Uma erva milenar do Sudeste Asiático encontrou no mercado americano uma nova forma de existir — concentrada, desregulamentada e acessível em qualquer posto de gasolina. O kratom ocupa o espaço ambíguo entre remédio e risco, entre alívio genuíno e dependência silenciosa, enquanto autoridades e usuários disputam o direito de definir o que ele é. A morte de dois estudantes universitários com embalagens da substância em sua posse trouxe urgência a um debate que já dura anos sem resolução.
Kratom, a erva com efeitos opioides, provoca alarme entre autoridades americanas
Você pode criar algo no seu porão e ninguém vai verificar
Por que o kratom se tornou tão popular nos EUA se tem esses riscos?
Porque chegou ao mercado como suplemento não regulamentado, fácil de encontrar, e oferecia alívio para pessoas com dor crônica que não conseguiam ajuda dos médicos. Para alguém como Jeffrey Deaver, foi transformador.
Mas precisamos ser claros: as duas mortes dos estudantes do Mississippi não foram atribuídas ao kratom. Encontraram embalagens, mas isso não prova causalidade. É o gatilho para o alerta, não a evidência.
Então qual é o risco real?
Em doses altas, pode causar depressão do sistema nervoso central, parada respiratória, dependência. Jana Wu viu pessoas tomando 20 comprimidos por dia, perdendo empregos, gastando milhares de dólares mensais.
Isso é documentado em casos que ela tratou. Mas não temos números nacionais sobre quantas pessoas desenvolvem dependência ou quantas mortes estão realmente ligadas ao kratom. Os dados são limitados.
Por que a FDA não regulamenta?
Porque é classificado como suplemento, não como medicamento. E quando a DEA tentou classificá-lo como droga de Classe 1 há dez anos, recebeu tantos comentários públicos contestando que a iniciativa fracassou.
Isso mostra que há pressão dos dois lados — grupos pró-kratom e grupos contrários. Não é consenso científico, é disputa política.
E no Brasil?
A Anvisa não regulamenta, mas uma nota técnica de 2023 recomendou proibição. Ainda está em discussão.
Mas a proibição não foi implementada. Então tecnicamente o kratom ainda não é ilegal aqui, apenas não regulamentado — como nos EUA.
Qual é a saída?
Alguns querem proibição total. Outros querem regulação de qualidade para eliminar produtos sintéticos. Mas enquanto não há acordo, continua sendo vendido em postos de gasolina sem ninguém saber exatamente o que está comprando.
E pessoas como Deaver, que dependem dele para funcionar, ficariam sem opção. Não é simples.
The Pulse
- Dois estudantes da Universidade do Mississippi morreram com embalagens de kratom em sua posse, acendendo alertas nacionais mesmo sem confirmação de causalidade.
- A substância é vendida livremente em lojas de conveniência e postos de gasolina sem qualquer controle de qualidade, pois é classificada como suplemento e escapa da fiscalização da FDA.
- Em doses altas, os compostos do kratom ativam receptores opioides e podem causar colapso cardiovascular, parada respiratória e dependência severa — com relatos de usuários consumindo até 20 comprimidos por dia.
- Onze estados americanos já proibiram a substância, e o Brasil caminha para incluí-la na lista de plantas proibidas, mas o consenso regulatório ainda está longe.
- Enquanto grupos de defesa pressionam por regulação em vez de proibição, especialistas alertam que o verdadeiro perigo é justamente não saber o que está dentro de cada embalagem.
Uma erva milenar do Sudeste Asiático encontrou no mercado americano uma nova forma de existir — concentrada, desregulamentada e acessível em qualquer posto de gasolina. O kratom ocupa o espaço ambíguo entre remédio e risco, entre alívio genuíno e dependência silenciosa, enquanto autoridades e usuários disputam o direito de definir o que ele é. A morte de dois estudantes universitários com embalagens da substância em sua posse trouxe urgência a um debate que já dura anos sem resolução.
Jeffrey Deaver, lenhador aposentado de 58 anos, encontrou no kratom o alívio que a medicina convencional não conseguia oferecer para suas dores crônicas no quadril e no joelho. Aumentando as doses gradualmente enquanto aguardava cirurgias, ele voltou a dormir e a trabalhar. "Eu simplesmente não sei o que faria sem isso", disse.
Originária do Sudeste Asiático e consumida há séculos em forma de chá, a erva chegou ao mercado americano por volta de 2016 em formas altamente concentradas — comprimidos, pó, líquido — e passou a ser vendida sem receita em lojas de conveniência e postos de gasolina. Por ser classificada como suplemento, escapa da regulação da FDA. "Você pode criar algo no seu porão, comercializar como suplemento, e ninguém vai verificar o que tem dentro", explicou Shane Speights, reitor de uma faculdade de medicina em Nova York.
Os efeitos variam com a dose: em quantidades pequenas, o kratom age como estimulante; em doses maiores, ativa receptores opioides, alivia dores e pode causar alucinações. É por isso que tem sido usado no combate ao vício em fentanil — e também por isso que preocupa. Doses elevadas podem levar a colapso cardiovascular e parada respiratória. Jana Wu, diretora de um centro de tratamento, relatou pacientes que chegaram a consumir 20 comprimidos por dia. "Já vi pessoas perderem empregos, gastarem milhares de dólares por mês com isso."
