Lei Maria da Penha protegeu mulheres, mas não mudou mentalidade dos homens

Mulheres continuam sendo vítimas de violência doméstica, feminicídio e agressões, apesar da proteção legal oferecida pela Lei Maria da Penha.
Tivemos um pacto de proteger mulheres, não de impedir a violência
Barsted resume a limitação fundamental da Lei Maria da Penha: ela defende quem sofre, mas não muda quem agride.
Mark

A anedota do táxi é perturbadora porque o motorista parece estar brincando sobre ter agredido a esposa. Como você interpreta isso?

Mimi

Ele não estava brincando. Estava normalizando. Para ele, dar uns tapas em público era algo tão comum que podia virar piada. A lei virou conhecida, mas a mentalidade que produz a violência continua intacta.

Mark

Você disse que 300 mil medidas protetivas por ano mantêm as mulheres vivas. Isso é proteção ou é apenas contenção?

Mimi

É proteção real. Mas é proteção reativa, não preventiva. Estamos salvando mulheres que já estão em perigo. O que não fizemos foi impedir que chegassem a esse perigo.

Mark

Por que a prevenção falhou tão completamente?

Mimi

Porque prevenção é invisível. Não gera manchete. Não elege ninguém. Investir em educação antimisógina desde o jardim da infância é trabalho de duas décadas. Aumentar pena de crime é uma coisa que você faz em um ano eleitoral e anuncia.

Mark

A lei original não mencionava raça ou etnia. Foi um erro?

Mimi

Não foi erro, foi limitação do momento. A lei foi escrita para mulheres em geral. Mas mulheres indígenas, quilombolas, sofrem violências que a lei não nomeava. Agora estamos aprendendo a ver isso.

Mark

Como você explica que o Congresso de 2026 seja tão hostil a pautas de gênero quando o de 2006 não era?

Mimi

A extrema direita não estava presente no Congresso daquela forma. Havia diálogo. Hoje há uma rejeição ativa à palavra gênero nos textos legais. É um retrocesso político real.

Mark

Se a Lei Maria da Penha fosse implementada completamente, você acredita que os números de violência cairiam?

Mimi

Sim. Mas não o suficiente. Porque a violência é sintoma de uma discriminação muito mais ampla. Mulheres ganham menos, desempregam mais, não têm poder político. Enquanto isso não mudar, a violência vai continuar.

  • Índices de feminicídio seguem batendo recordes mesmo com 300 mil medidas protetivas concedidas por ano, revelando que proteger vítimas não é o mesmo que mudar agressores.
  • A prevenção prevista no artigo 8º da lei — que incluiria educação antimisógina desde o jardim da infância — nunca foi implementada, deixando uma geração inteira sem a formação que poderia ter reduzido a violência.
  • O Consórcio feminista que escreveu a lei original agora propõe uma legislação mais ampla, que abranja violência pública, institucional, obstétrica, digital e contra mulheres indígenas e quilombolas.
  • O Congresso de 2026 é mais conservador e hostil a pautas de gênero do que o de 2006 — a palavra 'gênero' foi praticamente banida dos textos legais desde 2015, tornando o caminho político mais estreito.
  • Para Barsted, o problema não é a lei em si, mas sua implementação incompleta: faltam delegacias especializadas, juizados, serviços de saúde e, sobretudo, vontade política de sustentar o que foi prometido.

Vinte anos após a aprovação da Lei Maria da Penha, o Brasil contempla uma conquista jurídica que salvou incontáveis vidas — e, ao mesmo tempo, uma lacuna que nenhuma lei sozinha pode preencher. Leila Linhares Barsted, uma de suas redatoras, observa que a lei tornou-se expressão popular, mas a mentalidade que alimenta a violência masculina permanece intacta. A proteção avançou; a transformação cultural, não. E é nesse intervalo — entre o que a lei promete e o que a sociedade ainda não entregou — que mulheres continuam morrendo.

Leila Linhares Barsted, uma das principais redatoras da Lei Maria da Penha, costuma contar a história de um taxista que usou a expressão 'me deu uma Maria da Penha' para descrever a denúncia feita pela esposa depois de ele tê-la agredido em público. A anedota diz tudo: a lei virou linguagem cotidiana, mas não mudou o comportamento de quem bate.

Em 2002, Barsted coordenou seis organizações feministas que redigiram o anteprojeto. O contexto era grave — a violência doméstica era tratada como 'briga de casal', e agressores pagavam, no máximo, uma cesta básica. A lei aprovada em agosto de 2006 veio romper com essa lógica.

Vinte anos depois, o balanço é ambíguo. As medidas protetivas funcionam — a maioria das mulheres que as recebem continua viva. Mas os números de violência e feminicídio não caem. Parte disso reflete maior notificação; parte, falhas reais: faltaram investimentos em delegacias especializadas, juizados e serviços de saúde. E faltou, sobretudo, prevenção. O artigo 8º da lei previa educação antimisógina desde a infância. Nunca foi implementado.

Barsted critica as dezenas de alterações que a lei recebeu ao longo dos anos, especialmente as que apenas aumentam penas — medidas eleitoreiras que não tocam na raiz do problema. Mas reconhece dois avanços importantes: a tipificação da violência psicológica e o reconhecimento da violência vicária, pela qual agressores usam filhos e familiares como instrumentos de controle.

