Juros disparam com aversão global, inflação e risco fiscal em alta

A inflação é agora um problema mundial que preocupa até o Federal Reserve
Analista explica por que os juros americanos subiram junto com os brasileiros, quebrando o padrão histórico.
Mark

Por que os juros subiram tanto se normalmente em momentos de risco global as pessoas fogem para títulos seguros?

Mimi

Porque dessa vez a inflação é o problema de verdade em todo lugar. Não é só aqui. O Federal Reserve também está preocupado, então os Treasuries americanos subiram junto, não caíram como seria de esperar.

Luke

Mas espera — a gente sabe que o Fed vai apertar 25 pontos-base na quarta. Isso já estava precificado ou foi surpresa?

Mimi

Já era esperado. O que surpreendeu foi o tom que sinalizavam — mais duro contra a inflação.

Mark

E aqui no Brasil, qual era o maior medo além da inflação?

Mimi

Uma greve de caminhoneiros. Se paralisassem como em 2018, mas agora com a economia já sufocada por falta de oferta, seria muito pior.

Luke

Quanto pior? Tem número?

Mimi

Não tem estimativa de impacto específica no material, mas o contexto é: inflação já acelerada, commodities em risco por causa da guerra, e aí vem uma paralisação.

Mark

E o governo tentou fazer algo?

Mimi

Bolsonaro sugeriu zerar PIS e Cofins na gasolina, mas a equipe econômica achou ruim porque custaria R$ 30 bilhões.

Luke

Então a solução que ele propôs foi rejeitada pelos seus próprios economistas?

Mimi

Basicamente sim. Havia tensão entre o que o presidente queria fazer e o que a equipe econômica achava viável.

  • DI para janeiro de 2023 subiu para 13,275%
  • Expectativa de inflação 2022 saltou para 6,45%, acima do teto de 5%
  • Maior salto semanal em projeção de inflação desde novembro de 2002
  • Possível renúncia fiscal de R$ 30 bilhões com redução de PIS e Cofins

DI para janeiro de 2023 subiu para 13,275% e expectativas de inflação 2022 saltaram para 6,45%, acima do teto de 5%. Conflito Rússia-Ucrânia, possível assistência militar chinesa e temor de paralisação de caminhoneiros amplificam incertezas no mercado.

Taxas de juros futuros fecharam em alta firme alinhadas à aversão ao risco global, piora fiscal e inflação elevada. Mercado precifica pressões de conflito no leste europeu, possível ajuda militar chinesa à Rússia e riscos domésticos como greve de caminhoneiros.

Os juros futuros encerraram segunda-feira em trajetória ascendente, refletindo uma confluência de pressões que não deixava espaço para otimismo. Lá fora, o cenário internacional se deteriorava: esperanças de progresso nas negociações entre Rússia e Ucrânia desapareceram, e surgiram relatos de que a China poderia fornecer apoio militar aos russos. Aqui dentro, a curva de rendimentos se abria sob o peso de três preocupações simultâneas — a crise dos combustíveis, a inflação acelerada e o risco de que o governo ampliasse o auxílio emergencial. Havia também o fantasma de uma possível greve de caminhoneiros, mobilizados na sexta-feira anterior.

Os números refletiram essa pressão com clareza. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou em 13,275%, subindo de 13,152% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2024 saltou de 12,995% para 13,21%. Mais adiante na curva, o DI para janeiro de 2025 encerrou em 12,68%, contra 12,443% antes, e o de janeiro de 2027 terminou em 12,50%, de 12,211%. A manhã havia trazido algum alívio — o petróleo em queda e sinais de diálogo entre Moscou e Kiev ajudavam a conter a alta — mas a tarde reverteu essas esperanças.

O que mais assustava o mercado era a trajetória das expectativas de inflação. A pesquisa Focus mostrou que a mediana das projeções para o IPCA em 2022 saltou 0,8 ponto porcentual em uma única semana, chegando a 6,45%. Esse número ultrapassava em muito o teto da meta oficial de 5% para o ano. Foi o maior salto semanal em uma projeção de inflação desde novembro de 2002. Para a Selic neste ano, a mediana subiu de 12,25% para 12,75%. Mas o que realmente preocupava os analistas era o horizonte de 2023, onde a política monetária concentra seu peso: a projeção de IPCA para aquele ano saiu de 3,51% para 3,70%, afastando-se ainda mais da meta central de 3,25%.

Rogério Braga, diretor de Gestão de Renda Fixa e Multimercados da Quantitas Asset, capturou a estranheza do momento. Normalmente, quando o risco global aumenta, investidores correm para títulos americanos seguros. Dessa vez não. O que o surpreendeu foi a abertura da curva dos Treasuries — os juros americanos de dez anos subiram, não caíram. A razão, explicou, é que a inflação é agora um problema mundial que preocupa até o Federal Reserve, que se reuniria na quarta-feira para apertar os juros em 25 pontos-base e, provavelmente, adotar um tom duro contra a inflação em seu comunicado.

Domesticamente, o temor de uma greve de caminhoneiros ecoava com força particular. Uma paralisação como a de 2018 seria devastadora no contexto atual, quando gargalos de oferta já pressionavam a inflação. Quanto mais o conflito no leste europeu se prolongasse, mais o mercado se preocupava com commodities e seus efeitos inflacionários — e, portanto, com o risco para as contas públicas em um ano eleitoral. O presidente Jair Bolsonaro havia aventado a possibilidade de zerar PIS e Cofins sobre a gasolina para mitigar os reajustes da Petrobras, mas a renúncia fiscal estimada em R$ 30 bilhões desagradava sua equipe econômica.

O Copom se reuniria na quarta-feira em meio a esse caos de incertezas. Os economistas do Banco Original sugeriram que o colegiado deveria manter o plano de desacelerar o ritmo de alta da Selic, mas sinalizar a necessidade de estender o ciclo de aperto. Essa escolha responderia à piora nas expectativas de inflação, ao descolamento do IPCA 2023 em relação à meta, e à soma de ruídos internacionais. Pressupunha também que o ajuste monetário estava próximo do fim, o que exigia agora ajustes mais finos — não mais os grandes passos de antes.

Me surpreendeu o nível do juro de 10 anos, pois normalmente o contexto de aversão resulta em corrida para os títulos americanos
— Rogério Braga, diretor de Gestão de Renda Fixa e Multimercados da Quantitas Asset
Há muito a ser digerido pelo colegiado. Juntando tudo, nos parece estrategicamente mais acertado manter o plano de reduzir o ritmo de alta da Selic, mas sinalizar a necessidade de estender o ciclo
— Economistas do Banco Original
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