Em fevereiro de 2022, a bolsa brasileira abriu o mês com um avanço modesto, mas a alta do Ibovespa escondeu uma divisão profunda: o ganho veio quase inteiramente de Vale e Petrobras, beneficiadas pelo redirecionamento global de capital em fuga dos ativos de crescimento americanos. O mesmo fluxo que ergue exportadores de commodities castiga empresas sensíveis a juros, revelando que o mercado brasileiro não sobe por força própria, mas como destino provisório de uma liquidez que pode retornar tão rapidamente quanto chegou.
Liquidez de NY segue alimentando alta do Ibovespa, mas riscos locais ganham força
Dois gigantes ocupam quase metade do espaço — quando eles se movem, o resto fica invisível.
Por que Vale e Petrobras conseguem puxar o índice inteiro para cima quando a maioria das ações cai?
Porque representam mais de um quarto da carteira teórica. É como se o índice fosse uma sala onde dois gigantes ocupam quase metade do espaço — quando eles se movem, o resto fica invisível.
Mas por que exatamente esses dois ganham enquanto o resto perde?
Porque estão vendendo o que o mundo quer agora: minério de ferro e petróleo. Com juros subindo nos EUA, investidores procuram proteção contra inflação. Commodities são essa proteção. Vale e Petrobras ganham porque vendem commodities.
E as ações que caem — Alpargatas, Banco PAN, Lojas Renner — por que sofrem?
Porque ganham quando juros estão baixos. Quando você toma empréstimo caro, consome menos. Quando consome menos, varejo sofre. Quando juros sobem, o dinheiro fica mais caro, e essas empresas perdem.
O ministro Guedes quer cortar impostos sobre combustível. Isso não ajuda?
Não, porque o preço do combustível é determinado pelo petróleo internacional e pela cotação do dólar. Cortar imposto tira receita do governo sem resolver o problema real. E pior: aumenta o risco fiscal, o que pressiona o dólar para cima, encarecendo ainda mais o combustível.
Então o governo está preso?
Está. Crescimento desacelerando, receitas caindo, e precisa manter as contas públicas saudáveis. Qualquer movimento errado alimenta a sensação de risco, e aí a liquidez que veio dos EUA volta correndo para lá.
Quanto tempo dura esse fluxo de dólares?
Enquanto os juros americanos forem atraentes e o risco local não explodir. Mas gestores já estão céticos. As eleições vêm aí, e isso assusta. Quando o medo tomar conta, a liquidez seca.
The Pulse
- O Ibovespa fechou em alta de 0,97%, mas 53 das 92 ações do índice caíram — o ganho foi obra quase exclusiva de Vale e Petrobras, que juntas pesam mais de um quarto da carteira.
- Ações sensíveis à alta de juros sofreram perdas expressivas: Alpargatas despencou 6,91%, Banco PAN recuou 5,22% e Lojas Renner perdeu 4,05%, expondo a fragilidade do rali.
- O governo anunciou uma PEC para cortar impostos sobre combustíveis, mas gestores e analistas alertaram que a medida é inócua diante da paridade internacional adotada pela Petrobras — e potencialmente danosa às contas públicas.
- Com a Selic prestes a retornar aos dois dígitos e riscos eleitorais ganhando volume, o ceticismo sobre a durabilidade do fluxo estrangeiro crescia entre os gestores.
- O dólar recuou 0,65%, fechando em R$ 5,2709, mas a pergunta que pairava era por quanto tempo a liquidez americana continuaria escolhendo o Brasil como destino.
Em fevereiro de 2022, a bolsa brasileira abriu o mês com um avanço modesto, mas a alta do Ibovespa escondeu uma divisão profunda: o ganho veio quase inteiramente de Vale e Petrobras, beneficiadas pelo redirecionamento global de capital em fuga dos ativos de crescimento americanos. O mesmo fluxo que ergue exportadores de commodities castiga empresas sensíveis a juros, revelando que o mercado brasileiro não sobe por força própria, mas como destino provisório de uma liquidez que pode retornar tão rapidamente quanto chegou.
Fevereiro começou com o Ibovespa em alta de 0,97%, fechando em 113.228 pontos — mas a sessão revelou uma bolsa dividida. Das 92 ações do índice, 53 caíram. O avanço foi obra concentrada de Vale e Petrobras, que juntas representam mais de um quarto da carteira teórica e subiram 5,49% e 2,5%, respectivamente, com o minério de ferro cotado a US$ 147 a tonelada nos portos chineses.
A explicação está no movimento global de capital. Com o Federal Reserve sinalizando alta de juros a partir de março, os rendimentos dos títulos americanos voltaram a subir, empurrando investidores para fora de ativos de crescimento — especialmente tecnologia — e em direção a commodities e seus exportadores, vistos como proteção contra a inflação.
O mesmo fluxo que beneficia Vale e Petrobras penaliza outros setores. Alpargatas caiu 6,91%, Banco PAN recuou 5,22%, Lojas Renner perdeu 4,05% e a B3 fechou em queda de 2,46%. O setor bancário mostrou-se heterogêneo: Itaú subiu levemente, enquanto Santander recuou. Os bancos carregam um risco latente — são grandes detentores de títulos públicos, vulneráveis a qualquer deterioração fiscal.
