Juros altos e economia fraca pressionam balanços do 3º trimestre

Mesmo em períodos difíceis, as pessoas continuam precisando tomar remédio
Analista explica por que farmácias resistem melhor que varejo discricionário em economia fraca.
Mark

Por que os juros altos continuam pressionando os balanços se a Selic já começou a cair?

Mimi

Porque a queda é muito recente e pequena — de 14% para 13,75%. O impacto de mudanças na taxa de juros sobre os resultados das empresas é gradual e exige mais do que apenas o alívio nas taxas. Precisa de inflação controlada, previsibilidade e atividade econômica estável.

Luke

Mas quanto tempo leva esse impacto? A reportagem não diz. É importante saber se estamos falando de semanas, meses ou trimestres.

Mark

O varejo está realmente tão fraco assim?

Mimi

Depende do tipo. Vendas no varejo ampliado cresceram apenas 0,1% em agosto comparado ao ano anterior, bem abaixo do esperado. Mas farmácias cresceram 4,8%, acima das projeções.

Luke

Esse número de 0,1% — é só agosto ou representa o trimestre inteiro? A reportagem não deixa claro.

Mark

E a Petrobras? Parece estar indo bem.

Mimi

Muito bem. Deve registrar lucro de R$ 42,5 bilhões no trimestre, quase R$ 10 bilhões acima do ano anterior. O barril acima de US$ 100 impulsiona as margens.

Luke

Mas há uma ressalva importante que a reportagem menciona: petróleo caro importa inflação para o Brasil. Isso pode corroer os ganhos nominais se você ajustar pela inflação.

Mark

Qual é o tamanho real do crescimento do top 10 do Ibovespa?

Mimi

Formalmente, 16% comparado ao terceiro trimestre de 2025. Mas há um efeito contábil: a Axia Energia teve um prejuízo de R$ 5,45 bilhões em 2025 por reconhecimento de perdas com ativos. Sem esse efeito, o crescimento seria de apenas 5%.

Luke

Isso é importante: o crescimento de 16% é real em termos contábeis, mas parte dele vem de uma comparação com um período que teve um grande prejuízo. É uma questão de como você interpreta o número.

  • Selic em 13,75%, pressionando endividamento e margens de lucro
  • Vendas no varejo ampliado cresceram apenas 0,1% em agosto de 2026 vs. 2025
  • Petrobras deve registrar lucro de R$ 42,5 bilhões no 3º trimestre, R$ 10 bilhões acima de 2025
  • Top 10 do Ibovespa projeta crescimento de 16% no lucro líquido acumulado vs. 3º trimestre de 2025

Maioria das companhias deve registrar desempenho fraco ou com viés negativo, sem projeção de melhora generalizada de lucros comparado ao ano anterior. Selic acima de 13% continua pressionando endividamento e margens de lucro, afetando principalmente setores cíclicos como varejo e restringindo crédito nos bancos.

Temporada de balanços do 3º trimestre das empresas brasileiras começa com expectativa de desempenho fraco, pressionado por juros elevados e desaceleração econômica, exceto para setores como petróleo e energia.

A temporada de divulgação de resultados do terceiro trimestre começa nesta terça-feira com um cenário pouco animador para a maioria das empresas brasileiras. Analistas consultados pela Folha apontam que os balanços refletirão o peso de dois fatores simultâneos: uma taxa de juros que permanece acima de 13% e uma economia em desaceleração. O quadro não é uniforme — algumas gigantes do mercado devem apresentar números robustos —, mas para a maioria das companhias, a expectativa é de desempenho fraco ou misto, com lucros que não devem melhorar em relação ao mesmo período do ano passado.

