolvida em 2024, quando uma paz foi selada entre os ramos da família. Mas o mundo em que os Safra operaram havia mudado radicalmente. O banco Safra foi multado em 10 milhões de dólares e reconheceu seus malfeitos. José passou seus últimos anos no exterior, temendo ser preso. Ainda assim, os bancos continuam de pé, operando num mundo completamente diferente daquele que os criou — um mundo onde o estilo de banqueiro que os Safra representavam simplesmente não existe mais.

José e Moise tiveram que abrir caminho às cotoveladas no cortejo para poder carregar o caixão do irmão
— Robson Viturino, 'Os Safras: Uma história'
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