Agora, o Consórcio propõe uma lei geral de proteção às mulheres, que vá além da violência doméstica e abranja agressões no espaço público, violência institucional, obstétrica, digital e política — além de reconhecer as especificidades de mulheres indígenas, quilombolas e rurais, cujos territórios também são alvos.

O obstáculo é político. O Congresso de hoje é mais conservador do que o de 2006, e a palavra 'gênero' foi praticamente apagada dos textos legais desde 2015. Barsted sabe que a batalha será dura. Mas sua convicção é simples: a Lei Maria da Penha não precisa ser reescrita — precisa, finalmente, ser cumprida de A a Z.

Leila Linhares Barsted, uma das principais redatoras da Lei Maria da Penha, gosta de contar uma história que resume como a lei se tornou conhecida no Brasil. Entrou em um táxi cujo carro estava velho e descuidado. O motorista pediu desculpas e explicou: tinha planejado comprar um carro novo, mas sua mulher lhe deu uma Maria da Penha. Quando Barsted perguntou o que tinha acontecido, ele respondeu que tinha dado uns tapas nela em público, na frente de testemunhas. A anedota ilustra bem o ponto que ela quer fazer: a lei virou conhecida, virou até expressão popular, mas isso não significa que mudou a mentalidade dos homens que agridem.

Em 2002, Barsted coordenou a reunião de seis organizações feministas que escreveram o anteprojeto da lei. O grupo, que se tornou o Consórcio Lei Maria da Penha, pressionou pela aprovação, que veio em agosto de 2006. Na época, o Brasil tinha um problema estrutural: a violência contra mulheres era naturalizada, vista como briga de marido e mulher, não como crime. Policiais e juízes, sendo produtos dessa mesma sociedade, tendiam a minimizar os casos. Pior ainda: em 1995, o Brasil tinha criado a lei nº 9.099, que tratava crimes com pena de até dois anos como de menor potencial ofensivo. Mais de 70% das denúncias que chegavam aos juizados especiais eram de violência contra mulheres, e o máximo que o agressor pagava era uma cesta básica. A Lei Maria da Penha veio para mudar isso.

Vinte anos depois, Barsted avalia que a lei cumpriu parte de sua promessa. Hoje, todo mundo conhece a Maria da Penha. As mulheres têm meios para se defender que não tinham antes. O Estado concede cerca de 300 mil medidas protetivas por ano, e a maioria das mulheres que as recebem continua viva. Funciona, diz ela. Mas os números de violência e feminicídio continuam batendo recordes. Parte disso se deve a maior notificação — mulheres agora denunciam porque sabem que podem — e parte se deve a falhas na implementação da lei. Não houve investimento suficiente em delegacias especializadas, em novos juizados, em serviços de saúde. A mudança cultural, ela sabe, leva tempo. Leva ainda mais tempo quando não há política pública forte para sustentar a lei.

Barsted é clara sobre o que não foi feito: prevenção. O artigo 8º da lei determinava que conceitos antimisóginos, antiracistas e anti-homofóbicos fossem incluídos no currículo escolar de todos os níveis, desde o jardim da infância. Se isso tivesse sido implementado há vinte anos, os índices de violência poderiam ser muito diferentes agora. Mas não foi. Ela também aponta que a violência contra mulheres não existe isolada — faz parte de um quadro mais amplo de discriminação. As mulheres ganham menos, desempregam mais, têm baixíssima representação política (18%) e quase nenhuma no judiciário. Tudo isso contribui para que sejam agredidas.

Nos últimos vinte anos, a lei recebeu dezenas de alterações. Barsted critica muitas delas, especialmente as que simplesmente aumentam penas — algo que acontece muito em época de eleição e que, na sua visão, não resolve o problema de homens que não aceitam perder um milímetro de poder. Mas duas mudanças foram importantes: a inclusão da violência psicológica no Código Penal e a violência vicária, que reconhece como os agressores usam os laços afetivos das mulheres, como filhos e mães, para atingi-las.

Agora, o Consórcio propõe uma lei geral de proteção às mulheres em situação de violência. A Lei Maria da Penha trata apenas de violência doméstica. A convenção internacional que o Brasil assinou em 1995, a Convenção de Belém do Pará, fala também de violência no espaço público, violência institucional, obstétrica, sexual, digital, política. Fala de violência contra mulheres líderes rurais, indígenas, de movimentos sociais. A proposta de lei integral também insiste em uma dimensão que a Lei Maria da Penha não contempla suficientemente: a questão racial e étnica. Mulheres indígenas, quilombolas, rurais sofrem violências que atingem também seu território, sua moradia, não só seu corpo.

Mas o cenário político mudou muito desde os anos 2000. Naquela época, havia abertura no Congresso. A Lei Maria da Penha tramitou sem receber emendas. Hoje, desde 2015, a palavra gênero foi basicamente abolida dos textos legais — quando se aprovou a lei do feminicídio, a ministra teve que tirar a palavra gênero do projeto. Barsted se prepara para enfrentar um Congresso pouco receptivo a pautas de gênero, mais conservador, mais hostil. Mas ela não mudaria nada na Lei Maria da Penha original. O que precisa é ser implementada de A a Z. E depois, talvez, o Brasil finalmente esteja pronto para ir além.

Não ocorreu um pacto para impedir que ocorra a violência. Tivemos um pacto de proteger mulheres em situação de violência.
— Leila Linhares Barsted
Em termos de mentalidade, mudou pouco, principalmente na cabeça dos homens.
— Leila Linhares Barsted
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