Em quatro edições, um festival nascido no interior paulista sem qualquer vínculo prévio com a Coreia do Sul transformou-se em circuito nacional gratuito, percorrendo sete capitais com sessenta produções. O Korean Film Festival revela como a expansão global da cultura coreana encontrou, no Brasil, um terreno fértil onde cinéfilos e fãs de k-cultura dividem a mesma poltrona. Mais do que uma vitrine de tendências, o Koff propõe um diálogo sobre cinema como arte — e sobre como o encontro entre culturas distantes pode nascer do boca a boca numa cidade do interior.
Koff, festival de cinema coreano gratuito, expande presença em cidades brasileiras
Cinema comercial com pegada autoral que não se afasta do público
Como um festival que começou do zero em Piracicaba conseguiu triplicar seu circuito em apenas quatro edições?
Cresceu muito por boca a boca, começando com escolas e comunidades locais. Depois produtoras e fã-clubes de artistas coreanos de outras cidades começaram a procurar. O timing ajudou — a cultura coreana explodiu no Brasil, especialmente após a pandemia.
Mas qual é a diferença entre o Koff e a Mostra de Cinema Coreano, que já existe há 15 edições?
A Mostra é mais tradicional, organizada pelo Centro Cultural Coreano com incentivo do governo asiático. O Koff é independente, nasceu de uma pessoa sem conexão prévia com a Coreia. Isso dá uma liberdade curatorial diferente.
Qual é o maior desafio agora que o festival está em sete cidades?
Satisfazer públicos muito diferentes. Em Piracicaba você tem fãs de k-drama e cinéfilos locais. Em São Paulo, a demanda é outra. Precisamos equilibrar clássicos dos anos 1950 com blockbusters recentes e filmes estrelados por celebridades populares.
Por que trazer filmes com atores famosos de séries e k-pop se o objetivo é mostrar cinema autoral coreano?
Porque não são coisas excludentes. Cha Eun-woo é cantor, mas está em uma comédia. Seo In-guk é ator e músico. Quando você conversa com eles sobre processo criativo, desafios, arte — não sobre fama — descobre que há cinema real ali.
E como você escolhe entre 457 inscrições para apenas 60 filmes?
A seleção não-competitiva fica com os curadores. A competitiva é aberta. Tentamos trazer produções premiadas internacionalmente, blockbusters que fizeram sucesso na Coreia, e também filmes que ninguém viu ainda. "O Guardião do Rei" atraiu 17 milhões de espectadores — isso é relevante.
O que muda quando o festival chega em uma capital como Fortaleza ou Salvador?
Muda tudo. Você não tem a história de quatro anos de boca a boca. Precisa conquistar o público do zero, lidar com espaços culturais diferentes, entender o que aquela cidade quer. É por isso que a gratuidade é tão importante — remove barreiras.
Le Pouls
- Um festival idealizado em Piracicaba sem nenhuma conexão institucional com a Coreia do Sul triplicou seu alcance em apenas quatro anos, pressionando sua equipe a repensar escala, curadoria e logística a cada edição.
- A explosão global do cinema coreano — acelerada pelo Oscar de 'Parasita' e pela pandemia — criou uma demanda reprimida no Brasil que o Koff precisou absorver sem perder identidade curatorial.
- Produtoras, espaços culturais e fã-clubes de artistas coreanos passaram a disputar espaço na programação, tornando o equilíbrio entre blockbusters populares e cinema autoral o principal campo de tensão do festival.
- A solução encontrada foi uma grade que vai de clássicos dos anos 1950 a comédias com celebridades do k-pop, passando por filmes sobre racismo e exclusão social — apostando que públicos distintos podem coexistir numa mesma mostra gratuita.
- O festival chega a 2026 consolidado no calendário oficial de Piracicaba e presente em seis outras capitais, mas enfrenta o desafio permanente de manter qualidade e gratuidade enquanto cresce.
Em quatro edições, um festival nascido no interior paulista sem qualquer vínculo prévio com a Coreia do Sul transformou-se em circuito nacional gratuito, percorrendo sete capitais com sessenta produções. O Korean Film Festival revela como a expansão global da cultura coreana encontrou, no Brasil, um terreno fértil onde cinéfilos e fãs de k-cultura dividem a mesma poltrona. Mais do que uma vitrine de tendências, o Koff propõe um diálogo sobre cinema como arte — e sobre como o encontro entre culturas distantes pode nascer do boca a boca numa cidade do interior.
Há quatro anos, Márcia Kling idealizou um festival de cinema coreano em Piracicaba — cidade a 160 quilômetros de São Paulo, sem nenhuma ligação prévia com a Coreia do Sul. Com apoio do ProAC e patrocínios conquistados, a primeira edição do Korean Film Festival, o Koff, aconteceu em 2023. O evento cresceu por boca a boca, conquistando escolas e comunidades vizinhas antes de alcançar outras capitais.
Esta edição percorre Fortaleza, Salvador, Curitiba, Recife, Belo Horizonte e São Paulo, exibindo 60 produções selecionadas entre 457 inscrições. O festival é inteiramente gratuito e funciona em duas vertentes: uma curada e outra aberta a produções sul-coreanas e brasileiras. Em 2024, o Koff foi incorporado ao calendário oficial de Piracicaba, ganhando também gastronomia, debates e masterclasses.
