Justiça ordena retorno de livro sobre Marielle às escolas de São José dos Campos

Estudantes foram privados de acesso a material educacional sobre representatividade feminina e negra durante período de censura.
A justificativa foi construída depois para dar aparência de legalidade
A juíza identificou que a prefeitura inventou razões para o recolhimento do livro após a pressão política.
Mark

Por que um livro sobre mulheres cientistas se tornou tão polêmico em uma cidade do interior?

Mimi

Porque retratava Marielle Franco. Não era sobre o conteúdo científico — era sobre quem estava nas páginas. Uma mulher negra, vereadora, do PSOL, assassinada. Isso foi o suficiente para alguém pedir que desaparecesse.

Mark

Mas a prefeitura não alegou razões pedagógicas?

Mimi

Alegou depois. No momento, foi só uma mensagem de WhatsApp. Sem explicação, sem processo, sem discussão com professores que já estavam usando o livro. A juíza viu isso e chamou de censura prévia — a decisão foi tomada primeiro, a justificativa veio depois.

Mark

O que significa que a prefeitura sabia que estava errado?

Mimi

Significa que não havia motivo técnico ou pedagógico real. Se houvesse, teriam documentado. Teriam convocado uma reunião. Teriam explicado aos diretores. Em vez disso, fizeram desaparecer.

Mark

E as crianças? Quanto tempo ficaram sem o livro?

Mimi

Meses. Desde junho de 2024. Enquanto isso, a Defensoria e o Ministério Público lutavam na Justiça. As crianças simplesmente não tinham acesso a histórias sobre mulheres como Marielle.

Mark

A prefeitura vai cumprir a ordem?

Mimi

Tem cinco dias. Se não cumprir, paga R$ 500 por dia. Mas o mais importante é que a Justiça deixou claro: isso não pode acontecer de novo. Não assim. Não por pressão política.

  • Uma ordem transmitida por WhatsApp fez desaparecer das bibliotecas escolares um livro comprado e usado sem qualquer queixa — até que um vereador decidiu que Marielle Franco não deveria estar nas páginas lidas por crianças.
  • A prefeitura justificou o recolhimento com acusações de doutrinação e apologia ao aborto, mas a juíza identificou que a explicação foi construída depois dos fatos, apenas para encobrir uma decisão tomada sob pressão política.
  • Ministério Público e Defensoria Pública entraram em campo apontando censura prévia, violação ao pluralismo de ideias e dano direto à representatividade feminina e negra nas escolas.
  • A sentença determina a devolução do livro em cinco dias, proíbe novos recolhimentos por motivação político-ideológica e impõe multa de R$ 500 por dia em caso de descumprimento.
  • Após meses sem acesso, estudantes voltarão a encontrar nas prateleiras histórias de mulheres que fizeram ciência — e o nome de uma mulher negra que foi assassinada e ainda incomoda.

Em São José dos Campos, um livro infantil sobre mulheres cientistas foi silenciado por pressão política e agora, pela voz da Justiça, é chamado de volta às mãos das crianças. A decisão judicial reconhece que censurar uma obra por suas personagens — entre elas Marielle Franco — não é proteção pedagógica, mas supressão ideológica disfarçada de cautela. O episódio revela como o espaço escolar pode tornar-se campo de disputa simbólica, e como as instituições democráticas, quando acionadas, ainda são capazes de resistir.

Em junho de 2024, a prefeitura de São José dos Campos mandou recolher das bibliotecas escolares o livro "Meninas Sonhadoras, Mulheres Cientistas", obra infantil escrita por uma juíza e adquirida pela própria Secretaria de Educação. A ordem chegou aos diretores por mensagens de WhatsApp, sem qualquer fundamentação técnica ou pedagógica. O livro havia sido usado normalmente em atividades da Semana da Mulher — ninguém havia reclamado.

O estopim foi uma queixa do vereador Thomaz Henrique, do PL, que classificou a obra como imprópria por retratar personalidades como Marielle Franco e a antropóloga Débora Diniz, acusando-a de "doutrinação ideológica" e "apologia ao aborto". A pressão foi suficiente para que o prefeito Anderson Faria Ferreira ordenasse o desaparecimento do livro das salas de leitura.

