Labatut merece atenção além do rótulo de fenômeno literário

A busca pela ruptura de barreiras científicas massacra os próprios cientistas
Labatut explora como o avanço do conhecimento está ligado à destruição e ao sofrimento humano.
Mark

Por que você acha que esse rótulo de "fenômeno literário" é tão problemático? Não é só marketing?

Mimi

É mais do que isso. Quando você cola um rótulo assim, você está dizendo ao leitor: "Não precisa pensar, já decidimos por você." Tira a chance de a pessoa descobrir o livro por conta própria.

Luke

Mas Labatut realmente foi finalista do Booker Prize. Esses números não são invenção. A questão é se eles explicam por que o livro é bom.

Mimi

Exatamente. Os números explicam por que ele vendeu, não por que ele funciona como literatura.

Mark

E o livro funciona? Qual é a força dele?

Mimi

A forma como ele trata a tensão entre genialidade e destruição. Cada conto mostra cientistas que avançam o conhecimento humano, mas esse avanço está sempre ligado a morte, sofrimento, guerra.

Luke

Ele consegue manter essa tensão ao longo de todo o livro, ou ela desaparece em alguns momentos?

Mimi

Mantém bem. Mas no final ele comete um erro — tenta explicar demais o que já havia mostrado. É como se não confiasse no leitor.

Mark

Então não é um livro perfeito.

Mimi

Não. Mas é um livro que merece ser lido. Há estilo ali, há um olhar original. Isso importa mais do que qualquer rótulo.

Luke

E para quem não gosta de contos? O livro funciona para leitores que preferem narrativas mais longas?

Mimi

Um dos contos ocupa quase metade do livro, então há espaço para quem quer mergulho mais profundo. Mas sim, é um livro de contos. Quem não gosta do formato pode não se conectar.

  • A indústria editorial colou em Labatut a etiqueta de 'fenômeno literário', criando uma expectativa que pode obscurecer o que o livro realmente oferece.
  • Cinco narrativas atravessam vidas de cientistas como Einstein, Heisenberg e Schrödinger, revelando como genialidade e ruína coexistem no mesmo impulso criador.
  • A figura de Fritz Haber — inventor dos fertilizantes modernos e do gás cloro usado como arma na Primeira Guerra — condensa a tensão central do livro: criação e destruição como faces inseparáveis.
  • A prosa de Labatut atinge momentos de plenitude, mas tropeça ao explicar demais o próprio trabalho nas páginas finais, revelando uma falta de confiança no que já havia sido construído.
  • O livro encontra seu valor real não nos números de vendas ou nos endossos de Barack Obama, mas no estilo original com que mapeia a fronteira entre o conhecimento e o abismo.

Em meio ao ruído dos rótulos comerciais que a indústria editorial distribui com generosidade, o chileno Benjamín Labatut emerge com um livro que merece atenção por razões mais silenciosas e duradouras. 'Quando Deixamos de Entender o Mundo' tece fatos e ficção para revelar como a genialidade científica e a destruição habitam o mesmo território — uma tensão que o século 20 conheceu bem e que a literatura raramente soube nomear com tanta precisão. O que está em jogo aqui não é um fenômeno de mercado, mas a pergunta antiga sobre o preço do conhecimento e o que fazemos com ele.

Há uma prática conhecida na indústria editorial: eleger um autor competente, afixar nele o selo de 'fenômeno literário' e distribuir a notícia como se fosse descoberta. Benjamín Labatut, nascido na Holanda em 1980 e radicado no Chile desde os 14 anos, recebeu esse tratamento. Os números são respeitáveis — publicado em duas dezenas de países, finalista do International Booker Prize em 2021, endossado por Barack Obama. Mas números dizem pouco sobre o que um livro realmente faz.

'Quando Deixamos de Entender o Mundo', publicado pela Todavia em tradução de Paloma Vidal, é um livro de contos com estrutura ensaística que mescla fatos e ficção para narrar vidas de cientistas que redefiniram o século 20. Cinco narrativas — quatro breves, uma que ocupa quase metade das 176 páginas — percorrem trajetórias marcadas por genialidade, turbulência e inquietação. Einstein, Heisenberg e Schrödinger habitam essas páginas ao lado de personagens consumidos pela obsessão e dispostos a desmontar a própria noção de realidade.

O que sustenta o livro é uma tensão precisa: a linha tênue entre o território inexplorado e o precipício. Um dos contos abre com Fritz Haber, o químico alemão que inventou os fertilizantes de nitrogênio modernos — substância que alimentou centenas de milhões de pessoas — e que também criou o gás cloro usado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Essa costura entre criação e destruição percorre toda a obra, revelando como o avanço científico está profundamente ligado a formas cada vez mais sofisticadas de provocar morte e sofrimento.

