Juros e recessão derrubam Ibovespa 2,86%; dólar sobe 4%, maior alta desde março de 2020

O medo de recessão derrubou até quem deveria ganhar com inflação
Exportadores de commodities caíram apesar de sinalizações de alta de juros, porque o mercado precificava desaceleração econômica global.
Mark

O que exatamente fez o mercado desabar naquele dia? Parece que tudo caiu ao mesmo tempo.

Mimi

Jerome Powell sinalizou que o Federal Reserve estava considerando aumentos de juros de 50 pontos-base, e alguns analistas já falavam em 75. Isso mudou a percepção de quanto aperto monetário estava por vir.

Luke

Mas espera — Powell disse que 50 pontos-base estava "na mesa", ou foi uma confirmação? Porque há diferença entre sinalizar uma possibilidade e confirmar um movimento.

Mimi

Ele sinalizou como possibilidade. O que acelerou o pessimismo foi que analistas começaram a especular em aumentos ainda maiores, de 75 pontos-base.

Mark

E por que isso derruba o mercado brasileiro especificamente? O Fed é americano.

Mimi

Porque quando o Fed sobe juros, o dólar fica mais atrativo. Recursos saem de mercados emergentes como o Brasil e vão para a renda fixa americana. Além disso, juros mais altos reduzem o apetite por risco globalmente.

Luke

O dólar subiu 4% naquele dia. Mas o Banco Central brasileiro interveio com um leilão de US$ 571 milhões. Isso foi suficiente para conter a escalada, ou foi mais um gesto simbólico?

Mimi

Foi a primeira intervenção desde dezembro. Provavelmente simbólica — US$ 571 milhões é uma gota em um oceano de fluxos cambiais.

Mark

E as commodities? Por que as ações de Vale e Petrobras caíram tanto se juros altos normalmente elevam preços de commodities?

Mimi

Porque o mercado começou a falar em recessão mundial. Se a economia global desacelera, a demanda por commodities cai, independentemente do preço.

Luke

Mas isso é especulação ou havia dados concretos? O texto menciona que os índices de gerente de compras frustraram consensos.

Mimi

Exatamente. Os PMIs do Reino Unido e dos EUA vieram fracos, o que alimentou o medo de recessão.

Mark

E a política interna brasileira? O indulto do Bolsonaro ao Daniel Silveira realmente moveu mercado?

Luke

O texto diz que "reforça a visão de instabilidade política", mas não quantifica o impacto. É difícil separar quanto daquela queda foi por política interna e quanto foi por fatores globais.

Mimi

Provavelmente foi um fator adicional em um dia já pessimista. Quando o mercado está assustado, qualquer notícia ruim pesa mais.

  • Jerome Powell sinalizou alta de 50 pontos-base e analistas passaram a cogitar até 75, transformando o medo de inflação em medo de recessão em questão de horas.
  • O Ibovespa despencou 2,86% — sua pior queda desde novembro de 2021 — enquanto o dólar disparou 4%, obrigando o Banco Central a intervir pela primeira vez desde dezembro.
  • Exportadores de commodities como CSN, Vale e Petrobras lideraram as perdas, derrubados pelo espectro de uma desaceleração global que reduziria a demanda por seus produtos.
  • A crise institucional interna agravou o quadro: o indulto presidencial ao deputado Daniel Silveira, condenado pelo STF, elevou a percepção de instabilidade política no país.
  • A curva de juros brasileira abriu em bloco, com os vencimentos mais longos subindo até 20 pontos-base, sinalizando que o mercado antecipa um ambiente de crédito mais caro por mais tempo.

Na última sexta-feira de abril de 2022, os mercados brasileiros e americanos foram varridos por uma onda de pessimismo que raramente se manifesta com tanta intensidade em um único pregão. A sinalização de Jerome Powell sobre um aperto monetário mais agressivo do que o esperado reacendeu o temor ancestral dos mercados: que o remédio contra a inflação possa ser forte o suficiente para adoecer a economia. O Ibovespa recuou 2,86% e o dólar saltou 4%, lembrando que as decisões tomadas em Washington reverberam, com força e rapidez, nas praças financeiras do mundo inteiro.

A sexta-feira de 22 de abril de 2022 foi de perdas generalizadas para o mercado brasileiro. O Ibovespa fechou em queda de 2,86%, aos 111.077 pontos — a maior baixa desde novembro de 2021 —, acumulando tombo de 4,39% na semana. O movimento refletia o pessimismo que havia tomado conta das bolsas americanas na véspera, quando a B3 estava fechada por feriado. Os ADRs brasileiros em Nova York já antecipavam o que viria.

O gatilho havia sido disparado por Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, ao sinalizar que uma alta de 50 pontos-base estava sobre a mesa para a próxima reunião. A declaração abriu espaço para especulações ainda mais agressivas, com alguns analistas prevendo aumentos de 75 pontos-base. Christine Lagarde, do Banco Central Europeu, reforçou o tom ao indicar forte chance de alta de juros na Europa. Economistas passaram a avaliar que o Fed precisaria apertar a política monetária em velocidade muito maior do que havia sido sinalizado, com a taxa podendo chegar a 3% ou 3,25% no ano seguinte.

O dólar foi o grande destaque do pregão, avançando 4% e sendo cotado a R$ 4,805 na venda — a maior alta desde março de 2020. A pressão foi tanta que o Banco Central brasileiro interveio com um leilão à vista de US$ 571 milhões, sua primeira atuação desde dezembro. A curva de juros doméstica também abriu em bloco, com os vencimentos mais longos subindo até 20 pontos-base.