O timing do festival coincidiu com a ascensão global da cultura coreana. Para o curador Rubens Rewald, o cinema sul-coreano tem a capacidade rara de ser comercialmente forte sem se afastar da ambição autoral — qualidade que atrai tanto cinéfilos quanto o grande público. A programação desta edição reflete essa estratégia: ao lado de 'O Guardião do Rei', segundo filme mais visto na história do cinema coreano, estão títulos sobre adolescentes marginalizados em Seul, racismo e idosos em situação de rua, além do novo filme de Park Chan-wook.
O principal desafio agora é satisfazer públicos cada vez mais diversos. Fã-clubes de artistas coreanos, produtoras e espaços culturais passaram a procurar o festival, ampliando as possibilidades — e as tensões curatoriais. Kling e Rewald sublinham que o Koff não é vitrine de celebridades: quando dialogam com diretores e atores dentro do espectro do cinema, falam de arte e processo criativo. É essa distinção, dizem, que define o festival enquanto ele continua crescendo.
Há quatro anos, um festival de cinema nasceu numa cidade do interior de São Paulo sem nenhuma conexão prévia com a Coreia do Sul. Hoje, o Korean Film Festival — ou Koff — percorre sete capitais brasileiras, triplicou seu alcance e se consolidou como referência independente do gênero, atraindo simultaneamente cinéfilos e fãs de k-cultura. Tudo começou em Piracicaba, a 160 quilômetros de São Paulo, quando Márcia Kling idealizou o projeto em 2021. Com aprovação do Programa de Ação Cultural do governo paulista e patrocínios conquistados, a primeira edição aconteceu em 2023. O que era um evento local cresceu por boca a boca, expandindo-se para escolas, comunidades vizinhas e, eventualmente, para outras capitais.
Este ano, o festival chega a Fortaleza, Salvador, Curitiba, Recife, Belo Horizonte e São Paulo, exibindo 60 longas e curtas selecionadas entre 457 inscrições. A mostra funciona em duas vertentes: uma não-competitiva, com seleção dos curadores, e outra aberta a produções da Coreia do Sul e do Brasil. O evento é inteiramente gratuito, com ingressos distribuídos via plataforma digital ou nas bilheterias dos locais.
O timing do Koff coincidiu com uma explosão global da cultura coreana, especialmente após a pandemia. O cinema sul-coreano ganhou projeção internacional com a vitória de "Parasita" no Oscar de 2020, mas já acumulava sucessos cult como "Oldboy" e blockbusters comerciais. Segundo o curador Rubens Rewald, a Coreia do Sul consegue "fazer um cinema forte que não se afasta do público" — uma mistura de produção comercial com pegada autoral que funciona tanto para cinéfilos quanto para o grande público.
O principal desafio inicial foi convencer o público brasileiro de que o cinema coreano vai muito além dos títulos que explodiram internacionalmente. Kling explica que o festival cresceu conquistando escolas e comunidades locais, atraindo espectadores de municípios vizinhos. Em 2024, o evento foi incorporado ao calendário oficial de Piracicaba, ganhando também um pequeno festival de gastronomia coreana, debates e masterclasses.
A expansão para outras cidades trouxe novos desafios. Produtoras, espaços culturais e fã-clubes de artistas coreanos começaram a procurar o festival, permitindo que importasse blockbusters e produções premiadas — algumas em estreia na América Latina. Mas isso também significou lidar com públicos cada vez mais diversos, com demandas distintas. Os curadores tentam equilibrar a programação: exibem clássicos dos anos 1950 e 1960, mas também trazem comédias estreladas por celebridades populares como Cha Eun-woo, cantor da boyband Astro, e Seo In-guk, ator e músico conhecido por aqui.
A seleção desta edição reflete essa estratégia. "O Guardião do Rei", segundo filme mais visto na história do cinema coreano, abriu o festival — atraiu quase 17 milhões de espectadores em três meses num país com 50 milhões de habitantes. Ao lado dele, estão títulos como "Funky Freaky Freaks", sobre adolescentes à margem da sociedade em Seul, "The Mutation", que aborda racismo, e "People Want Meat", sobre três idosos em situação de rua. Também integram a programação o novo filme de Park Chan-wook e "O Mundo do Amor", aclamado pela crítica internacional.
Kling e Rewald destacam que quando conversam com diretores e atores coreanos dentro do espectro do cinema — não do espectro "K" — falam de arte, processo criativo e desafios. Isso, segundo eles, faz um diferencial grande. O festival não é apenas vitrine de celebridades, mas espaço de diálogo sobre cinema. Enquanto isso, o Koff continua crescendo, enfrentando a tarefa contínua de satisfazer públicos cada vez mais diversos em capitais diferentes, mantendo a qualidade curatorial e a gratuidade que o definem.
Citations marquantes
O principal desafio foi mostrar ao público brasileiro que o cinema sul-coreano vai muito além dos títulos que alcançaram sucesso internacional— Márcia Kling, fundadora do Koff
Quando a gente conversa com diretores e atores coreanos dentro do espectro do cinema, não do espectro 'K', a gente fala de arte, processo criativo, desafios, e isso faz um diferencial grande— Márcia Kling