Liquidez de NY segue alimentando alta do Ibovespa, mas riscos locais ganham força

Dois gigantes ocupam quase metade do espaço — quando eles se movem, o resto fica invisível.
Vale e Petrobras dominam mais de um quarto do Ibovespa, determinando o movimento do índice apesar da maioria das ações caírem.
Mark

Por que Vale e Petrobras conseguem puxar o índice inteiro para cima quando a maioria das ações cai?

Mimi

Porque representam mais de um quarto da carteira teórica. É como se o índice fosse uma sala onde dois gigantes ocupam quase metade do espaço — quando eles se movem, o resto fica invisível.

Mark

Mas por que exatamente esses dois ganham enquanto o resto perde?

Mimi

Porque estão vendendo o que o mundo quer agora: minério de ferro e petróleo. Com juros subindo nos EUA, investidores procuram proteção contra inflação. Commodities são essa proteção. Vale e Petrobras ganham porque vendem commodities.

Mark

E as ações que caem — Alpargatas, Banco PAN, Lojas Renner — por que sofrem?

Mimi

Porque ganham quando juros estão baixos. Quando você toma empréstimo caro, consome menos. Quando consome menos, varejo sofre. Quando juros sobem, o dinheiro fica mais caro, e essas empresas perdem.

Mark

O ministro Guedes quer cortar impostos sobre combustível. Isso não ajuda?

Mimi

Não, porque o preço do combustível é determinado pelo petróleo internacional e pela cotação do dólar. Cortar imposto tira receita do governo sem resolver o problema real. E pior: aumenta o risco fiscal, o que pressiona o dólar para cima, encarecendo ainda mais o combustível.

Mark

Então o governo está preso?

Mimi

Está. Crescimento desacelerando, receitas caindo, e precisa manter as contas públicas saudáveis. Qualquer movimento errado alimenta a sensação de risco, e aí a liquidez que veio dos EUA volta correndo para lá.

Mark

Quanto tempo dura esse fluxo de dólares?

Mimi

Enquanto os juros americanos forem atraentes e o risco local não explodir. Mas gestores já estão céticos. As eleições vêm aí, e isso assusta. Quando o medo tomar conta, a liquidez seca.

  • O Ibovespa fechou em alta de 0,97%, mas 53 das 92 ações do índice caíram — o ganho foi obra quase exclusiva de Vale e Petrobras, que juntas pesam mais de um quarto da carteira.
  • Ações sensíveis à alta de juros sofreram perdas expressivas: Alpargatas despencou 6,91%, Banco PAN recuou 5,22% e Lojas Renner perdeu 4,05%, expondo a fragilidade do rali.
  • O governo anunciou uma PEC para cortar impostos sobre combustíveis, mas gestores e analistas alertaram que a medida é inócua diante da paridade internacional adotada pela Petrobras — e potencialmente danosa às contas públicas.
  • Com a Selic prestes a retornar aos dois dígitos e riscos eleitorais ganhando volume, o ceticismo sobre a durabilidade do fluxo estrangeiro crescia entre os gestores.
  • O dólar recuou 0,65%, fechando em R$ 5,2709, mas a pergunta que pairava era por quanto tempo a liquidez americana continuaria escolhendo o Brasil como destino.

Em fevereiro de 2022, a bolsa brasileira abriu o mês com um avanço modesto, mas a alta do Ibovespa escondeu uma divisão profunda: o ganho veio quase inteiramente de Vale e Petrobras, beneficiadas pelo redirecionamento global de capital em fuga dos ativos de crescimento americanos. O mesmo fluxo que ergue exportadores de commodities castiga empresas sensíveis a juros, revelando que o mercado brasileiro não sobe por força própria, mas como destino provisório de uma liquidez que pode retornar tão rapidamente quanto chegou.

Fevereiro começou com o Ibovespa em alta de 0,97%, fechando em 113.228 pontos — mas a sessão revelou uma bolsa dividida. Das 92 ações do índice, 53 caíram. O avanço foi obra concentrada de Vale e Petrobras, que juntas representam mais de um quarto da carteira teórica e subiram 5,49% e 2,5%, respectivamente, com o minério de ferro cotado a US$ 147 a tonelada nos portos chineses.

A explicação está no movimento global de capital. Com o Federal Reserve sinalizando alta de juros a partir de março, os rendimentos dos títulos americanos voltaram a subir, empurrando investidores para fora de ativos de crescimento — especialmente tecnologia — e em direção a commodities e seus exportadores, vistos como proteção contra a inflação.

O mesmo fluxo que beneficia Vale e Petrobras penaliza outros setores. Alpargatas caiu 6,91%, Banco PAN recuou 5,22%, Lojas Renner perdeu 4,05% e a B3 fechou em queda de 2,46%. O setor bancário mostrou-se heterogêneo: Itaú subiu levemente, enquanto Santander recuou. Os bancos carregam um risco latente — são grandes detentores de títulos públicos, vulneráveis a qualquer deterioração fiscal.

Esse risco fiscal ganhava voz no mercado. O ministro Paulo Guedes anunciou uma proposta de emenda constitucional para reduzir impostos sobre combustíveis, mas a medida foi recebida com ceticismo: sob o regime de paridade internacional da Petrobras, o efeito seria de poucos centavos, rapidamente recompostos. Pior, cortes de impostos em momento de desaceleração poderiam ampliar o déficit, pressionar o dólar e, paradoxalmente, encarecer ainda mais os combustíveis.