A morte de dois estudantes da Universidade do Mississippi com embalagens de kratom em sua posse intensificou o debate, mesmo sem atribuição direta da causa. Onze estados americanos já proibiram a substância; Massachusetts foi o mais recente, com uma ordem emergencial em agosto. No Brasil, a Anvisa ainda não a regulamenta, mas uma nota técnica de 2023 recomendou sua inclusão na lista de plantas proibidas.
O impasse persiste: grupos contrários denunciam que "drogas vendidas em postos de gasolina estão envenenando comunidades", enquanto a American Kratom Association defende apenas a proibição de versões sintéticas. Para especialistas, o maior risco é a ausência de controle. Para usuários como Deaver, a erva continua sendo a única saída quando tudo mais falha.
Jeffrey Deaver, um lenhador aposentado de 58 anos de Washington, descobriu o kratom quando a medicina convencional não conseguia aliviar suas dores crônicas severas no quadril e no joelho. Enquanto aguardava cirurgias, ele começou a tomar a erva — inicialmente com receio, em doses pequenas — e aumentou gradualmente até encontrar alívio. Para ele, foi transformador. Conseguiu dormir novamente. Conseguiu trabalhar. "Eu simplesmente não sei o que faria sem isso", disse.
O kratom é uma árvore originária do Sudeste Asiático, suas folhas consumidas há séculos em forma de chá pelas propriedades estimulantes. Mas quando chegou ao mercado americano por volta de 2016, tudo mudou. Hoje é vendido em formas altamente concentradas — comprimidos, pó, líquido — e encontrado facilmente em lojas de conveniência, postos de gasolina e lojas de cigarros eletrônicos. Ninguém precisa de receita. Ninguém verifica o que está dentro da embalagem. A erva é classificada como suplemento, o que significa que a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA não a regulamenta. "Você pode criar algo no seu porão, comercializar como suplemento, e ninguém vai verificar o que tem dentro", explicou Shane Speights, reitor da Faculdade de Medicina Osteopática do Instituto de Tecnologia de Nova York.
Os efeitos dependem da dose. Em quantidades pequenas, o kratom funciona como estimulante, criando uma sensação de euforia semelhante à cafeína. Em doses maiores, seus compostos — particularmente a 7-hidroximitraginina — ativam hormônios como a dopamina e produzem efeitos opioides: alívio da dor, bem-estar geral, até alucinações. É por isso que tem sido usado para combater o vício em opioides como o fentanil. Mas também é por isso que é perigoso. Doses altas podem causar depressão do sistema nervoso central, levando a colapso cardiovascular e parada respiratória. Há risco de dependência e sintomas de abstinência. Jana Wu, diretora de integração clínica do centro de tratamento Mountainside, viu pessoas desenvolver tolerância tão alta que precisavam tomar até 20 comprimidos por dia. "Isso afeta casamentos, relacionamentos", disse ela. "Já vi pessoas perderem empregos, gastarem milhares de dólares por mês com isso."
Esta semana, investigadores encontraram embalagens de kratom em posse de dois estudantes da Universidade do Mississippi que morreram. Embora as autoridades não tenham atribuído as mortes diretamente à substância, o achado disparou alertas. Nos Estados Unidos, o kratom já é proibido em 11 estados: Alabama, Arkansas, Connecticut, Indiana, Kansas, Louisiana, Massachusetts, Dakota do Norte, Tennessee, Vermont e Wisconsin. Massachusetts foi o mais recente, emitindo uma ordem emergencial em agosto. Dez anos antes, a Agência de Combate às Drogas havia tentado classificar o kratom como substância controlada de Classe 1 — o nível mais perigoso — chamando-o de "perigo iminente para a segurança pública". Mas a iniciativa fracassou quando o Departamento de Justiça recebeu numerosos comentários públicos contestando a medida.
No Brasil, a situação é semelhante. A Anvisa não regulamenta o kratom. Uma nota técnica de 2023 recomendou incluir a erva na lista de plantas proibidas, descrevendo seus efeitos estimulantes em baixas doses e opioides em altas doses, incluindo analgesia, retardo do esvaziamento gástrico e sintomas de abstinência. Internacionalmente, o kratom é ilegal no Reino Unido e na Malásia — seu país de origem — onde a Lei de Venenos de 1952 proíbe seu consumo e venda.
O debate nos EUA está polarizado. Grupos contrários ao kratom argumentam que "drogas vendidas em postos de gasolina estão envenenando nossas comunidades". A American Kratom Association, por sua vez, pressiona por proibições apenas de produtos sintéticos que se fazem passar por kratom natural. Especialistas apontam que o maior perigo é justamente a falta de regulação. "Existe uma dose segura?", perguntou Speights. "Minha resposta é não, porque não sabemos o que contém." Para usuários como Deaver, o kratom continua sendo uma solução quando nada mais funciona. Para as autoridades, é um problema crescente que exige ação — mas ainda não há consenso sobre qual deve ser.
Notable Quotes
Eu simplesmente não sei o que faria sem isso— Jeffrey Deaver, usuário de kratom há quatro anos
Você pode criar algo no seu porão, comercializar como suplemento, e ninguém vai verificar o que tem dentro— Shane Speights, reitor da Faculdade de Medicina Osteopática
Isso afeta casamentos, relacionamentos. Já vi pessoas perderem empregos, gastarem milhares de dólares por mês com isso— Jana Wu, diretora de integração clínica do centro de tratamento Mountainside