O impacto dos juros elevados será sentido de forma desigual. A redução recente da Selic, de 14% para 13,75%, não trará alívio imediato aos balanços. Segundo Raphael Figueiredo, estrategista de renda variável da XP Investimentos, o efeito de uma queda de juros é gradual e depende de condições mais amplas — não apenas da taxa em si, mas de inflação controlada, previsibilidade e atividade econômica estável. Enquanto isso, o custo das dívidas e as despesas financeiras das companhias continuam pressionados. Os setores cíclicos, aqueles cujo desempenho está mais atrelado às oscilações econômicas e ao poder de compra, sofrerão mais. O varejo é o exemplo mais claro: um relatório do Itaú BBA de 15 de outubro mostrou que as vendas no varejo ampliado cresceram apenas 0,1% em agosto comparado ao mesmo mês de 2025, bem abaixo dos 2,3% que o banco havia projetado.

Dentro do varejo, há diferenças importantes. Empresas que vendem produtos não essenciais — o chamado varejo discricionário, como vestuário — tendem a sofrer mais quando o poder de compra se retrai. Farmacêuticas, por outro lado, mostram maior resiliência. Ruy Hungria, analista da Empiricus, explica que medicamentos são itens cuja restrição de consumo é mais difícil, mesmo em períodos de retração econômica e juros elevados. Os dados confirmam isso: vendas de artigos farmacêuticos em agosto de 2026 foram 4,8% superiores às do ano anterior, superando até as projeções do Itaú. Hungria também aponta a popularização das canetas emagrecedoras como um vento favorável para o setor de farmácia.

O desempenho do top 10 do Ibovespa oferece uma visão mais ampla. As dez empresas com maior peso na carteira teórica do índice — Vale, Itaú Unibanco, Petrobras, Axia Energia, Sabesp, Bradesco, B3, BTG Pactual, Weg e Embraer — devem registrar crescimento de 16% no lucro líquido acumulado no terceiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. Porém, comparado ao segundo trimestre deste ano, os ganhos devem recuar 10%. Esse resultado é afetado por um efeito contábil: a Axia Energia registrou um prejuízo de R$ 5,45 bilhões no terceiro trimestre de 2025 relacionado ao reconhecimento de despesas e perdas com vendas de ativos, especialmente sua participação na Eletronuclear. Sem esse efeito, a Axia teria registrado lucro de R$ 2,2 bilhões. Se esse impacto fosse neutralizado, o crescimento do top 10 seria de apenas 5%.

O destaque positivo da temporada virá dos setores de petróleo, energia e infraestrutura. A Petrobras, segundo o consenso de estimativas da Bloomberg, deve registrar lucro líquido de R$ 42,5 bilhões no trimestre, quase R$ 10 bilhões acima dos R$ 32,7 bilhões do terceiro trimestre de 2025. O impulso vem do preço elevado do barril de petróleo, que terminou o trimestre acima de US$ 100, beneficiado pela guerra no Irã. Com o barril caro, as margens de lucro das companhias de petróleo aumentam, e o setor apresenta estabilidade de consumo. Gustavo Bertotti, head de renda variável na Fami Capital, porém, expressa preocupação. Embora o Brasil exporte petróleo e ganhe com a balança comercial, o país importa muita inflação quando o barril está caro. A dependência de tecnologia e o custo logístico elevado são pontos de atenção que podem comprometer os ganhos no longo prazo.

A temporada de balanços que se inicia nesta semana será, portanto, um retrato de uma economia dividida: setores resilientes como energia e farmácia seguem adiante, enquanto a maioria das companhias enfrenta o duplo aperto de juros altos e demanda fraca. Weg divulga seus resultados já nesta quarta-feira, seguida pelo BTG Pactual em 10 de novembro.

É preciso compreender que o efeito da queda de juros é gradual e exige melhores condições financeiras gerais — não apenas o alívio nas taxas, mas um ambiente com inflação controlada, previsibilidade e atividade econômica estável
— Raphael Figueiredo, estrategista de renda variável da XP Investimentos
Mesmo em períodos difíceis de retração econômica, juros elevados, as pessoas continuam precisando tomar remédio
— Ruy Hungria, analista da Empiricus
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