Livro de ex-Google expõe desorganização, cultura tóxica e retaliação na big tech

Stapleton e outros organizadores do protesto sofreram retaliação corporativa, incluindo perda de atribuições, exclusão de projetos e pressão para licença médica.
A empresa que prometia ser diferente operava com as mesmas dinâmicas tóxicas
Stapleton documenta como o Google, apesar de sua reputação, praticava retaliação contra funcionários que questionavam sua cultura.
Mark

Por que um livro sobre disfunções internas do Google importa agora, em 2026?

Mimi

Porque Stapleton não está apenas reclamando de um chefe ruim. Ela documenta como uma empresa que se apresentava como diferente das corporações tradicionais operava com as mesmas dinâmicas tóxicas—retaliação contra quem falava, trabalhos sem propósito, punição disfarçada de "desenvolvimento profissional".

Luke

Mas precisamos ser claros: a retaliação que ela descreve é o que ela experimentou e o que outros organizadores do walkout relataram. A empresa não reconheceu isso como retaliação. Há uma diferença entre o que Stapleton viveu e o que foi formalmente comprovado.

Mark

Ela perdeu atribuições depois do protesto. Isso não é evidência?

Mimi

É um padrão que ela documenta, e que outros também relataram. Mas Luke tem razão—a investigação interna terminou apenas com uma recomendação de treinamento para a gerente, não com uma admissão de culpa.

Luke

E o número de pessoas que saíram depois do walkout? O livro diz que "outros organizadores também saíram", mas não especifica quantos ou em que circunstâncias exatas. Sabemos que Stapleton saiu, sabemos que houve retaliações relatadas, mas o escopo completo ainda é nebuloso.

Mark

Então o que podemos afirmar com segurança?

Mimi

Que Stapleton trabalhou doze anos no Google, ajudou a organizar um protesto de vinte mil pessoas, relatou retaliação depois disso, e saiu em 2019. Que ela recebeu mais de trezentos e cinquenta relatos de assédio, discriminação e retaliação de outros funcionários. Que o livro agora traz essas histórias a público.

Luke

E que isso se alinha com um padrão mais amplo de críticas de ex-funcionários de big techs. Mas cada caso é seu próprio caso. O que aconteceu com Stapleton não prova automaticamente o que aconteceu com todos os outros.

  • Claire Stapleton trabalhou 12 anos no Google, de sua saída da faculdade até junho de 2019
  • Protesto do Google Walkout em 2018 reuniu mais de 20 mil funcionários contra saída de US$ 90 milhões para Andy Rubin
  • Stapleton recebeu mais de 350 relatos de assédio, discriminação e retaliação de colegas
  • Livro "Don't Be Evil" lançado em agosto de 2026 pela William Morrow, sem edição em português anunciada

Stapleton trabalhou como ghostwriter de executivos do Google, incluindo cofundador Larry Page, antes de enfrentar projetos sem propósito claro. Após organizar protesto contra saída de US$ 90 milhões para Andy Rubin acusado de assédio, Stapleton sofreu retaliação: perda de atribuições e exclusão de projetos.

Memoir de Claire Stapleton sobre 12 anos no Google revela disfunções organizacionais, empregos inúteis e retaliação após liderar protesto de 20 mil funcionários contra má conduta sexual.

Claire Stapleton passou doze anos dentro do Google acreditando que estava em um lugar diferente. Quando entrou na empresa logo após se formar, na sede de Mountain View, na Califórnia, começou na comunicação interna e rapidamente se tornou a voz invisível dos executivos. Ela escrevia comunicados em nome de chefes a partir de conversas breves e comentários soltos, capturando maneirismos e tom até que aquelas palavras soassem como se tivessem saído da boca deles. Larry Page, cofundador da companhia, usava frases que ela havia redigido em seus discursos e emails. O trabalho funcionava. A "voz do Google" que Stapleton ajudou a construir ganhou prestígio dentro da organização, e ela foi promovida para o Creative Lab em Nova York, uma área prestigiada responsável por campanhas publicitárias e apresentação de produtos.

