A cada ciclo tarifário, o Brasil é convidado a confrontar o preço invisível de sua dependência energética. Desta vez, a Aneel avalia um reajuste de quase 18% nas contas de luz da Light — distribuidora que serve 4,5 milhões de unidades no Rio de Janeiro —, impulsionado pela crise hídrica de 2021 e pelos custos que as bandeiras tarifárias não conseguiram absorver. A decisão, debatida em audiência pública em janeiro, entrará em vigor em março e carrega consigo um peso que vai muito além da conta de luz: é o custo da escassez distribuído sobre quem menos pode suportá-lo.
Light pode reajustar conta de luz em até 18% a partir de março
Os demais consumidores acabam pagando a conta de quem pratica o desvio
Por que a Aneel permite que a Light aumente tanto a tarifa de uma vez? Não há limite?
Há limites, mas eles são estabelecidos pela própria agência após análise de custos. O que acontece é que a crise hídrica criou um rombo — as bandeiras tarifárias não arrecadaram o suficiente. Então a Aneel precisa decidir como cobrir esse buraco sem deixar a distribuidora quebrada.
E por que os consumidores de baixa renda sofrem mais?
Porque eles gastam 60, 70% do orçamento com coisas essenciais — comida, aluguel, luz. Quando a luz sobe 18%, não é só a conta que aumenta. É o pão que fica mais caro, porque a padaria paga mais energia. É tudo.
Os gatos de luz realmente impactam tanto assim?
Sim. Quando alguém rouba energia, quem paga é o vizinho honesto. A Light tem que cobrir essa perda em algum lugar, e acaba sendo na tarifa geral. É um custo invisível que todos carregam.
A chuva em janeiro não resolveu o problema?
Não com o vigor esperado. E tem seca no sul. Os reservatórios ainda estão longe de se recuperar completamente. Enquanto isso, a geração por hidrelétricas continua cara.
Então esse aumento vai durar quanto tempo?
Depende da recuperação hídrica e de como a Aneel gerencia as bandeiras nos próximos meses. Mas a estrutura de custos que a Light tem agora — encargos, manutenção, expansão — não desaparece rápido.
Il Polso
- Um reajuste de 17,89% nas tarifas residenciais da Light ameaça corroer ainda mais o orçamento de milhões de famílias fluminenses já pressionadas pela inflação.
- A crise hídrica de 2021 deixou um rombo que as bandeiras tarifárias não cobriram, e esse saldo agora é repassado diretamente ao consumidor.
- Pequenas e médias empresas enfrentarão correção média de 17,96%, enquanto grandes indústrias terão ajuste menor — uma assimetria que redistribui o ônus de forma desigual.
- Economistas alertam para um efeito cascata: energia mais cara eleva custos de produção em setores intensivos, que repassam os aumentos ao consumidor final em produtos e serviços.
- Consumidores de baixa renda, que destinam parcela maior do orçamento a itens essenciais, serão os mais vulneráveis ao impacto — com pouca margem para absorver ou compensar a alta.
- A audiência pública abriu espaço para que a Light pleiteie reajuste ainda maior, enquanto entidades de defesa do consumidor buscam conter o percentual proposto.
A cada ciclo tarifário, o Brasil é convidado a confrontar o preço invisível de sua dependência energética. Desta vez, a Aneel avalia um reajuste de quase 18% nas contas de luz da Light — distribuidora que serve 4,5 milhões de unidades no Rio de Janeiro —, impulsionado pela crise hídrica de 2021 e pelos custos que as bandeiras tarifárias não conseguiram absorver. A decisão, debatida em audiência pública em janeiro, entrará em vigor em março e carrega consigo um peso que vai muito além da conta de luz: é o custo da escassez distribuído sobre quem menos pode suportá-lo.
A Light, distribuidora que atende 4,5 milhões de unidades consumidoras em 37 municípios do Rio de Janeiro, caminha para reajustar suas tarifas residenciais em até 17,89% a partir de março. A Aneel realizou audiência pública virtual em 19 de janeiro para debater a revisão tarifária — processo que ocorre a cada quatro ou cinco anos e considera tanto gastos passados não cobertos quanto despesas futuras previstas, como manutenção e expansão da rede.
No centro da discussão está a crise hídrica de 2021: mesmo com a bandeira de escassez hídrica ativada, a arrecadação ficou aquém do necessário para cobrir os custos do setor, deixando um saldo que precisa ser equacionado para garantir o capital de giro das distribuidoras. O percentual proposto supera a inflação acumulada do ano passado. Para além dos clientes residenciais, pequenas e médias empresas enfrentarão correção média de 17,96%, enquanto grandes indústrias terão ajuste de 9,52%.
Um agravante estrutural é o custo das ligações clandestinas — os chamados gatos de luz —, que é repartido entre os demais consumidores. Economistas sugerem investimento em fiação subterrânea como forma de reduzir esse repasse no futuro. A audiência também abriu espaço para que a própria Light solicite percentual ainda maior, enquanto órgãos de defesa do consumidor podem pleitear uma correção menor.
