Lito Sousa recebeu molécula experimental nunca testada em humanos contra Creutzfeldt-Jakob

Lito Sousa faleceu em decorrência de complicações da doença de Creutzfeldt-Jakob, aproximadamente duas semanas após receber a substância experimental.
Reduzir RNA não é a mesma coisa que frear a doença
A redução de 15% no RNA príon em camundongos é um sinal biológico, mas não prova benefício clínico.
Mark

Por que a Anvisa autorizou um medicamento que nunca havia sido testado em humanos?

Mimi

O uso compassivo é um mecanismo regulatório que permite exatamente isso quando a doença é grave e não há alternativa. A Creutzfeldt-Jakob é fatal e progressiva. Lito estava internado na UTI. Do ponto de vista regulatório, o risco de fazer nada era tão grande quanto o risco de tentar algo experimental.

Luke

Mas temos que ser claros: não sabemos se o ALN-6457 ajudou ou prejudicou. Lito morreu duas semanas depois. Não há como saber se a molécula acelerou, desacelerou ou foi irrelevante para o desfecho.

Mark

Os testes em camundongos mostraram redução de 15% no RNA. Isso é promissor?

Mimi

É um sinal biológico positivo. Significa que a estratégia funciona no nível molecular que se esperava. Mas reduzir RNA não é a mesma coisa que frear a doença.

Luke

Exatamente. O experimento não mostrou se essa redução de 15% impediu a formação da proteína deformada, nem se prolongou a vida dos camundongos. É um passo inicial, não uma prova de conceito.

Mark

Como a molécula consegue chegar ao cérebro se há uma barreira que bloqueia remédios?

Mimi

A Alnylam usou uma âncora de gordura chamada C16 acoplada à molécula. Funciona como um carona: a gordura facilita a passagem pela membrana da célula. Mas mesmo assim, dentro da célula há compartimentos ácidos que podem destruir a molécula antes dela agir.

Luke

E não sabemos se essa estratégia de C16 é segura a longo prazo. Os testes em primatas foram curtos e preliminares. O pacote de segurança completo que os reguladores exigem antes de estudos em humanos só foi feito para outro programa, não para este.

Mark

Então Lito foi basicamente um experimento?

Mimi

Sim, mas um experimento consentido, sob um mecanismo legal. Ele estava morrendo. A equipe esperava que exames seis semanas depois mostrassem se algo havia mudado. Não chegou a esse ponto.

Luke

E isso é importante: não temos dados sobre o que aconteceu. Não sabemos se houve reação adversa tardia, se a molécula chegou ao cérebro, nada. Temos apenas a morte de um paciente duas semanas depois de receber uma substância nunca testada em humanos.

  • Lito Sousa morreu em 1º de outubro, aproximadamente duas semanas após receber ALN-6457
  • ALN-6457 nunca havia sido administrado em humanos antes; autorizado pela Anvisa por uso compassivo
  • Testes em camundongos mostraram redução de 15% no RNA mensageiro da proteína príon
  • Nenhum ensaio clínico foi realizado; pacote de segurança completo só foi feito para programa de Alzheimer

Lito Sousa morreu após receber ALN-6457, substância nunca administrada em pessoa, autorizada pela Anvisa por mecanismo de uso compassivo. A molécula usa RNA de interferência para reduzir produção de proteína príon; testes em camundongos mostraram redução de 15%, mas sem comprovação de benefício clínico.

Lito Sousa recebeu ALN-6457, molécula experimental da Regeneron e Alnylam, em uso compassivo contra doença de Creutzfeldt-Jakob. Ele faleceu dias depois; dados preliminares mostram redução de 15% no RNA priônico em camundongos, mas eficácia em humanos permanece desconhecida.

Lito Sousa morreu na quinta-feira, 1º de outubro, vítima de complicações da doença de Creutzfeldt-Jakob. Duas semanas antes, ele havia recebido uma substância que nunca havia sido administrada a nenhuma pessoa: o ALN-6457, um composto desenvolvido pela farmacêutica americana Regeneron em parceria com a Alnylam Pharmaceuticals. Era uma aposta desesperada contra uma doença para a qual não existe tratamento capaz de frear sua progressão.

A aplicação do medicamento experimental ocorreu sob um mecanismo regulatório chamado uso compassivo, autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esse instrumento permite que pacientes com doenças graves, debilitantes ou que ameaçam a vida recebam medicamentos ainda experimentais e sem registro sanitário quando não há alternativa terapêutica eficaz disponível. A esposa de Lito, Mila Seidl, revelou o tratamento em vídeo divulgado em 14 de setembro, informando que ele já estava internado na Unidade de Terapia Intensiva quando recebeu o composto no fim de semana anterior. Ela relatou que não houve reação adversa imediata, um dos riscos inerentes ao teste de uma molécula inédita em um ser humano. A equipe médica esperava que exames realizados seis semanas depois indicassem se o quadro havia mudado.