Há momentos em que a prosa atinge plenitude genuína. Mas Labatut tropeça nas linhas finais do último conto, onde busca garantir que o leitor compreendeu o que as histórias já haviam demonstrado — um gesto desnecessário, uma falta de confiança no que foi construído. Ainda assim, o livro funciona. Não porque alguém o rotulou de fenômeno, mas porque há aqui um autor com estilo bem definido e um olhar original sobre como a ciência, a ambição e a destruição se entrelaçam. Esqueçamos os rótulos — o que importa é que vale ser lido.

Há uma prática que se repete na indústria editorial com certa regularidade: pega-se um autor com trabalho competente, cola-se nele a etiqueta de "fenômeno literário" e distribui-se a notícia como se fosse descoberta. Benjamín Labatut, nascido na Holanda em 1980 e residente no Chile desde os 14 anos, recebeu esse tratamento. Seus números são respeitáveis — publicado em duas dezenas de países, finalista do International Booker Prize em 2021, endossado por Barack Obama. Mas números e rótulos comerciais dizem pouco sobre o que um livro realmente faz.

O que merece atenção em Labatut não é o marketing que o envolve, mas a forma como ele trabalha. "Quando Deixamos de Entender o Mundo", publicado pela Todavia em tradução de Paloma Vidal, é um livro de contos com estrutura ensaística que tece fatos com ficção para contar histórias de cientistas que redefiniram o século 20. Cinco narrativas — quatro breves, uma que ocupa quase metade das 176 páginas — tecem vidas de pesquisadores marcadas por genialidade, turbulência e inquietação. Nomes como Albert Einstein, Werner Heisenberg e Erwin Schrödinger habitam essas páginas ao lado de personagens que tomavam mais de cem analgésicos diários, matemáticos obsessivos, intelectuais dispostos a desmontar a própria noção de realidade.

O que torna o livro notável é a tensão que o sustenta: aquela linha tênue entre caminhos que levam a territórios inexplorados e precipícios. Labatut consegue manter essa tensão enquanto trata seus personagens com atenção aos pormenores, revelando como a genialidade e a loucura, o belo e o grotesco, o conhecimento e a ruína habitam o mesmo espaço. Um dos contos abre com uma reflexão sobre Fritz Haber, o químico alemão que inventou os fertilizantes de nitrogênio modernos — substância que alimentou centenas de milhões de pessoas — e que também criou o cloro gasoso usado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, arma que matou milhares e fez soldados sentirem suas gargantas queimarem enquanto seus pulmões se enchiam de veneno.

Essa costura entre criação e destruição permeia toda a obra. Labatut explora como a expansão do conhecimento científico está profundamente ligada a formas cada vez mais sofisticadas de provocar morte e sofrimento. Não é coincidência que em um livro sobre cientistas, as guerras e a morte apareçam de forma cíclica e crucial. A busca pela ruptura de barreiras científicas massacra os próprios cientistas. Os segredos microscópicos que eles desvendam acabam se voltando contra a humanidade, ameaçada por uma reviravolta em que seremos esmagados pela natureza que tentamos compreender e subjugar.

Há momentos em que a prosa de Labatut atinge plenitude. Num deles, lê-se: "Hoje ninguém tem tempo para a eternidade. Só as crianças, só as crianças e os bêbados, mas não as pessoas sérias como o senhor, professor, os que estão prestes a mudar o mundo." Essas linhas capturam algo essencial sobre a obsessão que move os personagens do livro.

Não tudo funciona perfeitamente. Labatut cai em um erro que assombra a literatura contemporânea: a necessidade de explicar demais o próprio trabalho. Nas linhas finais do último conto, ele busca garantir que o leitor compreendeu o que suas histórias já haviam demonstrado. É um gesto desnecessário, uma falta de confiança no que foi construído.

Mas isso não apaga o que importa. Labatut possui um estilo bem definido e um olhar original sobre como a ciência, a ambição humana e a destruição se entrelaçam. "Quando Deixamos de Entender o Mundo" é uma leitura que vale ser feita — não porque alguém a rotulou de fenômeno, mas porque o livro, em si, funciona. Esqueçamos os rótulos. O que realmente importa é que há aqui um autor que merece ser lido.

Hoje ninguém tem tempo para a eternidade. Só as crianças, só as crianças e os bêbados, mas não as pessoas sérias como o senhor, professor, os que estão prestes a mudar o mundo.
— Benjamín Labatut, em "Quando Deixamos de Entender o Mundo"
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur UOL ↗
Nous contacter FAQ