Esse risco fiscal ganhava voz no mercado. O ministro Paulo Guedes anunciou uma proposta de emenda constitucional para reduzir impostos sobre combustíveis, mas a medida foi recebida com ceticismo: sob o regime de paridade internacional da Petrobras, o efeito seria de poucos centavos, rapidamente recompostos. Pior, cortes de impostos em momento de desaceleração poderiam ampliar o déficit, pressionar o dólar e, paradoxalmente, encarecer ainda mais os combustíveis.
Na quarta-feira seguinte, a Selic seria elevada em 1,5 ponto percentual, chegando a 10,75% ao ano — retomando o patamar de dois dígitos abandonado em 2017. Os gestores eram céticos quanto à durabilidade do rali: os riscos eleitorais cresciam, e a própria alta de juros nos Estados Unidos poderia, em breve, tornar os títulos americanos mais atraentes do que os emergentes. O dólar fechou em R$ 5,2709, com queda semanal de 2,21%, e o volume do Ibovespa girou R$ 21 bilhões. Mas a pergunta que pairava era simples e inquietante: por quanto tempo esse fluxo continuaria escolhendo o Brasil?
Fevereiro começou com o Ibovespa subindo 0,97%, fechando em 113.228 pontos, mas a sessão de terça-feira revelou uma bolsa dividida. Das 92 ações do índice, 53 caíram. O ganho veio concentrado: Vale e Petrobras, que juntas representam mais de um quarto da carteira teórica, puxaram o índice para cima com altas de 5,49% e 2,5% respectivamente. O minério de ferro estava cotado a US$ 147 a tonelada nos portos chineses, enquanto o barril de petróleo em Londres escorregava levemente, a pouco abaixo de US$ 89.
O que explica essa dinâmica é o fluxo de dólares que continua escorrendo de Nova York para mercados emergentes. O Federal Reserve manteve estímulos durante a pandemia, acumulando liquidez nos mercados americanos. Agora, com expectativas de alta de juros a partir de março, os rendimentos dos títulos de dívida americana voltaram a subir, e essa gangorra financeira puxa capital para fora dos ativos de crescimento — especialmente tecnologia — e o redireciona para alternativas que ofereçam proteção contra inflação. Commodities e seus exportadores se tornaram atraentes nesse contexto.
Mas o mesmo movimento que beneficia Vale e Petrobras castiga outros setores. Ações sensíveis à alta de juros sofreram quedas significativas: Alpargatas caiu 6,91%, Banco PAN recuou 5,22%, Lojas Renner perdeu 4,05%, e B3 fechou com queda de 2,46%. Esses papéis, que lucram quando as taxas estão baixas, enfrentam ventos contrários. O setor bancário, que representa 17% da composição do índice, mostrou-se heterogêneo: Itaú Unibanco subiu 0,69%, enquanto Santander caiu 0,43%. Os bancos são vistos como defensivos porque ganham com juros mais altos, mas carregam um risco latente — são grandes detentores de títulos do governo, e qualquer deterioração fiscal pode atingi-los em cheio.
Esse risco fiscal, aliás, começava a ganhar volume na conversa dos mercados. O ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciava uma proposta de emenda constitucional para reduzir preços de combustíveis cortando impostos. A medida é praticamente inócua sob o regime de paridade internacional que a Petrobras adota — tiraria apenas alguns centavos do preço da gasolina e diesel, rapidamente recompostos. Os preços nos postos foram levados aonde estão pela lei da oferta e da demanda global, contra a qual nenhuma caneta presidencial tem poder. O que poderia ajudar seria reduzir o dólar, que está bem acima dos níveis praticados entre pares do Brasil, mas o governo tem atuado na direção contrária.
Guedes prometia cortes de impostos em um momento de desaceleração do crescimento e redução de receitas — um discurso bonito, mas inexequível sem comprometer as contas públicas. Pior: seria contraproducente. Um rombo fiscal maior significaria mais dívida pública, o que alimentaria a sensação de risco no mercado, pressionando o dólar para cima e, portanto, os combustíveis também. Naquela quarta-feira, a Selic seria ajustada em 1,5 ponto, chegando a 10,75% ao ano — retomando o patamar de dois dígitos que havia sido abandonado em 2017, quando o teto de gastos foi erguido e a sensação de risco esfriou. Esse teto havia sido derrubado pelo próprio Guedes, que agora sugeria um teto de impostos em seu lugar.
Os gestores eram céticos quanto à manutenção desse ritmo de alta por muito tempo. Os riscos locais, especialmente os ligados às eleições, começavam a fazer barulho. Além disso, a própria alta de juros nos Estados Unidos, em paralelo à desaceleração da atividade local, tinha potencial de aguçar a aversão ao risco dos investidores em relação a emergentes. Quando isso acontecesse, a liquidez que havia transbordado para o Brasil retornaria aos títulos americanos, cujos rendimentos crescentes ofereceriam alternativa mais segura. Por enquanto, porém, a toada de janeiro seguia viva. O dólar caiu 0,65% no mercado à vista, fechando em R$ 5,2709, com queda de 2,21% na semana. O volume de negociação do Ibovespa girou R$ 21 bilhões. Mas a pergunta que pairava era por quanto tempo esse fluxo continuaria alimentando a bolsa brasileira.
Notable Quotes
Gestores são céticos quanto a manutenção desse ritmo de rali por muito tempo no Brasil, seja por causa dos riscos locais ligados às eleições, seja pela própria alta de juros nos Estados Unidos.— Análise de gestores citados na reportagem