O ALN-6457 funciona por um mecanismo biológico específico. A Creutzfeldt-Jakob nasce de uma proteína chamada príon que, em sua forma normal, existe no cérebro sem causar problemas. Na doença, uma versão dobrada de maneira anormal passa a funcionar como molde: ao tocar nas proteínas saudáveis, obriga-as a se dobrar do mesmo jeito, e o dano se espalha pelo tecido cerebral. O tratamento tenta agir antes dessa etapa de propagação. Ele usa uma molécula pequena de RNA de interferência, que aciona um mecanismo natural das células e faz com que elas parem de produzir a proteína príon específica. Dentro da célula, a molécula é processada por um conjunto de proteínas que funciona como um sistema de busca, localizando as cópias de RNA mensageiro que carregam a receita da proteína príon e as destruindo antes que a proteína seja fabricada. Com menos cópias da receita, a célula produz menos príon. A lógica é que, com menos proteína saudável disponível, sobra menos material para ser deformado. A estratégia não desfaz o estrago já feito nem corrige as proteínas que já se dobraram de forma errada, mas, em teoria, poderia desacelerar o avanço da doença ao reduzir a produção de novas proteínas vulneráveis.

Levar a molécula até o lugar certo é a parte mais difícil. O cérebro é protegido pela barreira hematoencefálica, uma espécie de filtro natural que bloqueia a maioria dos remédios aplicados na veia ou tomados por via oral. Além disso, depois de entrar na célula, a molécula cai em compartimentos ácidos que a célula usa para digerir o que recebe, e, se não for resistente, é destruída antes de agir. Para contornar esses obstáculos, a plataforma da Alnylam combina modificações químicas que preservam o siRNA com a ligação a uma cadeia de gordura chamada C16. Ela funciona como uma âncora gordurosa presa à molécula e facilita sua passagem pela membrana da célula, barreira que, sem esse recurso, bloquearia moléculas com as características do siRNA.

O que se sabe sobre a eficácia do ALN-6457 vem de dados preliminares e indiretos. Não há estudo clínico sobre o composto, portanto não se conhecem seus efeitos em pessoas. Documentos públicos da Alnylam mostram que as doenças priônicas, grupo que reúne a Creutzfeldt-Jakob e outras causadas pela mesma proteína, estavam entre os alvos da colaboração desde o início. Um pedido de patente da Alnylam para um siRNA conjugado a C16 e dirigido à proteína príon coincide com a descrição da substância autorizada pela Anvisa. O documento traz um teste em camundongos: na menor dose avaliada, houve redução de cerca de 15% no RNA mensageiro responsável pela produção da proteína priônica. Para especialistas, o número é um sinal biológico positivo, mas não permite prever se um paciente sentiria diferença. O experimento não verificou se a queda na proteína normal reduziu a formação da versão deformada, nem mostrou ganho de sobrevida em animais, e muito menos em humanos.

Quanto à segurança, apresentações públicas da Alnylam a investidores descrevem testes em ratos e em primatas com a mesma tecnologia de conjugação C16 usada no sistema nervoso central. Os exames clínicos, neurológicos e de órgãos como cérebro, medula espinhal, fígado e rim não mostraram alterações atribuídas à substância. Os testes, no entanto, foram preliminares e de curta duração. O pacote de segurança mais completo, exigido pelos reguladores antes de iniciar estudos em humanos, foi concluído pela empresa apenas para outro programa, voltado ao Alzheimer, e não para o candidato contra a proteína príon.

O caminho até uma resposta definitiva passa pelos ensaios clínicos, etapa que o ALN-6457 ainda não cumpriu. Só com dados completos de segurança e a comparação entre muitos pacientes será possível saber se reduzir a proteína príon altera o curso de uma doença que, até hoje, não tem tratamento capaz de interrompê-la.

O número é um sinal biológico positivo, mas não permite prever se um paciente sentiria diferença
— Daniel Dahis, doutor em Engenharia Biomédica e especialista em pesquisa clínica
O conjunto indica que a estratégia merece ser investigada, sobretudo diante de uma doença sem tratamento capaz de interromper sua progressão, desde que se considerem as incertezas de segurança
— Daniel Dahis
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