Juros sobem com temores sobre salário mínimo e inflação

Mais uma carta de intenções do que algo efetivo
Estrategista do Banco Mizuho sobre o pacote fiscal do governo de R$ 242,6 bilhões.
Mark

Por que os juros subiram tanto num dia em que os mercados americanos estavam fechados?

Mimi

A liquidez estava fraca, é verdade, mas isso não impediu o movimento. O mercado brasileiro estava processando duas coisas: as dúvidas sobre o pacote fiscal do governo e a possibilidade de um salário mínimo maior do que o orçado. Quando há poucos compradores e vendedores, os preços se mexem mais dramaticamente.

Luke

Mas qual era o tamanho real dessa alta? Estamos falando de movimentos de 10 a 30 pontos-base em contratos diferentes. Significativo, sim, mas não é uma queda do céu.

Mark

E quanto ao salário mínimo? Por que isso importa tanto para os juros?

Mimi

Porque cada real a mais no mínimo se multiplica na economia. Afeta pensões, benefícios, custos de empresas. E tudo isso pressiona a inflação. Se o governo gasta mais com folha, precisa de mais dinheiro emprestado, e quem emprestar quer juros mais altos.

Luke

Mas o Ministério da Fazenda era contra. Então não era uma decisão tomada, era uma possibilidade que o presidente estava considerando. Há uma diferença entre "Lula avalia" e "Lula decidiu".

Mark

As expectativas de inflação subiram bastante. Isso é permanente ou pode reverter?

Mimi

Depende do que o governo fizer. Se conseguir aprovar a reforma tributária e controlar os gastos, as expectativas podem cair. Se não conseguir, elas tendem a ficar altas ou subir mais.

Luke

Mas note que para 2024 a projeção ficou estável em 3,70%. É só para 2025 e 2026 que as coisas pioraram. Isso sugere que o mercado ainda acredita que o BC consegue controlar a inflação no curto prazo, mas tem dúvidas sobre o longo prazo.

Mark

O que é esse risco de uma meta implícita mais elevada?

Mimi

É o mercado começando a precificar a possibilidade de que o governo Lula trabalhe com uma meta de inflação mais alta do que os 3,0% que estão no radar. Seria uma mudança de regime.

Luke

Mas isso é especulação. A meta para 2026 ainda não foi definida. Estamos falando do que o mercado acha que pode acontecer, não do que vai acontecer.

  • Os contratos de juros futuros subiram em todos os prazos, com o DI para 2024 fechando em 13,54% e os vencimentos mais longos registrando altas superiores a 0,30 ponto percentual em um único dia.
  • O pacote fiscal de R$ 242,6 bilhões, apresentado pelo governo na semana anterior, foi recebido com ceticismo — estrategistas o descreveram como uma carta de intenções dependente de aprovação política, sem efeito imediato garantido.
  • A notícia de que Lula avaliava reajustar o salário mínimo acima dos R$ 1.320 previstos no Orçamento acendeu um alerta adicional, já que o efeito multiplicador do aumento ampliaria as pressões inflacionárias num momento já delicado.
  • O Boletim Focus confirmou a deterioração: a projeção do IPCA para 2025 saltou de 3,30% para 3,50%, e o mercado começou a precificar a possibilidade de uma meta de inflação mais elevada após o fim do mandato de Roberto Campos Neto.
  • O governo aposta na reforma tributária como âncora de credibilidade, mas enquanto ela não avança, os juros futuros continuam refletindo o custo da desconfiança.

No dia 16 de janeiro, os mercados brasileiros traduziram em números uma inquietação antiga: quando o Estado gasta além do que promete e a inflação resiste ao controle, quem empresta dinheiro exige mais em troca. Os juros futuros subiram de forma consistente, pressionados pela dúvida sobre o ajuste fiscal de R$ 242,6 bilhões e pela possibilidade de um salário mínimo acima do orçado — dois sinais que, juntos, sugerem que o caminho para a estabilidade ainda é longo. O mercado não pune por malícia, mas por memória: já viu essa história antes.

Na segunda-feira, 16 de janeiro, os juros futuros brasileiros subiram de forma consistente ao longo de todo o pregão, alimentados por duas preocupações que se reforçavam mutuamente: a fragilidade fiscal do governo e a deterioração das expectativas de inflação. O contrato de DI para janeiro de 2024 fechou em 13,54%, e os vencimentos mais longos — 2025, 2027 e 2029 — também registraram altas expressivas, mesmo com a liquidez reduzida pelo feriado nos mercados americanos.

O pano de fundo era a desconfiança em relação ao pacote fiscal anunciado na semana anterior. O governo prometia um ajuste de R$ 242,6 bilhões, majoritariamente via receitas, mas o mercado não se convenceu. Luciano Rostagno, do Banco Mizuho, classificou o plano como dependente de aval político em muitas frentes — mais intenção do que realidade. À tarde, o cenário piorou com informações de que o presidente Lula avaliava elevar o salário mínimo acima dos R$ 1.320 previstos no Orçamento, contrariando o Ministério da Fazenda. Para os operadores, cada real a mais no piso salarial significava mais pressão inflacionária num momento já sensível.