O impacto, porém, não se limita à conta de luz. Especialistas da FGV e do Insper alertam que a energia mais cara funciona como vetor de espalhamento inflacionário: indústrias automobilísticas, siderúrgicas e shoppings repassam custos maiores para produtos e lojistas, que os transferem ao consumidor final. Os mais vulneráveis são os de baixa renda, que gastam proporcionalmente mais com itens essenciais e têm menor capacidade de recompor a renda. O horizonte hídrico para 2022 também preocupa — apesar das chuvas de janeiro, o volume ficou abaixo do esperado e a seca no sul do país lança sombras sobre a recuperação dos reservatórios.
A Light, distribuidora de energia que atende 4,5 milhões de unidades consumidoras em 37 municípios do Rio de Janeiro, está prestes a reajustar suas tarifas residenciais em até 17,89% a partir de março. A decisão será tomada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) após uma audiência pública virtual marcada para 19 de janeiro, transmitida pelo canal da agência no Youtube, onde qualquer cidadão interessado pode participar e apresentar suas posições.
O reajuste faz parte de um processo que a Aneel realiza a cada quatro ou cinco anos para revisar as tarifas das distribuidoras de energia. Segundo Fernando Umbria, consultor em energia elétrica, a agência analisa gastos anteriores não cobertos pelas bandeiras tarifárias e despesas futuras previstas, como manutenção de equipamentos e expansão da rede. Neste caso específico, o percentual proposto para clientes residenciais é de 17,89%, enquanto o efeito médio para todos os clientes da empresa deve ser de 15,13%. Pequenas e médias empresas enfrentarão uma correção média de 17,96%, enquanto grandes empresas e indústrias terão ajuste de 9,52%.
A crise hídrica que assolou o país em 2021 está no cerne dessa decisão. A arrecadação com as bandeiras tarifárias extras — mecanismo criado para cobrir custos adicionais de geração de energia em períodos de escassez — não foi suficiente para cobrir os gastos do setor. Umbria explica que mesmo com a bandeira de escassez hídrica em vigor, a arrecadação ficou aquém do necessário, deixando um saldo que precisa ser resolvido para que as distribuidoras mantenham capital de giro. Por isso, o percentual de aumento supera a inflação acumulada de 2021.
Durante a audiência pública, a Light poderá solicitar um reajuste ainda maior, assim como clientes e órgãos de defesa do consumidor podem pleitear uma correção menor. As justificativas apresentadas pela empresa incluem custos com encargos setoriais, gastos com distribuição e compra de energia, além de componentes financeiros do processo tarifário atual. O debate também abordará indicadores de continuidade de serviço para o período de 2023 a 2027. Os índices entrarão em vigor em 13 de março.
Um fator adicional que contribui para o reajuste é o custo das perdas por furto de energia através de ligações clandestinas, conhecidas como gatos de luz. Gilberto Braga, economista e professor do Ibmec RJ, aponta que esses custos são repassados aos demais consumidores, que acabam pagando pela energia desviada. Para minimizar aumentos futuros, sugere investimento em fiação subterrânea.
Os consumidores de baixa renda serão os mais prejudicados. Como gastam a maior parte de seu orçamento com itens essenciais como alimentação e moradia, o aumento na conta de luz reduz ainda mais sua capacidade de consumo. Braga lamenta que, embora a energia represente pouco mais de 5% do IPCA, o impacto é relevante em toda a economia — não apenas na conta de luz, mas em tudo que se consome, já que empresas repassam custos maiores de energia para seus produtos e serviços.
André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, aponta que o desafio hídrico deve continuar em 2022. Embora janeiro tenha começado com bom volume de chuvas, o vigor foi menor que o esperado, e há uma seca no sul do país que traz pessimismo para a recuperação plena dos reservatórios. Ele destaca que o novo reajuste pesa sobre a estrutura produtiva porque a energia já vem cara desde 2021, e mesmo que haja bandeiras menos onerosas a partir de maio, essa queda será compensada pelo aumento já anunciado. A energia mais cara funciona como fonte de espalhamento das pressões inflacionárias: indústrias automobilísticas e siderúrgicas, intensivas em energia, aumentam preços de produtos; shopping centers repassam custos maiores para lojistas, que repassam para consumidores finais.
Alexandre Chaia, professor de finanças do Insper, concorda que o aumento será embutido no preço de diversos produtos do dia a dia, já que a luz é um bem usado em diversos processos de produção. Também analisa que o aumento é preocupante porque as pessoas não têm capacidade econômica de repor suas rendas — nem trabalhadores, nem empresários. Enquanto isso, a Enel Distribuição Rio terá sua discussão tarifária iniciada em fevereiro, com conclusão prevista para março.
Citazioni salienti
Mesmo a Aneel tendo estabelecido a bandeira da escassez hídrica, não conseguiu arrecadar o que era preciso. Existe ainda um valor que precisa ser resolvido. Caso contrário, as distribuidoras vão ficar sem capital de giro.— Fernando Umbria, consultor em energia elétrica
O consumidor não vai pagar mais caro só por deixar a luz acesa em casa, mas também em tudo que consumir.— Gilberto Braga, economista e professor do Ibmec RJ