A um ano das eleições presidenciais brasileiras de 2022, a imprensa francesa voltou seus olhos para Luiz Inácio Lula da Silva com uma clareza que o debate interno raramente permitia: o jornal Libération dedicou sua capa ao ex-presidente, enxergando nele não apenas um candidato, mas uma necessidade histórica diante do que descrevia como o perigo representado por Jair Bolsonaro à democracia brasileira. O gesto editorial europeu revelava, à distância, as tensões profundas de um país dividido entre o peso de seu passado político e a urgência de seu futuro — climático, social e democrático.
Libération: Bolsonaro é perigo, Lula é o líder que Brasil merece
Um país escolhendo entre um passado que funcionou e um presente que queima
Por que um jornal francês dedicaria sua capa a um político brasileiro naquele momento específico?
Porque Lula representava algo maior que uma eleição doméstica. Era a questão de se um país inteiro conseguiria se recuperar de um governo que o Libération via como uma ameaça existencial — à democracia, ao meio ambiente, à própria racionalidade.
Mas isso é a interpretação do jornal. O que sabemos de fato é que Lula tinha 25 pontos de vantagem nas pesquisas e concedeu uma entrevista exclusiva. O resto é análise editorial.
E quanto ao PT? Por que o partido estava tão enfraquecido se Lula era tão popular?
Porque Lula e o PT não eram a mesma coisa mais. Ele tinha 80% de popularidade em 2012, mas seus candidatos não herdavam esse apoio. O partido havia perdido 400 cidades. Enquanto isso, movimentos sociais mais radicais — mulheres, LGBTI, negros, indígenas — estavam encontrando voz em outros lugares, em partidos como o PSOL.
Isso é importante: a análise mostra que o PT estava desconectado de seus próprios movimentos sociais. Mas não sabemos exatamente por quê. Houve uma ruptura? Uma mudança geracional? O texto não explora isso.
Marielle Franco é mencionada de repente. Por que ela importa para essa história?
Porque ela era tudo que o PT não era mais — jovem, negra, bissexual, de favela, radical. Ela encarnava uma esquerda diferente. Seu assassinato em 2018 criou uma onda de choque que o PT não conseguiu canalizar. Depois, Boulos quase venceu em São Paulo. Essas eram as novas vozes.
O texto diz que Marielle era membra do PSOL, não do PT. Então ela não era uma perda do PT, era uma figura que o PSOL conseguiu atrair. Isso é uma nuance importante.
Então Lula era a solução por falta de opção?
Não exatamente. Ele era a solução porque Bolsonaro era visto como uma ameaça existencial. Mas sim, havia uma sensação de que o Brasil estava escolhendo entre dois extremos — um passado que funcionou melhor e um presente que estava queimando.
O Libération diz que Bolsonaro tinha "responsabilidade imensa" nas mortes por Covid. Mas o texto não detalha isso. Quantas mortes? Qual era exatamente a responsabilidade? Isso é uma acusação séria que merecia mais substância.
E Ciro Gomes? Por que ele atacava o PT em vez de Bolsonaro?
Porque ele estava tentando ganhar eleitores de centro-direita. Escolheu um vice que era uma estrela de TV sensacionalista. Era uma estratégia de se posicionar como uma alternativa mais palatável que Lula.
Mas o texto não explica por que essa estratégia fazia sentido naquele momento. Havia espaço real para um candidato de centro-esquerda? Ou Ciro estava apenas dividindo o voto da oposição? Não sabemos.
O que o Libération esperava que acontecesse?
Que Lula vencesse e que o Brasil voltasse a ser uma força na luta climática e na democracia. Que os brasileiros resistissem aos "golpes baixos" de um governo que o jornal via como uma máfia.
Mas isso é esperança editorial, não previsão. O texto não oferece nenhuma análise de como Lula venceria, ou se havia obstáculos reais. Apenas assume que ele deveria vencer porque era a opção menos pior.
El Pulso
- Com 25 pontos de vantagem nas pesquisas, Lula era visto pelo Libération como o único antídoto viável contra um governo de extrema direita que saqueava a Amazônia e acumulava mortos pela Covid-19.
- O PT vivia uma crise silenciosa: menos popular que o próprio Lula, o partido perdia 400 prefeituras e cedia espaço a movimentos sociais e legendas mais radicais como o PSOL.