O setor que mais sofreu foi o de exportadores de commodities. Apesar de a inflação global tendencialmente favorecer os preços das matérias-primas, o discurso crescente sobre recessão mundial derrubou os papéis do segmento: CSN caiu 7,68%, Vale recuou 5,80% e Petrobras perdeu entre 3,90% e 4,98%. Números fracos dos índices de gerentes de compras no Reino Unido e nos Estados Unidos reforçaram o pessimismo.

Além do cenário externo, a instabilidade política interna também pesou. O indulto presidencial ao deputado Daniel Silveira, condenado pelo STF a quase nove anos de prisão, elevou a percepção de crise institucional. Somavam-se ainda as pressões de servidores públicos por reajustes salariais, com policiais federais convocando protesto para o dia 28 e funcionários da CVM aprovando operação-padrão — sinais de que as turbulências internas estavam longe de se dissipar.

A sexta-feira de 22 de abril de 2022 trouxe um pregão de perdas generalizadas para o mercado brasileiro. O Ibovespa, principal índice da bolsa, fechou em queda de 2,86%, encerrando o dia aos 111.077 pontos — a maior baixa desde 26 de novembro de 2021, quando havia caído 3,39%. Na semana, o tombo acumulado chegou a 4,39%. O movimento acompanhava o pessimismo que havia tomado conta das bolsas americanas na véspera, quando a B3 estava fechada por feriado. Os ADRs brasileiros negociados em Nova York já haviam sinalizado o que viria: o Dow Jones Brazil Titans 20 ADR caiu 3,51% e o EWZ, principal ETF brasileiro do mercado americano, recuou 2,63%.

Nos Estados Unidos, o cenário era igualmente sombrio. O Dow Jones recuou 2,86%, marcando sua maior queda desde outubro de 2020. O S&P 500 caiu 2,77% e a Nasdaq, 2,65%. O gatilho para essa onda de vendas havia sido disparado na quinta-feira, quando Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, sinalizou que uma elevação de 50 pontos-base estava sobre a mesa para a próxima reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto. A declaração abriu espaço para especulações ainda mais agressivas: alguns analistas já falavam em aumentos de 75 pontos-base. Na sexta, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, reforçou o tom ao afirmar que via forte chance de alta de juros naquele ano.

A percepção de que o Federal Reserve precisaria acelerar o ritmo de aperto monetário ganhou força entre economistas. Alexandre Espirito Santo, economista-chefe da Órama, observou que havia uma compreensão crescente de que o banco central americano teria de subir os juros em velocidade muito maior do que havia sido sinalizado anteriormente. Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos, complementou a análise: o Fed havia deixado claro que um aumento de até 2,5% poderia não ser suficiente para conter a inflação, com possibilidade de chegar a 3% ou 3,25% até o ano seguinte. Essa perspectiva puxava recursos para o dólar e para a renda fixa americana.

O dólar foi o grande destaque do pregão. O contrato futuro para maio fechou em alta de 4,02%, negociado a R$ 4,82. O dólar comercial avançou 4%, sendo cotado a R$ 4,804 na compra e R$ 4,805 na venda — a maior alta desde março de 2020. Na semana, porém, o ganho foi um pouco menor, de 2,33%. A força da moeda americana foi tanta que o Banco Central brasileiro interveio pela primeira vez desde 23 de dezembro, realizando um leilão à vista de US$ 571 milhões para tentar conter a escalada.

A alta do dólar e o avanço dos treasuries americanos pressionaram a curva de juros brasileira em bloco. O DI com vencimento em 2023 viu sua taxa subir um ponto-base, para 13,04%. O DI para 2025 avançou 13 pontos, para 12,16%. Na ponta longa, os DIs para 2027 e 2029 subiram 19 e 20 pontos, respectivamente, para 11,97% e 12,08%. Empresas de tecnologia e varejo foram particularmente atingidas. As ações ordinárias da Locaweb recuaram 6,29%, entre as principais quedas do índice.

Mas o setor que mais sofreu foi o de exportadores de commodities. Apesar de as sinalizações de alta dos juros serem motivadas pelo avanço da inflação global — o que tenderia a elevar os preços dos produtos não manufaturados — o discurso crescente sobre a possibilidade de recessão mundial derrubou os papéis desse segmento. As ações ordinárias da CSN fecharam em queda de 7,68%, a maior baixa do índice. A Vale recuou 5,80%. As ações ordinárias e preferenciais da Petrobras caíram 4,98% e 3,90%, respectivamente. O pessimismo foi reforçado por números fracos dos índices de gerente de compras publicados naquele dia, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, que frustraram os consensos dos analistas.

Além do cenário internacional, instabilidade política interna também pesou sobre o pregão. Jair Bolsonaro havia concedido indulto ao deputado federal Daniel Silveira, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a oito anos e nove meses de prisão por tentativa de impedir o livre exercício dos Poderes e coação no curso do processo. A decisão, que contrariava a sentença da corte, elevou a percepção de crise institucional entre os poderes. Espirito Santo apontou que a medida reforçava a visão de instabilidade política. Internamente, investidores também monitoravam a pressão de servidores por reajustes salariais, com possíveis reflexos na política fiscal. Policiais Federais haviam marcado protesto para o dia 28, frustrados com as propostas do governo, enquanto funcionários da CVM aprovaram operação-padrão a partir da segunda-feira para pressionar por maior reajuste.

Há uma percepção, outrora de poucos, de que o Federal Reserve vai precisar subir os juros numa velocidade muito maior, com alguns analistas já prevendo altas de 75 pontos-base
— Alexandre Espirito Santo, economista-chefe da Órama
O que o Fed disse recentemente é que o aumento de até 2,5% pode não ser suficiente para conter a inflação. Já se fala em chegar a um aumento de 3% a 3,25% até o ano que vem
— Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur InfoMoney ↗
Nous contacter FAQ