Em Nova Délhi, líderes de nações que representam metade da humanidade se sentam à mesma mesa carregando visões de mundo profundamente distintas. A cúpula do Brics de 2026 não é apenas uma reunião diplomática — é um espelho das tensões que definem a ordem global contemporânea, onde o desejo de multipolaridade encontra a realidade das divergências irreconciliáveis. O que Modi conseguir costurar entre Putin, Xi e Pezeshkian revelará se blocos do Sul Global podem, de fato, falar com uma só voz quando o mundo mais precisa de clareza.
Líderes do Brics se reúnem na Índia em meio a guerras e tensões globais
Consenso não veio; a Índia divulgou apenas um resumo
Por que é tão difícil para o Brics chegar a um consenso? Eles não compartilham interesses comuns?
Compartilham alguns, mas as guerras atuais os colocam em lados diferentes. A Rússia está envolvida na Ucrânia, o Irã está no Oriente Médio, e a Índia tenta não se alienar de nenhum deles enquanto cultiva relações com o Ocidente.
Mas isso levanta uma pergunta: o Brics realmente funciona como um bloco, ou é mais um fórum onde países com interesses divergentes fingem ter uma voz unificada?
É uma boa pergunta. O que sabemos é que em maio eles não conseguiram nem aprovar uma declaração sobre o Irã. Agora Modi quer uma declaração conjunta ao final desta cúpula.
E qual é a chance de conseguir?
Difícil dizer. Depende de quanto cada país está disposto a ceder. A Índia tem poder de convocação, mas não pode forçar consenso.
Há algo concreto que o Brics pode fazer para reduzir a dependência do dólar, ou é mais aspiração do que realidade?
Eles estão discutindo o uso de moedas nacionais nas transações entre membros e alternativas a instituições financeiras ocidentais. Mas implementar isso é complexo.
Então Modi está tentando equilibrar tudo isso — manter a Rússia e o Irã próximos enquanto aprofunda laços com os EUA?
Exatamente. É uma corda bamba diplomática. Ele se reuniu separadamente com Putin e Pezeshkian antes da cúpula.
Isso sugere que as conversas bilaterais podem ser mais importantes que o encontro plenário?
Pode ser. Às vezes, o consenso vem de negociações paralelas, não da mesa grande.
E se não conseguirem uma declaração conjunta desta vez?
Então o Brics sairia enfraquecido, sugerindo que o bloco não consegue falar com uma voz unificada em momentos de crise.
Der Puls
- Guerras na Ucrânia e no Oriente Médio pairam sobre cada mesa de negociação, tornando qualquer declaração conjunta um exercício de equilíbrio quase impossível.
- Em maio, os próprios ministros das Relações Exteriores do Brics já haviam falhado em produzir consenso sobre o conflito envolvendo o Irã — um precedente que pressiona Modi a evitar nova humilhação diplomática.
- A Índia ocupa uma posição contraditória e central: mantém laços com Rússia e Irã enquanto aprofunda parcerias com Washington e Bruxelas, tornando-se simultaneamente o mediador mais capaz e o mais comprometido.
- A agenda estrutural — moedas locais, reforma de instituições internacionais, redução da dependência do dólar — avança em paralelo, mas corre o risco de ser eclipsada pelas fraturas geopolíticas.
- Milhares de policiais e forças paramilitares nas ruas de Nova Délhi traduzem em logística o peso simbólico e político do encontro — e a consciência de que reunir essas potências é, por si só, um ato de risco calculado.
Em Nova Délhi, líderes de nações que representam metade da humanidade se sentam à mesma mesa carregando visões de mundo profundamente distintas. A cúpula do Brics de 2026 não é apenas uma reunião diplomática — é um espelho das tensões que definem a ordem global contemporânea, onde o desejo de multipolaridade encontra a realidade das divergências irreconciliáveis. O que Modi conseguir costurar entre Putin, Xi e Pezeshkian revelará se blocos do Sul Global podem, de fato, falar com uma só voz quando o mundo mais precisa de clareza.
Nova Délhi recebe neste sábado uma cúpula que coloca à prova a própria razão de ser do Brics. Vladimir Putin, Xi Jinping e Masoud Pezeshkian chegam à capital indiana carregando agendas que, em vários pontos, se contradizem — e Narendra Modi, como presidente do bloco neste ano, precisa transformar esse encontro em ao menos uma declaração conjunta ao final do dia.
A tarefa é árdua. Em maio, quando os chanceleres do grupo tentaram se pronunciar sobre o conflito envolvendo o Irã, o consenso não veio. A Índia precisou divulgar apenas um resumo das conversas, expondo divergências profundas demais para uma posição unificada. Agora, com os próprios líderes presentes e as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio ainda sem solução, a pressão é ainda maior.
A agenda formal cobre terreno amplo — comércio, energia, segurança alimentar, tecnologia — e inclui questões estruturais como o uso de moedas nacionais nas transações entre membros e a reforma de instituições financeiras internacionais historicamente dominadas pelo Ocidente. São pautas que unem o bloco no discurso, mas que avançam lentamente diante das fraturas políticas.
O Brics cresceu de quatro para onze membros desde 2006 e hoje representa cerca de metade da população mundial. Esse peso deveria conferir ao grupo uma voz poderosa — mas o tamanho não resolve o problema das visões incompatíveis. A posição da Índia ilustra bem o dilema: Modi preservou os vínculos com Moscou após a invasão da Ucrânia e mantém relações estratégicas com Teerã, ao mesmo tempo em que aprofunda parcerias com Washington e capitais europeias. Na véspera da cúpula, ele se reuniu separadamente com Putin e Pezeshkian — um sinal de que as conversas bilaterais podem valer mais do que o plenário.
O que emergir deste encontro — uma declaração robusta ou apenas um comunicado vago — dirá muito sobre a capacidade real do Brics de funcionar como bloco coeso em um mundo cada vez mais fragmentado.
Em Nova Délhi, neste sábado, os líderes do Brics se encontram para uma cúpula que testa os limites da coesão do bloco. Vladimir Putin, Xi Jinping, Masoud Pezeshkian e outros chefes de Estado chegam a uma mesa onde as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio pairam como questões não resolvidas, e as tensões crescentes entre Washington e Pequim funcionam como pano de fundo para cada discussão.
Narendra Modi, primeiro-ministro indiano e presidente do grupo neste ano, enfrenta uma tarefa diplomática delicada: conseguir que esses líderes assinem uma declaração conjunta ao final do encontro. Não é tarefa simples. Em maio, quando os ministros das Relações Exteriores do Brics tentaram se pronunciar sobre a guerra envolvendo o Irã, o consenso não veio. A Índia precisou divulgar apenas um resumo das discussões, deixando claro que as diferenças eram profundas demais para uma posição unificada.
A agenda formal é ampla: comércio, investimentos, energia, segurança alimentar, tecnologia e cadeias de suprimentos ocupam espaço. Mas há também questões estruturais que o bloco quer endereçar — como ampliar a voz dos países em desenvolvimento nas instituições internacionais e reduzir a dependência do dólar nas transações entre seus membros. Os países do Brics defendem o uso de moedas nacionais em seus negócios mútuos e buscam fortalecer alternativas às instituições financeiras tradicionais, historicamente lideradas pelo Ocidente.
O grupo começou em 2006 com apenas quatro membros — Brasil, Rússia, Índia e China. A África do Sul entrou em 2010, e nos últimos anos houve uma expansão significativa. Hoje, o Brics reúne 11 países que, juntos, representam cerca de metade da população mundial e uma parcela importante da economia global. Esse peso demográfico e econômico deveria conferir ao bloco uma voz forte nas negociações internacionais. Mas o tamanho não resolve o problema das divergências.
A posição da Índia exemplifica bem essa tensão. Modi tenta manter relações próximas com Rússia e Irã — ambos membros do Brics — enquanto amplia simultaneamente suas parcerias econômicas, militares e tecnológicas com os Estados Unidos e países europeus. Nova Délhi preservou seus vínculos com Moscou mesmo após a invasão da Ucrânia e mantém relações estratégicas com Teerã apesar das tensões entre o Irã e Washington. Na sexta-feira, antes da abertura da cúpula, Modi se reuniu separadamente com Putin e Pezeshkian — um sinal de que as conversas bilaterais podem ser tão importantes quanto o encontro plenário.
A presença do Irã torna as discussões sobre o Oriente Médio especialmente delicadas. O país está diretamente envolvido no conflito regional, enquanto outros membros do Brics mantêm diferentes graus de aproximação com os Estados Unidos. Essa configuração aumenta exponencialmente a dificuldade de produzir uma posição única sobre a guerra e sobre como o bloco deve se relacionar com Washington. As divergências não são apenas retóricas — refletem interesses geopolíticos reais e incompatíveis.
Para garantir a segurança do encontro, a capital indiana mobilizou milhares de policiais e integrantes de forças paramilitares. O trânsito sofreu restrições e desvios. A logística pesada é um sinal de quanto a Índia leva a sério este momento, mas também sugere a complexidade de reunir líderes de potências que, em muitos aspectos, competem entre si. O que Modi conseguir extrair dessa cúpula — uma declaração conjunta robusta ou apenas um comunicado vago — dirá muito sobre a capacidade real do Brics de funcionar como um bloco coeso em um mundo cada vez mais fragmentado.
Bemerkenswerte Zitate
Um dos principais objetivos da diplomacia indiana é conseguir que os líderes aprovem uma declaração conjunta ao fim da cúpula— Contexto da reunião