- O assassinato de Marielle Franco em 2018 e a ascensão de Guilherme Boulos ao segundo turno em São Paulo sinalizavam uma esquerda em reconfiguração, mais plural e mais urgente.
- Ciro Gomes, candidato declarado pelo PDT, concentrava seus ataques no PT numa estratégia que mirava eleitores de centro-direita, fragmentando ainda mais o campo progressista.
- A mídia francesa — do Libération ao canal TMC — expressava surpresa e atenção diante de um ex-presidiário que voltava ao centro do poder com o respaldo de uma população mobilizada contra Bolsonaro.
A um ano das eleições presidenciais brasileiras de 2022, a imprensa francesa voltou seus olhos para Luiz Inácio Lula da Silva com uma clareza que o debate interno raramente permitia: o jornal Libération dedicou sua capa ao ex-presidente, enxergando nele não apenas um candidato, mas uma necessidade histórica diante do que descrevia como o perigo representado por Jair Bolsonaro à democracia brasileira. O gesto editorial europeu revelava, à distância, as tensões profundas de um país dividido entre o peso de seu passado político e a urgência de seu futuro — climático, social e democrático.
O jornal francês Libération dedicou sua capa a Lula em outubro de 2021, publicando um editorial que o apresentava como o líder que o Brasil merecia — e uma entrevista exclusiva que o jornal interpretou como a de um candidato já em preparação, mesmo que o ex-presidente ainda falasse em reflexão. A vantagem de 25 pontos nas pesquisas sobre Bolsonaro e o contexto de um governo associado à destruição ambiental e ao elevado número de mortos pela pandemia tornavam Lula, aos olhos franceses, uma figura incontornável.
O editorial alertava, porém, para os riscos do caminho: um ano era tempo suficiente para golpes baixos ou tentativas mais graves de ruptura institucional, comparando a situação brasileira à da família Trump, que precisou ser quase despejada à força da Casa Branca. O Libération reconhecia a falta de renovação no PT, mas argumentava que a urgência democrática e climática superava essa limitação.
Em análise complementar, o jornalista François-Xavier Gomez mapeava a crise interna do PT com precisão: o partido havia perdido 400 prefeituras nas eleições anteriores e era ultrapassado, no campo social, por coletivos e partidos mais radicais. A trajetória histórica do PT — que havia projetado políticas inovadoras a partir de cidades como Porto Alegre e São Paulo, inspirando o altermundialismo no Fórum Social Mundial — parecia distante de uma legenda agora à margem dos grandes movimentos de mulheres, negros, indígenas e sem-teto.
O PSOL emergia como símbolo dessa reconfiguração da esquerda. Marielle Franco, vereadora negra, feminista e bissexual nascida numa favela, havia encarnado essa nova voz antes de ser assassinada em 2018. Guilherme Boulos, ao chegar ao segundo turno em São Paulo em 2020, confirmava nas urnas o que os movimentos sociais já anunciavam nas ruas. Enquanto isso, Ciro Gomes atacava o PT para conquistar eleitores de centro-direita, e a televisão francesa expressava surpresa diante de um ex-presidiário que, diante do perigo Bolsonaro, voltava a ser convocado por uma população cada vez mais mobilizada.
O jornal francês Libération dedicou sua capa de quinta-feira passada a Luiz Inácio Lula da Silva, publicando um editorial que o apresenta como o líder que o Brasil merecia naquele momento. A matéria acompanhava uma entrevista exclusiva concedida pelo ex-presidente ao veículo europeu, realizada a um ano das eleições presidenciais brasileiras de 2022.
Na avaliação do Libération, Lula chegava àquele período com uma vantagem de 25 pontos percentuais sobre o presidente Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. Embora o ex-metalúrgico afirmasse estar ainda em reflexão sobre sua candidatura, o jornal francês interpretava a entrevista como a de um futuro candidato já em preparação. O editorial caracterizava Bolsonaro como um perigo tão significativo para o país que os brasileiros pareciam dispostos a trazer de volta ao poder um veterano que muitos acreditavam condenado ao repouso merecido, especialmente após ter passado um ano e meio na prisão acusado de corrupção.
