No primeiro dia do segundo semestre de 2021, o mercado brasileiro de renda fixa sinalizou uma mudança de direção: os juros futuros subiram mesmo com o dólar em queda, revelando que as turbulências internas pesavam mais do que qualquer alívio externo. A CPI da Covid, com denúncias de corrupção na compra de vacinas, começava a se tornar um fator de risco concreto para os investidores — lembrando que a confiança institucional é, ela própria, um ativo que oscila.
Juros sobem com cautela em dia de ruído político, apesar da queda do dólar
O ruído político pesava mais que a queda do dólar
Por que os juros subiram se o dólar caiu? Normalmente essas coisas se movem juntas.
Naquele dia não. O dólar caindo deveria ter aliviado a pressão sobre os juros, mas o ruído político doméstico — especialmente a CPI da Covid e as acusações de corrupção na compra de vacinas — pesou mais. O mercado estava dizendo que os riscos internos eram maiores que o alívio da moeda.
Mas quanto de peso, exatamente? Os juros subiram menos de um décimo de ponto percentual. Isso é movimento ou é ruído?
É movimento real. Revertia quatro dias de queda. Mas você tem razão em questionar a magnitude — não era uma explosão.
E o leilão de títulos que acontecia naquele dia — isso ajuda a explicar a volatilidade?
Sim. O Tesouro estava vendendo títulos pela primeira vez no segundo semestre. Isso naturalmente traz volatilidade, especialmente em um dia já tenso politicamente.
Mas a gente não sabe se a volatilidade veio do leilão ou da CPI. Eles aconteciam no mesmo horário.
Verdade. Os operadores diziam que era a CPI, mas é difícil separar os efeitos.
E os dados de emprego que saíram naquele dia — eles ajudaram ou pioraram as coisas?
Aí está o ponto: a gente não sabe. O artigo diz que os analistas esperavam 157,5 mil vagas, a melhor para maio desde 2011. Mas não diz se os números reais saíram melhores ou piores que isso.
O mercado estava esperando boas notícias no emprego, mas a CPI ofuscava tudo. Mesmo que os números fossem fortes, a incerteza política dominava.
Então basicamente o dia foi sobre o mercado tentando processar duas coisas ao mesmo tempo — uma boa notícia potencial de emprego e uma má notícia real de corrupção.
Exatamente. E ganhando a impressão de que a má notícia pesava mais.
Der Puls
- Os juros futuros romperam quatro dias consecutivos de queda, com o DI para janeiro de 2027 saltando para 8,55%, num movimento que contrariou a lógica do dólar mais fraco.
- A CPI da Covid escalou do ruído político para o centro das preocupações do mercado, após denúncias de que um diretor do Ministério da Saúde teria pedido propina de um dólar por dose de vacina AstraZeneca.
- A variante delta avançava na Europa e na Ásia, comprimindo o apetite ao risco global e somando pressão a um ambiente doméstico já fragilizado.
- O dia acumulava eventos capazes de amplificar a volatilidade: leilão de títulos públicos, divulgação do Caged e fala do presidente do Banco Central, tudo no mesmo período da manhã.
- Analistas previam a criação de 157,5 mil vagas em maio — o melhor resultado para o mês desde 2011 —, mas o dado positivo disputava atenção com um cenário político que ofuscava qualquer otimismo.
No primeiro dia do segundo semestre de 2021, o mercado brasileiro de renda fixa sinalizou uma mudança de direção: os juros futuros subiram mesmo com o dólar em queda, revelando que as turbulências internas pesavam mais do que qualquer alívio externo. A CPI da Covid, com denúncias de corrupção na compra de vacinas, começava a se tornar um fator de risco concreto para os investidores — lembrando que a confiança institucional é, ela própria, um ativo que oscila.
A manhã de 1º de julho de 2021 abriu o segundo semestre com uma contradição visível: o dólar caía, mas os juros futuros subiam. O contrato DI para janeiro de 2022 marcava 5,695% e o DI para janeiro de 2027 havia saltado para 8,55%, revertendo quatro dias consecutivos de queda. Para os operadores, a explicação era clara — os riscos domésticos estavam sobrepondo qualquer alívio que viesse de uma moeda mais fraca.
O fator central era político. A CPI da Covid, que operara em segundo plano por semanas, ganhava protagonismo no mercado naquele dia. A comissão ouviria o empresário Luiz Paulo Dominguetti Pereira, representante da Davati Medical Supply, que afirmava que Roberto Ferreira Dias, então diretor de Logística do Ministério da Saúde, havia pedido propina de um dólar por dose de vacina AstraZeneca. As suspeitas de corrupção na compra de imunizantes passavam a pesar diretamente sobre o apetite dos investidores por ativos brasileiros.
