Tesouro Prefixado 2031 oferecia retorno de 11,56%, superior aos 11,48% da sexta-feira anterior, enquanto títulos de curto prazo operavam em leve queda. Economista aponta que reunião do Federal Reserve nesta quarta pode deixar investidores cautelosos com mercados emergentes e reduzir posições em ativos de risco.
Juros de títulos públicos de longo prazo avançam com revisão de inflação e tensões globais
Quanto maior o prazo, maior o risco da posição
Por que os títulos de longo prazo subiram enquanto os de curto prazo caíram? Parece contraditório se a inflação está sendo revisada para cima.
Não é contraditório se você entender que o mercado está precificando dois movimentos diferentes. O curto prazo já reflete a inflação atual e próxima. O longo prazo está reagindo a fatores que afetam o risco — a reunião do Fed, as tensões geopolíticas, o orçamento ambíguo.
Mas o economista disse que o IPC-S na verdade reduz a pressão inflacionária. Então por que o Focus subiu? Quem está certo aqui?
O Focus é uma média de projeções de muitos economistas. Pode ser que a maioria tenha revisado para cima por outras razões — expectativas de demanda, câmbio, custos importados. O IPC-S é apenas um dado semanal.
E o orçamento? Como R$ 1,7 bilhão em reajustes não especificados pode afetar a curva de juros?
Porque cria incerteza. Se outras categorias começarem a exigir reajustes, você tem uma cascata de gastos que o governo não orçou. Isso piora o risco fiscal, e o mercado cobra isso nos juros.
Mas o Borsoi está especulando sobre essa cascata. Ele não tem dados de que outras categorias vão exigir reajustes — apenas que estão se mobilizando.
Verdade. Mas a mobilização já estava acontecendo quando ele falou. Fiscais da Receita e funcionários do Banco Central já estavam se movimentando.
E se o Fed sinalizar mais de quatro aumentos em 2022? Como isso afeta o Brasil especificamente?
Juros americanos mais altos tornam os ativos americanos mais atraentes. Investidores saem de mercados emergentes como o Brasil para buscar retornos maiores com menos risco. Isso pressiona os juros brasileiros para cima.
Mas isso é uma dinâmica geral de mercado emergente. Não é específico do Brasil. O que torna o Brasil diferente naquele momento era o orçamento e a inflação doméstica.
Exatamente. O Brasil tinha seus próprios problemas — fiscal e inflacionário — e ainda tinha que lidar com o fluxo de capital global se movendo.
Então o que o investidor deveria fazer com essa informação naquela segunda-feira?
Esperar pela reunião do Fed na quarta. Aquela era a data-chave. Tudo dependia do que o Fed sinalizava.
The Pulse
- Tesouro Prefixado 2031 oferecia retorno de 11,56%, superior aos 11,48% de sexta-feira
- Projeção de inflação para 2022 revisada de 5,09% para 5,15% no Boletim Focus
- Orçamento sancionado com R$ 1,7 bilhão em reajustes para funcionários públicos, sem especificar categorias
- Reunião do Federal Reserve marcada para quarta-feira (26 de janeiro)
Tesouro Prefixado 2031 oferecia retorno de 11,56%, superior aos 11,48% da sexta-feira anterior, enquanto títulos de curto prazo operavam em leve queda. Economista aponta que reunião do Federal Reserve nesta quarta pode deixar investidores cautelosos com mercados emergentes e reduzir posições em ativos de risco.
Juros dos títulos públicos de longo prazo subiram nesta segunda-feira enquanto mercado elevou projeção de inflação para 2022 de 5,09% para 5,15%, segundo Boletim Focus do Banco Central.
Na segunda-feira de janeiro, enquanto o mercado financeiro revisava suas expectativas para cima, os títulos públicos de longo prazo começaram a refletir essa mudança de humor. O Banco Central havia divulgado seu Boletim Focus naquela manhã, e os números ali contidos — uma elevação da projeção de inflação para 2022 de 5,09% para 5,15% — ecoavam pelas mesas de operação. Mas nem todos os papéis reagiram da mesma forma. Os títulos de curto prazo operavam em leve queda, enquanto apenas os de longo prazo apresentavam ganhos.
Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura, via naquele ajuste do Focus pouco mais que ruído estatístico. O que realmente importava, em sua avaliação, eram os dados do IPC-S — o Índice de Preços ao Consumidor Semanal — que havia subido 0,44% na terceira semana de janeiro. Esse movimento, paradoxalmente, tendia a reduzir a pressão inflacionária nos títulos, não aumentá-la. Mas o mercado não olhava apenas para trás. Três fatores convergiam naquela semana para moldar o comportamento dos investidores.
O primeiro era a reunião do Federal Reserve marcada para quarta-feira. Não se esperava que o banco central americano alterasse suas taxas naquele momento, mas a sinalização importava. Se o Fed indicasse mais de quatro aumentos de juros para 2022, isso geraria pressão nos juros americanos, e os juros brasileiros tenderiam a acompanhar. Borsoi explicava que quanto maior o prazo de um título de renda fixa, maior o risco que o investidor carregava — e portanto, maior a sensibilidade a movimentos nas taxas internacionais. A cautela dos investidores com mercados emergentes poderia reduzir suas posições em ativos mais arriscados, como as taxas de médio e longo prazo.
O segundo fator era o petróleo. A commoditie avançava em função das tensões no Oriente Médio e Leste Europeu, e esse movimento tinha potencial para contaminar a curva de juros brasileira. O terceiro era doméstico: o orçamento para 2022, sancionado naquela segunda-feira pelo presidente Jair Bolsonaro. A lei estipulava um reajuste de R$ 1,7 bilhão para funcionários públicos, mas sem especificar para quais categorias os recursos seriam destinados. Anteriormente, o aumento estava previsto apenas para policiais federais, policiais rodoviários federais e agentes de segurança do Departamento Penitenciário Nacional. Essa ambiguidade abria espaço para que outras categorias — fiscais da Receita, funcionários do Banco Central — exigissem seus próprios reajustes. Borsoi alertava que isso poderia levar a uma cascata de novos gastos, aumentando o risco fiscal.
Dentro do Tesouro Direto, os números refletiam essas pressões. O Tesouro Prefixado 2031, com juros semestrais, oferecia um retorno de 11,56%, superior aos 11,48% da sexta-feira anterior — um ganho pequeno, mas significativo em um mercado de renda fixa. Na contramão, o Tesouro Prefixado de curto prazo, com vencimento em 2024, apresentava uma rentabilidade de 11,38%, abaixo dos 11,43% da semana anterior. Entre os títulos atrelados à inflação, o movimento era mais contido. O Tesouro IPCA+ 2026 entregava um retorno real de 5,23%, inferior aos 5,28% de sexta-feira. O Tesouro IPCA+ 2040, com juros semestrais, apresentava leve variação positiva, oferecendo 5,65% frente aos 5,64% da semana anterior.
O Banco Central também havia mantido suas projeções para 2023 sem alterações: alta de 3,40% do IPCA. Os economistas consultados viam a Selic em 11,75% ao ano em dezembro daquele ano, mas caindo para 8% ao ano ao fim de 2023. Para o crescimento econômico, o Focus mantinha aposta de leve expansão do PIB em 2022, de 0,29%, enquanto que para 2023, as estimativas foram reduzidas, de 1,75% para 1,69%. O orçamento sancionado também mantinha os R$ 4,9 bilhões para o fundo eleitoral, conforme aprovado pelo Congresso no fim de dezembro. Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, auxiliares do presidente haviam sugerido que ele mantivesse a verba no orçamento mas deixasse em aberto quais categorias de servidores seriam contempladas, com a ideia de determinar esse ponto quando a pressão política diminuísse. A semana que se aproximava traria clareza sobre como os mercados internacionais reagiriam às sinalizações do Fed — e se as tensões globais e domésticas continuariam pressionando os juros brasileiros para cima.
Notable Quotes
Se os juros americanos sobem, os juros brasileiros tendem a seguir— Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura
Isso pode levar a outras categorias do funcionalismo exigir reajustes também, aumentando o risco de novos gastos— Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura