Na fronteira entre a esperança e o desconhecido, Lito Sousa tornou-se o primeiro ser humano a receber o composto experimental ALN-6457, desenvolvido para tentar desacelerar a doença de Creutzfeldt-Jakob — uma enfermidade que, até hoje, não tem cura. Duas semanas após a injeção autorizada pela Anvisa sob uso compassivo, ele faleceu. O episódio ilumina uma tensão antiga da medicina: o que fazemos quando o tempo acaba e a ciência ainda não chegou?
Lito Sousa recebeu terapia experimental nunca testada em humanos antes de morrer
Ninguém sabia o que esperar quando injetaram uma substância nunca testada em humanos
Por que a história de Lito Sousa importa além do caso individual? Qual é o significado mais amplo?
Porque mostra o que acontece quando uma doença não tem tratamento e uma família está disposta a tentar qualquer coisa. O uso compassivo é um mecanismo legítimo, mas também revela uma lacuna: não temos opções, então abrimos a porta para o experimental.
Mas precisamos ser claros sobre o que sabemos e o que não sabemos. Temos dados de camundongos mostrando 15% de redução em uma proteína. Não sabemos se isso faz diferença em humanos. Não sabemos se é seguro em longo prazo. Lito morreu, mas não sabemos se a terapia ajudou, prejudicou ou foi irrelevante.
A Anvisa fez a coisa certa ao autorizar?
Sob as circunstâncias, provavelmente sim. Creutzfeldt-Jakob é fatal e progressiva. Não há alternativa. O composto mostrou atividade biológica em animais. O risco de não fazer nada é certo; o risco de fazer é desconhecido.
Mas "atividade biológica" é diferente de "benefício clínico". A molécula consegue chegar ao cérebro e bloquear a produção de uma proteína. Isso é um fato. Se isso muda o curso da doença em humanos — isso ainda é uma hipótese.
Então qual é o próximo passo? Isso vai levar a ensaios clínicos?
Teoricamente, sim. Mas tudo depende de como a comunidade científica interpreta o caso de Lito. Se a Anvisa e as empresas decidirem que há dados suficientes para justificar um estudo formal, poderemos aprender mais. Se decidirem que o risco é muito alto ou que os dados são insuficientes, o programa pode parar.
E há outra questão: quantos pacientes com Creutzfeldt-Jakob estão dispostos ou conseguem participar de um ensaio clínico? É uma doença rara e muito rápida. O tempo é o inimigo.
The Pulse
- Lito Sousa estava internado em UTI quando recebeu uma substância que nenhum humano havia recebido antes — uma aposta desesperada contra uma doença sem tratamento eficaz.
- O composto ALN-6457 tenta bloquear a produção da proteína príon na origem, mas não reverte danos já causados ao cérebro, tornando sua utilidade clínica incerta mesmo em teoria.
- A barreira hematoencefálica representa um obstáculo formidável: para tentar superá-la, a molécula foi quimicamente modificada com uma âncora lipídica — uma solução engenhosa ainda sem validação humana.
- Os únicos dados de eficácia disponíveis vêm de camundongos, com redução de apenas 15% na proteína-alvo — resultado que indica atividade biológica, mas não comprova benefício clínico.
- Lito morreu duas semanas após a aplicação, antes mesmo dos exames planejados para seis semanas depois, deixando sem resposta a pergunta central sobre o efeito real do tratamento.
Na fronteira entre a esperança e o desconhecido, Lito Sousa tornou-se o primeiro ser humano a receber o composto experimental ALN-6457, desenvolvido para tentar desacelerar a doença de Creutzfeldt-Jakob — uma enfermidade que, até hoje, não tem cura. Duas semanas após a injeção autorizada pela Anvisa sob uso compassivo, ele faleceu. O episódio ilumina uma tensão antiga da medicina: o que fazemos quando o tempo acaba e a ciência ainda não chegou?
Lito Sousa morreu em 1º de outubro, vítima da doença de Creutzfeldt-Jakob. Duas semanas antes, ele havia recebido uma injeção de ALN-6457 — um composto experimental desenvolvido pela Regeneron e pela Alnylam Pharmaceuticals que nenhum ser humano havia recebido antes. A Anvisa autorizou o procedimento por meio do uso compassivo, mecanismo que permite acesso excepcional a terapias em investigação quando não existem alternativas eficazes.
Sua esposa, Mila Seidl, anunciou o tratamento em vídeo publicado em 14 de setembro. Naquele momento, Lito já estava internado em UTI. Segundo ela, a injeção não provocou reação adversa imediata — um detalhe carregado de peso, pois ninguém sabia o que esperar. A equipe médica planejava realizar novos exames seis semanas depois para verificar qualquer mudança no quadro clínico. Esse momento nunca chegou.
O ALN-6457 é uma molécula de RNA de interferência que tenta bloquear a produção da proteína príon antes de sua deformação — a marca da doença de Creutzfeldt-Jakob. A lógica é reduzir a matéria-prima disponível para que menos proteína normal sofra a transformação patológica. O tratamento não corrige danos já causados nem reverte a progressão: a hipótese é apenas que poderia desacelerá-la.
Chegar ao cérebro, porém, é um obstáculo formidável. Para tentar superar a barreira hematoencefálica, a Alnylam modificou quimicamente a molécula e acoplou a ela uma cadeia lipídica chamada C16, funcionando como âncora para facilitar a passagem pelas membranas celulares. Os únicos dados de eficácia disponíveis vêm de testes em camundongos, onde se observou redução de cerca de 15% no RNA mensageiro da proteína príon — resultado que indica atividade biológica, mas que especialistas ressaltam não comprovar benefício clínico em humanos.
