Kratom: a erva com efeitos opioides que alarma autoridades americanas

Dois estudantes da Universidade do Mississippi morreram com embalagens de kratom em sua posse; usuários relatam perda de empregos e gastos de milhares de dólares mensais com dependência.
Você pode criar algo no seu porão e vender como suplemento
Um especialista descreve como a falta de regulamentação permite produtos de qualidade desconhecida no mercado americano.
Mark

Por que o kratom se tornou tão popular nos EUA se tem esses riscos todos?

Mimi

Entrou no mercado americano por volta de 2016 como suplemento herbal, vendido como algo seguro e natural para dor, ansiedade e depressão. Sem regulamentação, ficou fácil de encontrar e comprar. As pessoas como Jeffrey Deaver o descobriram quando os médicos não conseguiam ajudá-los.

Luke

Mas a gente precisa ser cuidadoso aqui. As duas mortes dos estudantes do Mississippi — as autoridades realmente não atribuíram as mortes ao kratom, certo? Encontraram embalagens, mas não disseram que foi a causa.

Mimi

Correto. O que sabemos é que as autoridades estão emitindo alertas agora, e isso acelerou a conversa sobre regulamentação.

Mark

Qual é o risco real de dependência?

Mimi

Jana Wu, que trabalha em um centro de tratamento, viu pessoas chegando a vinte comprimidos por dia. Casamentos desmoronaram, pessoas perderam empregos, gastaram milhares de dólares mensalmente.

Luke

Mas isso é anedótico. Quantas pessoas realmente desenvolvem dependência? Quantas morrem? Os números não estão no material.

Mimi

Não estão. O que sabemos é que há risco de sintomas de abstinência, depressão do sistema nervoso central, colapso cardiovascular.

Mark

E por que a FDA não regulamenta?

Mimi

Porque é classificado como suplemento, não como medicamento. Isso significa que ninguém verifica o que está dentro das embalagens.

Luke

E isso é um vazio regulatório real. Você pode estar comprando kratom puro ou algo misturado com outras substâncias.

Mimi

Exatamente. Shane Speights disse que você poderia fazer algo no porão e vender como suplemento sem ninguém verificar.

Mark

Então qual é o caminho para frente?

Mimi

Onze estados já proibiram. Massachusetts foi o último, em agosto. Mas há grupos pró-kratom pressionando contra proibições totais, querendo focar em produtos sintéticos falsificados.

Luke

E a DEA já havia classificado como Classe 1 uma década atrás, mas isso não virou lei federal.

Mimi

Certo. Então há uma tensão entre o que as autoridades querem fazer e o que grupos de interesse conseguem bloquear.

  • Dois estudantes da Universidade do Mississippi morreram com kratom em sua posse, transformando um alerta silencioso em crise pública declarada.
  • A erva é vendida livremente em lojas de conveniência e postos de gasolina sem qualquer padrão de pureza, dosagem ou controle de qualidade — alguém pode fabricá-la no porão e comercializá-la como suplemento.
  • Em doses altas, o kratom ativa os mesmos receptores que os opioides, podendo causar dependência severa, colapso cardiovascular e parada respiratória, enquanto usuários relatam gastar milhares de dólares por mês para sustentar o vício.
  • Onze estados americanos já proibiram a substância, e Massachusetts emitiu uma ordem emergencial em agosto, mas grupos pró-kratom resistem às regulações, criando um impasse político e científico.
  • No Brasil, a Anvisa recomendou a proibição em nota técnica de 2023, comparando seus efeitos estimulantes aos da cocaína, mas a medida ainda não foi implementada.

Vinda das florestas do Sudeste Asiático, uma erva chamada kratom percorreu o mundo até pousar nas prateleiras de postos de gasolina americanos, carregando consigo séculos de uso tradicional e uma promessa de alívio que, para muitos, se transforma em armadilha. Sem regulamentação federal nos Estados Unidos nem no Brasil, a substância ocupa um vazio legal onde ninguém responde pela qualidade do que é vendido nem pelas consequências do que é consumido. A morte de dois estudantes universitários com embalagens da erva em sua posse trouxe à superfície uma tensão que já fervia há anos: entre o alívio genuíno que alguns encontram e o perigo real que as autoridades tentam nomear.

Jeffrey Deaver, lenhador aposentado de 58 anos, encontrou no kratom o que médicos e cirurgias não conseguiram oferecer: alívio para uma dor crônica que consumia sua vida. Quatro anos depois, ele não imagina existir sem a erva. A história dele é real — e também é apenas metade da história.

O kratom é uma árvore do Sudeste Asiático cujas folhas foram usadas por séculos como estimulante em países como Tailândia e Malásia. Quando chegou ao mercado americano por volta de 2016, passou a ser vendido em formas concentradas — comprimidos, pó, líquido — sem receita, sem prescrição, em qualquer posto de gasolina. Em doses baixas, produz euforia semelhante à cafeína. Em doses altas, age como opioide: alivia a dor, gera bem-estar e pode causar alucinações. Compostos como a 7-hidroximitraginina ativam a dopamina — e, em excesso, deprimem o sistema nervoso central, podendo levar ao colapso cardiovascular e à parada respiratória.