O Ministério Público e a Defensoria Pública responderam com uma ação civil pública, argumentando que a prefeitura havia praticado censura prévia, violado o pluralismo de ideias e ferido o direito fundamental à educação, além de prejudicar a representatividade feminina e negra nas escolas.

A juíza Renata Salles concordou com os argumentos e foi direta: a justificativa apresentada pela prefeitura havia sido construída depois dos fatos, apenas para dar aparência de legalidade a uma decisão tomada sob pressão externa. A sentença determinou o retorno imediato do livro, com prazo de cinco dias para que a obra voltasse às bibliotecas disponível para consulta, empréstimo e uso pedagógico. Qualquer novo recolhimento por motivação político-ideológica foi expressamente proibido — apenas procedimento administrativo formal, com razões técnicas comprovadas, poderia justificar restrição futura.

O descumprimento custará R$ 500 por dia, com teto de R$ 50 mil. Depois de meses de ausência, as crianças de São José dos Campos voltarão a ter acesso a histórias de mulheres que fizeram ciência — entre elas, a de uma mulher negra cujo nome, mesmo após sua morte, ainda move disputas políticas.

Em junho de 2024, a prefeitura de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, recolheu rapidamente das bibliotecas escolares um livro infantil chamado "Meninas Sonhadoras, Mulheres Cientistas". A ordem veio de cima para baixo — comunicada aos diretores por mensagens de WhatsApp, sem explicação técnica ou pedagógica. O livro, publicado pela editora Mostarda e escrito pela juíza Flávia Martins de Carvalho, havia sido comprado pela Secretaria Municipal de Educação e usado normalmente em atividades da Semana da Mulher. Ninguém havia reclamado até então.

O gatilho foi uma queixa do vereador Thomaz Henrique, do PL. Ele classificou a obra como imprópria para crianças, acusando-a de fazer "doutrinação ideológica" e "apologia ao aborto". O problema, segundo ele, era que o livro retratava personalidades como a ex-vereadora Marielle Franco, do PSOL, assassinada em março de 2018 no Rio de Janeiro, e a antropóloga Débora Diniz. A pressão política foi suficiente para que o prefeito Anderson Faria Ferreira, do PSD, ordenasse o desaparecimento do livro das salas de leitura.

Mas a ação não ficou sem resposta. O Ministério Público de São Paulo e a Defensoria Pública apresentaram uma ação civil pública contestando o recolhimento. Eles argumentaram que a prefeitura havia cometido censura prévia, violado o pluralismo de ideias e ferido o direito fundamental à educação. Também apontaram que a decisão prejudicava a representatividade feminina e negra nas escolas. A juíza Renata Salles, da Vara da Infância e Juventude, ouviu o caso e concordou.

Sua sentença foi clara: o livro deveria voltar. A magistrada identificou que a justificativa apresentada pela prefeitura havia sido construída depois dos fatos, apenas para dar aparência de legalidade a uma decisão tomada sob pressão externa. A motivação oficial não correspondia às razões reais do recolhimento. A Justiça apontou violação aos princípios constitucionais da liberdade de ensinar e aprender, do pluralismo de ideias e da proibição à censura ideológica.

A decisão deu à prefeitura um prazo de cinco dias, contados a partir da intimação, para devolver a obra às bibliotecas e salas de leitura das escolas. O livro deve ficar disponível para consulta, empréstimo e uso pedagógico no ensino fundamental 2. A Vara também proibiu novo recolhimento, ocultação ou limitações de acesso baseadas em decisão político-ideológica. Qualquer ação assim só poderia ocorrer por meio de procedimento administrativo formal, com motivos técnicos e pedagógicos comprovados, e com comunicação oficial às escolas.

O descumprimento terá custo. A multa é de R$ 500 por dia, limitada a um total de R$ 50 mil. Durante a investigação, professores confirmaram que o livro havia sido adquirido regularmente e utilizado sem restrições antes da reclamação do vereador. Agora, após meses de censura, as crianças de São José dos Campos terão novamente acesso a histórias sobre mulheres cientistas — incluindo a de uma mulher negra, vereadora, que foi morta e cujo nome ainda gera controvérsia política.

A justificativa apresentada pela prefeitura foi construída posteriormente para dar aparência de legalidade a uma decisão tomada sob pressão externa
— Juíza Renata Salles, em sua sentença
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