O Libération argumentava que Lula, revitalizado pelo apoio de parcela considerável da população e encorajado pela ideia de ser o único recurso contra um presidente de extrema direita, estava motivado e desejava que isso fosse conhecido. O jornal sugeria que o ex-presidente poderia estar aguardando o máximo de tempo possível antes de formalizar sua candidatura, deixando o presidente brasileiro na incerteza e impedindo-o de afinar sua estratégia. O editorial alertava para os riscos do período: um ano era muito tempo, e seria necessário resistir a golpes baixos ou até mesmo a tentativas de golpe de Estado, comparando a situação brasileira à da família Trump, que precisou quase ser despejada à força da Casa Branca.
O jornal reconhecia a falta de renovação no Partido dos Trabalhadores, observando que a sigla tinha inclusive menos popularidade que Lula pessoalmente. Ainda assim, enfatizava que a urgência era encorajar os brasileiros a se dotarem de um líder à altura do país. O editorial destacava que o Brasil deveria exercer papel maior na luta contra as mudanças climáticas, algo que não era prioridade para Bolsonaro, que continuava saqueando deliberadamente a Amazônia.
Em análise complementar publicada na mesma edição, o jornalista François-Xavier Gomez apontava que Lula era incontornável para um PT em crise. A popularidade do ex-presidente ultrapassava amplamente a do partido que havia fundado, que estava em queda nas urnas e sendo ultrapassado no campo social por partidos mais radicais. Gomez fazia referência à perda de 400 cidades nas eleições municipais do ano anterior. Durante as eleições municipais de 2012, Lula havia mostrado nível de popularidade de 80%, do qual os candidatos com a mesma bandeira não se beneficiavam na mesma medida.
O jornalista lembrava que as prefeituras haviam sido um respaldo para a ascensão ao poder de Lula. Desde o fim dos anos 1980, a gestão de grandes cidades como Porto Alegre, São Paulo e Santos havia projetado a imagem de políticas inéditas a serviço da justiça social. Essas experiências de participação cidadã e ideias inovadoras em transportes, urbanismo, saúde, educação e saneamento haviam chamado atenção das esquerdas do mundo inteiro, exemplificadas pelo Fórum Social Mundial de Porto Alegre, berço do altermundialismo no começo dos anos 2000. Na visão de Gomez, o partido estava à margem de grandes movimentos da sociedade, apesar de seus 1,5 milhão de filiados, perdendo espaço para o combate das mulheres e comunidades LGBTI contra violência endêmica, as múltiplas formas de segregação enfrentadas por negros e povos indígenas, o direito à terra e a defesa do meio ambiente, que se expressavam em uma constelação de coletivos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, os sem terra, a coalizão negra e a Frente Povo Sem Medo.
O PT havia sido pressionado pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Marielle Franco, carismática vereadora do Rio de Janeiro e membra do PSOL, era negra, feminista, bissexual e nascida numa favela, encarnando a tomada de palavra de partes da população amplamente ausentes do debate público. Seu assassinato em plena rua em março de 2018 criou uma onda de choque na sociedade brasileira. Em 2020, outra personalidade do PSOL entrou em cena: Guilherme Boulos chegou ao segundo turno das eleições municipais de São Paulo, personificando a emergência nas urnas de uma esquerda radical, assim como seu colega Edmilson Rodrigues, eleito prefeito de Belém.
O artigo também apontava a necessidade de Lula para o PT diante de rivais à esquerda, como o PSB e o PDT de Ciro Gomes. Ciro, candidato declarado para o ano seguinte, concentrava seus ataques no PT, numa estratégia visando ganhar eleitores mais de direita do que de esquerda. Poucos dias depois, o canal TMC, pertencente ao Grupo TF1, principal empresa privada de comunicação da França, abordou o papel de Lula nas próximas eleições. O programa "Quotidien" expressou surpresa pelo fato de Lula ter popularidade após ter saído da prisão, observando que diante do perigo representado pelo presidente de extrema direita, os brasileiros estavam dispostos a convocar novamente o ex-presidente de esquerda, enquanto as manifestações anti-Bolsonaro se intensificavam no país.
Citas Notables
Jair Bolsonaro se tornou um tamanho perigo para seu país que os brasileiros parecem prontos a convocar novamente ao poder o veterano Lula— Editorial do Libération
A popularidade de Lula ultrapassa amplamente a do partido que ele fundou, em queda nas urnas e ultrapassado no campo social por partidos mais radicais— François-Xavier Gomez, jornalista do Libération