Em mercados onde a entrada é possível mas a permanência é bloqueada, a concorrência torna-se uma promessa sem substância. A Keeta, plataforma de delivery de origem chinesa com pouco mais de um ano no Brasil, revelou que 85,7% dos restaurantes âncora de São Paulo estão impedidos de operar em sua plataforma por cláusulas de exclusividade ou banimento — uma barreira que, segundo a empresa, distorce o ecossistema e penaliza consumidores e estabelecimentos a cada dia sem resolução. O Cade, ao rejeitar o recurso da Keeta contra práticas da 99Food mas determinar investigações mais amplas, deixou em a
Keeta diz que 85,7% dos restaurantes âncora de SP estão bloqueados
Cada dia sem decisão tem custo concreto para o ecossistema
Por que a Keeta divulgou esse levantamento agora, logo após o Cade rejeitar seu recurso?
É uma forma de manter a pressão pública sobre o tema. Ao mostrar números concretos — 85,7% dos restaurantes bloqueados — a empresa documenta o tamanho do obstáculo que enfrenta e reforça seu argumento de que o mercado não funciona de forma competitiva.
Mas precisamos ser cuidadosos aqui. Esses números vêm da própria Keeta, não de uma auditoria independente. Ela tem incentivo óbvio para apresentar a situação como mais grave possível.
Entendi. Então a Keeta coletou dados com 147 redes, mas quantos restaurantes âncora existem em São Paulo no total? Sem esse número, é difícil saber se 85,7% é realmente representativo.
Ótima pergunta. A fonte não fornece esse contexto. O que sabemos é que a Keeta entrou em contato direto com essas 147 redes e encontrou esse percentual de bloqueio entre elas.
E há outra camada: nem todos os bloqueios são iguais. Alguns podem ser cláusulas de exclusividade legítimas assinadas voluntariamente, outros podem ser banimentos punitivos. A Keeta agrupa os dois, mas o Cade provavelmente vai querer distinguir entre eles.
O iFood diz que seus contratos foram regulados por um Termo de Compromisso com o Cade. Isso significa que o Cade já aprovou essas práticas?
Parcialmente. O TCC sugere que houve negociação e acordo, mas não necessariamente que tudo está resolvido. O próprio Tribunal do Cade determinou que a investigação continue, o que indica que questões permanecem em aberto.
Exatamente. Um TCC é um acordo de cessação, não uma aprovação definitiva de que a prática é legal. É mais como um armistício enquanto se investiga.
E quanto à 99Food? Ela também tem cláusulas de banimento, mas o Cade rejeitou o recurso da Keeta contra elas.
Sim, mas a rejeição não significa que as cláusulas são legais. Significa que o Cade decidiu que precisa investigar mais antes de tomar uma posição definitiva. É um resultado ambíguo para ambas as partes.
E isso deixa a Keeta em uma posição frágil. Ela não conseguiu uma vitória no tribunal, mas também não perdeu completamente. Enquanto isso, seus restaurantes continuam bloqueados.
Il Polso
- Mais de oito em cada dez redes de restaurantes paulistas estão vedadas à Keeta, criando um mercado onde a competição existe no papel, mas não nas prateleiras digitais.
- Pizzarias e restaurantes de comida saudável lideram o bloqueio com 92%, revelando que os segmentos mais lucrativos são justamente os mais blindados pela concorrência.
- O Cade rejeitou o recurso da Keeta em setembro, mas a decisão não encerrou o debate — ao contrário, abriu caminho para uma investigação mais ampla que pode redesenhar as regras do delivery no Brasil.
- A 99Food celebra a decisão como validação de suas práticas; a Keeta a lê como um adiamento custoso; e o iFood insiste que seus contratos já estão em conformidade com acordos anteriores com o próprio Cade.
- O que está em jogo não é apenas a fatia de mercado de cada plataforma, mas a pergunta estrutural sobre se o Brasil permitirá que novos entrantes realmente concorram — ou apenas existam.
Em mercados onde a entrada é possível mas a permanência é bloqueada, a concorrência torna-se uma promessa sem substância. A Keeta, plataforma de delivery de origem chinesa com pouco mais de um ano no Brasil, revelou que 85,7% dos restaurantes âncora de São Paulo estão impedidos de operar em sua plataforma por cláusulas de exclusividade ou banimento — uma barreira que, segundo a empresa, distorce o ecossistema e penaliza consumidores e estabelecimentos a cada dia sem resolução. O Cade, ao rejeitar o recurso da Keeta contra práticas da 99Food mas determinar investigações mais amplas, deixou em aberto a questão que define o futuro do setor: onde termina a estratégia comercial legítima e começa o abuso de posição dominante.
A Keeta divulgou esta semana um levantamento que expõe a dimensão das barreiras que enfrenta no mercado paulista. Com base em dados coletados junto a 147 redes de restaurantes, a plataforma revelou que 85,7% dos estabelecimentos âncora de São Paulo — aqueles com cinco ou mais lojas na região metropolitana — estão impedidos de trabalhar com ela por cláusulas de banimento ou contratos de exclusividade.