A Renascença DTVM alertava para a possibilidade de volatilidade ao longo do dia, especialmente com o leilão de títulos públicos — o primeiro do semestre — marcado para a manhã. Às 10h30, seriam divulgados os dados do Caged de maio, com expectativa de criação líquida de 157,5 mil vagas, o melhor resultado para o mês desde 2011. No mesmo horário, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, participaria de um evento sobre cooperativismo financeiro.
Externamente, a variante delta avançava na Europa e na Ásia, comprimindo o apetite ao risco global. A confluência de incerteza política, investigações em curso e uma agenda densa de eventos criava um ambiente em que os juros subiam com cautela — reflexo de uma realidade mais complexa do que qualquer movimento isolado de câmbio poderia explicar.
A quinta-feira chegou com os juros futuros em movimento de alta, revertendo quatro dias consecutivos de queda e sinalizando uma mudança de direção no mercado de renda fixa brasileiro. A manhã de 1º de julho trouxe uma agenda densa que abria o segundo semestre, e os operadores enfrentavam uma situação paradoxal: enquanto o dólar caía, os juros subiam — um sinal claro de que fatores domésticos estavam pesando mais que as condições externas.
Às 9h30, o contrato de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2022 marcava 5,695%, ante 5,687% no fechamento anterior. O DI para janeiro de 2027 havia saltado para 8,55%, comparado aos 8,49% do dia anterior. A reversão era modesta, mas significativa o suficiente para indicar uma mudança no sentimento dos investidores. Profissionais do mercado apontavam que, apesar da queda do dólar naquela manhã, o ruído político doméstico estava exercendo pressão sobre a curva de rendimentos — um peso que superava até mesmo o alívio que viria de uma moeda mais fraca.
O cenário político ganhava relevância crescente. A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid, que havia operado em segundo plano durante semanas, começava a ocupar o centro das atenções do mercado. Naquele dia, a comissão ouviria o empresário Luiz Paulo Dominguetti Pereira, que se apresentava como representante da Davati Medical Supply. Dominguetti havia afirmado que Roberto Ferreira Dias, então diretor de Logística do Ministério da Saúde, havia solicitado uma propina de um dólar por dose de vacina AstraZeneca que o governo Bolsonaro adquirisse. As suspeitas de corrupção na compra de imunizantes começavam a impactar diretamente o apetite dos investidores por ativos brasileiros.
O Departamento de Economia da Renascença DTVM oferecia uma leitura cautelosa do dia. A instituição reconhecia que a curva de juros poderia continuar mostrando elevação de taxas, com os riscos domésticos e aspectos da conjuntura global favorecendo esse movimento. Mas alertava também para a possibilidade de volatilidade em certos momentos, especialmente considerando que o Brasil realizaria um leilão de títulos públicos naquela manhã — o primeiro do segundo semestre. A combinação de incerteza política e operações de mercado criava um ambiente de cautela.
A agenda do dia era carregada. Além da CPI e do leilão de títulos, os investidores aguardavam os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados de maio, que seriam divulgados às 10h30. Os analistas consultados apontavam para uma criação líquida de 157,5 mil vagas, o que representaria o melhor resultado para maio desde 2011. Em abril, o saldo havia ficado positivo em 120.935 vagas. Também às 10h30, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, participaria de um evento sobre cooperativismo financeiro. Entre 11h e 11h30, o Tesouro Nacional venderia títulos públicos.
O que tornava o dia particularmente delicado era a confluência de fatores. Externamente, a variante delta do coronavírus avançava na Europa e Ásia, reduzindo o apetite ao risco global. Internamente, a investigação sobre corrupção na compra de vacinas ganhava peso político e mercadológico. E enquanto isso, o dólar caía — normalmente um fator positivo para ativos em reais — mas não era suficiente para compensar a pressão dos riscos domésticos. Os juros subiam com cautela, refletindo uma realidade mais complexa que qualquer movimento de moeda isolado poderia explicar.
Bemerkenswerte Zitate
A curva de juros poderá seguir mostrando elevação de taxas, com os riscos domésticos e aspectos da conjuntura global favorecendo esse cenário— Departamento de Economia da Renascença DTVM
A CPI da Covid, inicialmente acompanhada em segundo plano, ganhou notoriedade do mercado a partir do momento em que suspeitas de corrupção na tentativa de obtenção de vacinas implicaram o governo federal— Profissionais da Renascença DTVM