Mas a promoção revelou algo diferente do que ela esperava. Sob um gerente que ela descreve como distante e desinteressado em integrá-la à equipe, Stapleton passou meses com poucos projetos, quase nenhuma orientação clara e sem compreender direito qual era seu propósito. Essa experiência se repetiria. Em um momento, foi designada para desenvolver um serviço pago de videochamadas ensinando tarefas que já estavam disponíveis gratuitamente em tutoriais do YouTube. Depois, no próprio YouTube, recebeu a tarefa de procurar vídeos que o algoritmo pudesse ter deixado passar, apesar de boa parte desse trabalho já ser automatizada. Um chefe lhe disse que a razão principal da existência da equipe era ampliar sua influência sobre outras áreas da empresa. Ao refletir sobre essas experiências, Stapleton recorreu ao conceito de "bullshit job" do antropólogo David Graeber para descrever trabalhos que os próprios funcionários consideram inúteis ou desnecessários.

Não era uma crítica que ela sempre tivera. Stapleton havia aderido à cultura da big tech, passou anos ajudando a apresentá-la internamente como diferente das corporações tradicionais e encontrou ali trabalho que considerava importante. No YouTube, participou de decisões difíceis sobre como lidar com conteúdo ofensivo, violento e publicidade em uma plataforma com criadores capazes de mobilizar milhões de pessoas. Essas eram questões genuinamente complexas. Mas em outubro de 2018, o New York Times revelou que o Google havia negociado uma saída de noventa milhões de dólares com Andy Rubin, criador do Android, após considerar crível uma acusação de má conduta sexual contra ele. Rubin negou a acusação. A resposta da direção pareceu insuficiente para muitos funcionários.

Stapleton tomou a iniciativa de organizar uma reação coletiva. Ela articulou colegas e ajudou a estruturar o Google Walkout, um protesto que levou mais de vinte mil funcionários e terceirizados a deixar seus postos de trabalho. O caso Rubin foi o estopim, mas o movimento rapidamente se expandiu em uma crítica mais ampla à cultura corporativa da empresa. Stapleton pediu que os funcionários explicassem por que pretendiam participar e recebeu mais de trezentos e cinquenta relatos sobre assédio, discriminação, retaliação, chefias abusivas e dificuldades para obter respostas do departamento de recursos humanos. As mudanças que a empresa anunciou ficaram aquém do que os organizadores esperavam.

Nos meses seguintes, Stapleton e outros funcionários envolvidos no movimento começaram a relatar retaliações. Ela perdeu atribuições, foi deixada de fora de projetos e iniciou uma peregrinação por chefes, RH e investigações internas tentando provar que estava sendo punida por sua atuação no walkout. Quando disse que estava sendo boicotada, uma executiva do RH sugeriu que ela tirasse uma licença por saúde mental. Uma investigação sobre a relação com sua gerente terminou apenas com a recomendação de que a chefe recebesse treinamento para se comunicar melhor. Stapleton deixou o Google em junho de 2019. Nos anos seguintes, outros organizadores do protesto também saíram da empresa após relatarem perda de espaço ou punições internas.

Seu livro, "Don't Be Evil" (referência ao antigo lema da empresa), foi lançado nos Estados Unidos em agosto de 2026 pela William Morrow, selo da HarperCollins, e ainda não tem edição em português anunciada no Brasil. A autora, que havia passado anos ajudando o Google a explicar aos funcionários por que aquela empresa era diferente das demais, começou a receber mensagens de trabalhadores de outras empresas de tecnologia contando experiências semelhantes. Seu relato se junta a uma série crescente de críticas de ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia, como Sarah Wynn-Williams, ex-diretora de políticas públicas do Facebook, que publicou "Careless People" em 2025. Juntos, esses livros sugerem que as disfunções que Stapleton descreveu—chefes ruins, cargos mal definidos, favorecimentos por relações pessoais, retaliação contra quem questiona—não são anomalias isoladas, mas padrões sistêmicos na cultura corporativa do setor.

Harmonia, deferência, disponibilidade eram mais importantes do que qualquer resultado concreto do trabalho
— Claire Stapleton, descrevendo dinâmicas de poder no Google
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