O bloqueio não é uniforme: pizzarias e restaurantes de comida saudável registram os maiores índices, com 92% das redes impedidas. Culinária brasileira aparece com 88% e hamburguerias com 86%. Os números traduzem uma disputa que transcende a competição comercial e chegou aos tribunais regulatórios.
A Keeta e a 99Food chegaram ao Brasil em 2025 com o objetivo declarado de desafiar o domínio do iFood. A Keeta, controlada pela Meituan, tem buscado romper contratos de exclusividade e entrou com ação no Cade contra as cláusulas de banimento da 99Food, argumentando que tais práticas prejudicam a concorrência. No início de setembro, o Tribunal do Cade rejeitou o recurso, mas determinou que as investigações sobre o setor prossigam.
As três empresas leram a decisão de formas distintas. A 99Food afirmou recebê-la com tranquilidade e viu como positivo o fato de o Cade ampliar a análise para outras plataformas. O iFood negou exclusividade generalizada, apontando que seus contratos já foram regulados por um Termo de Compromisso de Cessação firmado com o próprio Cade. A Keeta, por sua vez, alertou que cada dia sem decisão definitiva tem um custo concreto para todo o ecossistema — argumento que o próprio Tribunal reconheceu em sua deliberação.
A investigação continua aberta, e com ela a pergunta central: se as cláusulas forem consideradas anticoncorrenciais, o mercado de delivery brasileiro pode ser radicalmente reconfigurado. Se forem mantidas, o iFood preserva sua vantagem estrutural. A resposta ainda está por vir.
A Keeta, plataforma de delivery que chegou ao Brasil há pouco mais de um ano, divulgou um levantamento nesta semana que expõe o alcance das barreiras que enfrenta para competir no mercado paulista. Segundo dados coletados diretamente com 147 redes de restaurantes, 85,7% dos estabelecimentos âncora de São Paulo — aqueles com cinco ou mais lojas na região metropolitana — estão impedidos de trabalhar com a Keeta por meio de cláusulas de banimento ou contratos de exclusividade.
O quadro varia conforme o tipo de culinária. Pizzarias e restaurantes de comida saudável enfrentam os maiores bloqueios, com 92% de suas redes impedidas. Estabelecimentos de culinária brasileira vêm em seguida, com 88% bloqueados, enquanto hamburguerias registram 86%. Esses números refletem uma disputa que vai além da simples competição comercial — trata-se de uma batalha regulatória que chegou aos tribunais.
A Keeta e a 99Food, ambas chegadas ao Brasil em 2025, iniciaram suas operações com o objetivo explícito de desafiar o domínio do iFood no mercado de delivery. A Keeta, controlada pela Meituran, tem buscado romper os contratos de exclusividade que restaurantes assinaram com o iFood. Paralelamente, entrou com uma ação no Cade contra as cláusulas de banimento da 99Food, argumentando que essas práticas prejudicam a concorrência.
No início de setembro, o Tribunal do Cade rejeitou o recurso da Keeta contra as cláusulas da 99Food, mas determinou que a autoridade concorrencial prossiga com investigações mais aprofundadas sobre o setor. A decisão deixou em aberto a questão central: se essas práticas são legítimas ou constituem abuso de posição dominante. A 99Food respondeu à decisão afirmando que recebeu a notícia com tranquilidade e que permanece confiante na legitimidade de suas práticas. A empresa vê como positivo o fato de o Cade considerar que outras plataformas do setor também devem integrar a análise da autoridade.
A Keeta, por sua vez, manifestou confiança na atuação das autoridades para corrigir o que chama de disfuncionalidades do mercado. Em comunicado, a empresa ressaltou que cada dia sem uma decisão definitiva tem um custo concreto para todo o ecossistema, e que a capacidade de atrair e reter restaurantes afeta diretamente a possibilidade de atrair consumidores — um ponto que o próprio Tribunal do Cade reconheceu em sua decisão.
O iFood, por sua vez, nega que haja exclusividade generalizada em seus contratos. A empresa argumenta que seus acordos foram regulados por um Termo de Compromisso de Cessação assinado com o Cade, o que, segundo ela, demonstra conformidade com as exigências regulatórias. Essa resposta sugere que o iFood vê a acusação da Keeta como uma distorção da realidade de seus negócios.
O que está em jogo é a estrutura do mercado de delivery brasileiro. Se as cláusulas de banimento e exclusividade forem consideradas práticas anticoncorrenciais, o cenário muda radicalmente para novos entrantes como Keeta e 99Food. Se forem mantidas, o iFood segue com sua vantagem competitiva intacta. O Tribunal do Cade sinalizou que a investigação continuará, o que significa que a resposta a essa pergunta fundamental ainda está por vir.
Citazioni salienti
Cada dia sem uma decisão definitiva tem um custo concreto e diário para todo o ecossistema— Keeta, em comunicado
A alegação de exclusividade generalizada feita pela Keeta não procede e não retrata a realidade do iFood— iFood, em nota