Esta semana, a morte de dois estudantes da Universidade do Mississippi com embalagens de kratom em sua posse acendeu um alarme que já piscava há anos. O problema central, segundo especialistas, é a ausência total de regulamentação: sem padrão de qualidade ou verificação de pureza, ninguém sabe o que está comprando. Profissionais de saúde relatam pacientes que chegam a tomar vinte comprimidos por dia, perdem empregos e gastam milhares de dólares mensais com a dependência.

Onze estados americanos já proibiram a substância. Massachusetts foi o mais recente, com uma ordem emergencial em agosto. A DEA chegou a classificar o kratom como droga de Classe 1 há uma década. No Brasil, a Anvisa recomendou a proibição em 2023, mas a medida não saiu do papel. Enquanto grupos como a American Kratom Association resistem às regulações, a pergunta que fica sem resposta é a mais básica: existe uma dose segura? Para quem tenta responder, a resposta honesta é que, sem regulamentação, simplesmente não há como saber.

Jeffrey Deaver, um lenhador aposentado de 58 anos de Washington, descobriu o kratom quando a dor crônica no quadril e no joelho o deixou sem opções. Os médicos não conseguiam ajudá-lo. As cirurgias estavam na fila de espera. Assustado no início, ele começou com uma dose baixa da erva asiática e aumentou gradualmente até que a dor desaparecesse. "Foi como um milagre", disse ele. "Consegui dormir. Consegui funcionar." Hoje, quatro anos depois, ele não imagina a vida sem o kratom.

Mas a história de Deaver representa apenas um lado de uma substância que está gerando alarme crescente entre as autoridades americanas. O kratom é uma árvore originária do Sudeste Asiático — encontrada na Tailândia, Malásia e Indonésia — cujas folhas têm sido usadas há séculos como estimulante, moídas e consumidas em chá. Quando chegou ao mercado americano por volta de 2016, porém, tudo mudou. A erva passou a ser vendida em formas altamente concentradas: comprimidos, pó e líquido. E tornou-se ubíqua. Você a encontra em lojas de conveniência, postos de gasolina, lojas de cigarros eletrônicos. Ninguém precisa de receita. Ninguém precisa de prescrição.

Esta semana, investigadores encontraram embalagens de kratom na posse de dois estudantes da Universidade do Mississippi que morreram. Embora as autoridades não tenham atribuído as mortes diretamente ao kratom, o achado acendeu um alerta que vinha piscando há anos. O kratom produz efeitos estimulantes em doses baixas — uma sensação de euforia semelhante à cafeína — e efeitos opioides em doses altas, incluindo alívio da dor, bem-estar geral e, sim, alucinações. Esses efeitos vêm de compostos como a 7-hidroximitraginina, que ativam hormônios incluindo dopamina. Em doses elevadas, porém, o kratom pode causar depressão do sistema nervoso central, colapso cardiovascular e parada respiratória. Há também risco de dependência e abstinência.

O problema central é que ninguém sabe exatamente o que está comprando. O kratom não é regulamentado pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA). Não há padrão de qualidade, nenhuma verificação de pureza, nenhuma garantia de dosagem. "Você pode criar algo no seu porão, comercializar como suplemento, e ninguém vai verificar o que tem dentro", disse Shane Speights, reitor da Faculdade de Medicina Osteopática do Instituto de Tecnologia de Nova York na Universidade Estadual do Arkansas. Jana Wu, diretora de integração clínica do centro de tratamento de dependência Mountainside, viu pessoas desenvolver tolerância tão alta que chegavam a tomar vinte comprimidos por dia. Ela testemunhou casamentos desmoronarem, empregos serem perdidos, milhares de dólares gastos mensalmente.

No Brasil, a situação é semelhante. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não regulamenta o kratom. Uma nota técnica de 2023 recomendou incluir a erva na lista de plantas proibidas, descrevendo seus efeitos estimulantes em doses baixas — similares aos da cocaína — e seus efeitos opioides em doses altas, com risco de sintomas de abstinência e outras complicações. Mas a proibição não foi implementada.

Nos Estados Unidos, onze estados já tornaram o kratom ilegal: Alabama, Arkansas, Connecticut, Indiana, Kansas, Louisiana, Massachusetts, Dakota do Norte, Tennessee, Vermont e Wisconsin. Massachusetts foi o mais recente, emitindo uma ordem emergencial temporária em agosto. Uma década atrás, a Agência de Combate às Drogas (DEA) havia classificado o kratom como substância controlada de Classe 1 — o nível mais perigoso — chamando-o de "perigo iminente para a segurança pública". Internacionalmente, o Reino Unido proibiu a substância. Na Malásia, seu país de origem, o consumo e a venda são ilegais desde 1952.

Mas há resistência organizada. Grupos como a American Kratom Association pressionam contra proibições, argumentando que deveriam focar em produtos sintéticos que se fazem passar por kratom natural. Entretanto, especialistas apontam que o maior perigo é justamente a falta de regulamentação federal. Sem ela, não há como garantir segurança. "Existe uma dose segura?", perguntou Speights. "Minha resposta é não, porque não sabemos o que contém." A questão agora é se mais estados seguirão o caminho das proibições ou se a pressão regulatória federal finalmente chegará.

Foi como um milagre. Consegui dormir. Consegui funcionar.
— Jeffrey Deaver, lenhador aposentado que usa kratom para dor crônica
Você pode criar algo no seu porão, comercializar como suplemento, e ninguém vai verificar o que tem dentro.
— Shane Speights, reitor da Faculdade de Medicina Osteopática do Instituto de Tecnologia de Nova York
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