Uso compassivo não é aprovação de medicamento. É um mecanismo regulatório de acesso excepcional, não uma confirmação de eficácia. Lito Sousa tornou-se o primeiro humano a receber o composto antes mesmo do início de ensaios clínicos formais. A doença de Creutzfeldt-Jakob permanece sem tratamento capaz de interromper sua progressão, e as perguntas fundamentais sobre o ALN-6457 — dose, segurança, duração dos efeitos, impacto real sobre a sobrevida — seguem sem resposta. O trabalho científico que poderia respondê-las ainda não começou.
Lito Sousa morreu na quinta-feira, 1º de outubro, vítima da doença de Creutzfeldt-Jakob. Duas semanas antes do fim, ele recebeu uma injeção de uma substância que nenhum ser humano havia recebido antes. O composto ALN-6457, desenvolvido em parceria pela Regeneron e pela Alnylam Pharmaceuticals, foi administrado sob autorização especial da Anvisa — um mecanismo chamado uso compassivo que permite o acesso a terapias experimentais quando não existem alternativas eficazes para doenças graves e potencialmente fatais.
A esposa de Lito, Mila Seidl, anunciou a aplicação do tratamento em um vídeo publicado em 14 de setembro. Naquele momento, o influenciador já estava internado em uma Unidade de Terapia Intensiva. Segundo Mila, a injeção havia sido administrada no fim de semana anterior e não provocou reação adversa imediata — um detalhe que ganhou peso justamente porque ninguém sabia o que esperar. A equipe médica planejava fazer novos exames seis semanas depois para verificar se havia alguma mudança no quadro clínico.
O ALN-6457 funciona de forma bem específica. É uma molécula de RNA de interferência, conhecida pela sigla siRNA, que usa um mecanismo natural das células para bloquear a produção de proteínas. A estratégia é simples em teoria: o composto entra na célula e destrói as instruções genéticas — o RNA mensageiro — responsáveis pela fabricação da proteína príon antes que a célula termine o trabalho. Com menos matéria-prima disponível, a lógica é que haveria menos proteína normal para sofrer a deformação que caracteriza a doença de Creutzfeldt-Jakob. O tratamento não corrige as proteínas já danificadas nem reverte os danos cerebrais já causados. A hipótese é apenas que poderia desacelerar a progressão.
Mas chegar ao cérebro é um obstáculo formidável. A barreira hematoencefálica protege o órgão e bloqueia a maioria das substâncias que entram pela corrente sanguínea. Mesmo quando a molécula consegue atravessar, ela enfrenta compartimentos ácidos dentro das células que podem destruí-la antes que funcione. Para contornar isso, a Alnylam modificou quimicamente o siRNA e acoplou a ele uma cadeia de gordura chamada C16, funcionando como uma âncora lipídica que facilita a passagem pelas membranas celulares e aumenta a estabilidade da molécula.
Os únicos dados disponíveis sobre eficácia vêm de testes em camundongos. Em doses baixas, pesquisadores observaram uma redução de aproximadamente 15% no RNA mensageiro responsável pela produção da proteína príon. Daniel Dahis, doutor em Engenharia Biomédica e especialista em pesquisa clínica, explicou ao G1 que esse resultado indica atividade biológica, mas não prova que o mesmo efeito produziria benefício clínico em uma pessoa. Os testes também não demonstraram se a redução da proteína normal diminuiu a formação da proteína deformada, nem se os animais viveram mais tempo.
Os dados de segurança são igualmente limitados. Apresentações da Alnylam a investidores em 2021 descrevem testes com a mesma tecnologia C16 em ratos e primatas. Os exames não identificaram alterações atribuídas à substância em avaliações clínicas, neurológicas ou em órgãos como cérebro, medula espinhal, fígado e rins. Mas esses testes tiveram duração limitada e caráter preliminar. A empresa completou um conjunto mais amplo de testes pré-clínicos de segurança para outro programa voltado ao Alzheimer, mas o candidato para a proteína príon ainda não percorreu todas essas etapas.
O uso compassivo não é aprovação de medicamento. Não comprova eficácia. É um mecanismo regulatório que permite acesso excepcional a uma terapia em investigação após análise da agência sanitária, em casos nos quais as opções disponíveis não oferecem resposta adequada. No caso de Lito, a Anvisa autorizou a administração do ALN-6457 antes do início de estudos clínicos formais com a molécula. Isso fez dele o primeiro ser humano a receber o composto.
A doença de Creutzfeldt-Jakob permanece sem tratamento capaz de interromper sua progressão. Apenas ensaios clínicos com acompanhamento de pacientes e comparação sistemática de resultados poderão determinar se a redução da proteína príon produzida pelo ALN-6457 pode alterar o curso da enfermidade. Por enquanto, a questão central permanece sem resposta: saber se essa redução pode modificar efetivamente a evolução da doença. Para respondê-la, pesquisadores precisariam avaliar segurança, dose adequada, duração dos efeitos e impacto sobre sintomas e sobrevida em grupos maiores de pacientes — o trabalho que ainda não começou.
Notable Quotes
Esse resultado constitui um sinal de atividade biológica, mas não permite concluir que o mesmo efeito produziria benefício clínico em uma pessoa— Daniel Dahis, doutor em Engenharia Biomédica e especialista em pesquisa clínica