O Boletim Focus confirmou esse movimento: as medianas de IPCA subiram em quase todos os horizontes. A projeção para 2025 foi de 3,30% para 3,50%, e a de 2023 avançou para 5,39%. O que mais inquietava, porém, era o longo prazo. Com o mandato de Roberto Campos Neto encerrando em 2024 e a meta de 2026 ainda indefinida, o mercado começava a trabalhar com a hipótese de um alvo inflacionário mais alto sob o governo Lula — uma mudança de regime que Étore Sanchez, da Ativa Investimentos, descreveu como algo que o Focus já começava a precificar.

Enquanto isso, Fernando Haddad reafirmava em Davos que a reforma tributária seria o instrumento de reequilíbrio — neutra, sem aumento de carga. Mas enquanto a reforma não avançava, os juros futuros continuavam a fazer o que sempre fazem diante da incerteza: subir.

Na segunda-feira, 16 de janeiro, os mercados financeiros brasileiros acordaram para uma realidade incômoda: os juros futuros não paravam de subir. A escalada foi consistente ao longo do dia, alimentada por duas preocupações que se reforçavam mutuamente — a saúde fiscal do governo e o fantasma crescente da inflação. O contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2024 fechou em 13,54%, acima dos 13,44% do ajuste anterior. Os contratos mais longos também sentiram a pressão: o DI para janeiro de 2025 saltou de 12,41% para 12,63%, enquanto o de janeiro de 2027 subiu de 12,20% para 12,48%. O de 2029 terminou em 12,59%, ante 12,30% antes.

O dia começou com desconfiança. O governo havia apresentado na semana anterior um pacote de medidas fiscais prometendo um ajuste de R$ 242,6 bilhões, a maior parte vindo de receitas. Mas o mercado não se convenceu. Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, descreveu o plano como "mais uma carta de intenções do que algo efetivo, dependente de aval político em muitas instâncias". Mesmo com as medidas anunciadas, as dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida pública permaneciam intactas. A liquidez era fraca — os mercados americanos estavam fechados por feriado — mas isso não impediu que os operadores precificassem seus temores.

À tarde, a pressão ganhou novo combustível. Segundo informações do Broadcast, o presidente Lula estava avaliando reajustar o salário mínimo acima dos R$ 1.320 previstos no Orçamento aprovado pelo Congresso. Técnicos da equipe econômica apoiavam a ideia. O Ministério da Fazenda, porém, se opunha. Uma ala do governo sugeria financiar esse aumento com parte dos R$ 50 bilhões em cortes de gastos que a Fazenda havia proposto. Rostagno confirmou o óbvio: era um fator adicional à pressão já exercida pelas preocupações fiscais. Cada real a mais no salário mínimo, pelo efeito multiplicador, ampliava a pressão na inflação num momento em que as expectativas já estavam piorando.

E pioravam mesmo. No Boletim Focus, as medianas de inflação subiram em praticamente todos os horizontes. A projeção para o IPCA de 2025 saltou de 3,30% para 3,50%, comparada aos 3,10% de um mês antes. A de 2026 passou de 3,20% para 3,22%, contra 3,00% um mês atrás. Para 2023, a expectativa subiu de 5,36% para 5,39%, ante 5,17% há trinta dias. Para 2024, o horizonte cada vez mais relevante para a estratégia de convergência do Banco Central, a projeção permaneceu estável em 3,70%, embora tivesse sido 3,50% quatro semanas antes.

O que preocupava de verdade era o longo prazo. A meta central de inflação para 2025 estava fixada em 3,0%, mas a de 2026 ainda não havia sido definida. O mandato de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, terminaria no fim de 2024. O mercado começava a precificar o risco de um alvo mais elevado. Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, resumiu o sentimento: o Focus não apenas passava a considerar o impacto inflacionário de uma agenda fiscal mais expansionista, mas também começava a trabalhar com a possibilidade de uma meta implícita mais alta ou até mesmo uma revisão do curso de convergência para 3,0%.

O governo apostava na reforma tributária para colocar a casa em ordem. Fernando Haddad, ministro da Fazenda, havia dito no Fórum de Davos que a reforma era essencial e que a ideia era uma reforma neutra, que não aumentasse a carga tributária. Mas enquanto isso não acontecia, os juros futuros refletiam a desconfiança de quem precisa emprestar dinheiro ao Estado: a conta estava ficando mais cara, e ninguém sabia ao certo se o governo conseguiria pagar.

É mais uma carta de intenções do que algo efetivo, dependente de aval político em muitas instâncias
— Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho
A reforma tributária que está no Congresso é essencial
— Fernando Haddad, ministro da Fazenda
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