Na quarta-feira seguinte, a Selic seria elevada em 1,5 ponto percentual, chegando a 10,75% ao ano — retomando o patamar de dois dígitos abandonado em 2017. Os gestores eram céticos quanto à durabilidade do rali: os riscos eleitorais cresciam, e a própria alta de juros nos Estados Unidos poderia, em breve, tornar os títulos americanos mais atraentes do que os emergentes. O dólar fechou em R$ 5,2709, com queda semanal de 2,21%, e o volume do Ibovespa girou R$ 21 bilhões. Mas a pergunta que pairava era simples e inquietante: por quanto tempo esse fluxo continuaria escolhendo o Brasil?

Fevereiro começou com o Ibovespa subindo 0,97%, fechando em 113.228 pontos, mas a sessão de terça-feira revelou uma bolsa dividida. Das 92 ações do índice, 53 caíram. O ganho veio concentrado: Vale e Petrobras, que juntas representam mais de um quarto da carteira teórica, puxaram o índice para cima com altas de 5,49% e 2,5% respectivamente. O minério de ferro estava cotado a US$ 147 a tonelada nos portos chineses, enquanto o barril de petróleo em Londres escorregava levemente, a pouco abaixo de US$ 89.

O que explica essa dinâmica é o fluxo de dólares que continua escorrendo de Nova York para mercados emergentes. O Federal Reserve manteve estímulos durante a pandemia, acumulando liquidez nos mercados americanos. Agora, com expectativas de alta de juros a partir de março, os rendimentos dos títulos de dívida americana voltaram a subir, e essa gangorra financeira puxa capital para fora dos ativos de crescimento — especialmente tecnologia — e o redireciona para alternativas que ofereçam proteção contra inflação. Commodities e seus exportadores se tornaram atraentes nesse contexto.

Mas o mesmo movimento que beneficia Vale e Petrobras castiga outros setores. Ações sensíveis à alta de juros sofreram quedas significativas: Alpargatas caiu 6,91%, Banco PAN recuou 5,22%, Lojas Renner perdeu 4,05%, e B3 fechou com queda de 2,46%. Esses papéis, que lucram quando as taxas estão baixas, enfrentam ventos contrários. O setor bancário, que representa 17% da composição do índice, mostrou-se heterogêneo: Itaú Unibanco subiu 0,69%, enquanto Santander caiu 0,43%. Os bancos são vistos como defensivos porque ganham com juros mais altos, mas carregam um risco latente — são grandes detentores de títulos do governo, e qualquer deterioração fiscal pode atingi-los em cheio.

Esse risco fiscal, aliás, começava a ganhar volume na conversa dos mercados. O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciava uma proposta de emenda constitucional para reduzir preços de combustíveis cortando impostos. A medida é praticamente inócua sob o regime de paridade internacional que a Petrobras adota — tiraria apenas alguns centavos do preço da gasolina e diesel, rapidamente recompostos. Os preços nos postos foram levados aonde estão pela lei da oferta e da demanda global, contra a qual nenhuma caneta presidencial tem poder. O que poderia ajudar seria reduzir o dólar, que está bem acima dos níveis praticados entre pares do Brasil, mas o governo tem atuado na direção contrária.

Guedes prometia cortes de impostos em um momento de desaceleração do crescimento e redução de receitas — um discurso bonito, mas inexequível sem comprometer as contas públicas. Pior: seria contraproducente. Um rombo fiscal maior significaria mais dívida pública, o que alimentaria a sensação de risco no mercado, pressionando o dólar para cima e, portanto, os combustíveis também. Naquela quarta-feira, a Selic seria ajustada em 1,5 ponto, chegando a 10,75% ao ano — retomando o patamar de dois dígitos que havia sido abandonado em 2017, quando o teto de gastos foi erguido e a sensação de risco esfriou. Esse teto havia sido derrubado pelo próprio Guedes, que agora sugeria um teto de impostos em seu lugar.

Os gestores eram céticos quanto à manutenção desse ritmo de alta por muito tempo. Os riscos locais, especialmente os ligados às eleições, começavam a fazer barulho. Além disso, a própria alta de juros nos Estados Unidos, em paralelo à desaceleração da atividade local, tinha potencial de aguçar a aversão ao risco dos investidores em relação a emergentes. Quando isso acontecesse, a liquidez que havia transbordado para o Brasil retornaria aos títulos americanos, cujos rendimentos crescentes ofereceriam alternativa mais segura. Por enquanto, porém, a toada de janeiro seguia viva. O dólar caiu 0,65% no mercado à vista, fechando em R$ 5,2709, com queda de 2,21% na semana. O volume de negociação do Ibovespa girou R$ 21 bilhões. Mas a pergunta que pairava era por quanto tempo esse fluxo continuaria alimentando a bolsa brasileira.

Gestores são céticos quanto a manutenção desse ritmo de rali por muito tempo no Brasil, seja por causa dos riscos locais ligados às eleições, seja pela própria alta de juros nos Estados Unidos.
— Análise de gestores citados na reportagem
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