Só eu sei a luta que eu estou vivendo dentro casa com três filhos
Após quase 9 horas de julgamento, o júri foi anulado quando a sétima testemunha começava a depor, prejudicando o trabalho que iniciaria naquele momento. Confrontos acalorados entre promotor Rodrigo Merli e advogados de defesa marcaram o primeiro dia, com acusações mútuas de má conduta e estratégias processuais questionáveis.
- Julgamento anulado após quase 9 horas e sete testemunhas ouvidas
- Três policiais militares acusados de matar Antonio Vinicius Lopes Gritzbach em novembro de 2024
- Motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio Novaes morto no ataque; deixou viúva e três filhos
- Confrontos acalorados entre promotor Rodrigo Merli e advogados de defesa marcaram o primeiro dia
O julgamento de três policiais militares acusados de assassinar o delator do PCC Antonio Vinicius Lopes Gritzbach foi anulado após quase 9 horas e sete testemunhas ouvidas, em meio a confrontos entre promotoria e defesa no Fórum Criminal de Guarulhos.
O julgamento durou quase nove horas. Sete testemunhas foram ouvidas no Fórum Criminal de Guarulhos. Depois, tudo foi cancelado. Os três policiais militares acusados de matar Antonio Vinicius Lopes Gritzbach, delator do PCC, em novembro de 2024, terão de voltar ao tribunal em outra data, ainda a ser marcada.
O primeiro dia foi marcado por tensão que extrapolou os limites do que se espera de um julgamento. O promotor Rodrigo Merli Antunes e os advogados de defesa entraram em confronto direto logo no início da tarde. Merli acusou o defensor Renan Pacheco Canto de estar acostumado a conversar com "bandido" e "matador de aluguel". Canto respondeu perguntando ao juiz se havia algum promotor "sério, respeitoso e honesto" no plenário. À noite, a discussão se acirrou novamente quando Merli tentou questionar um ataque a tiros sofrido pelo advogado Mauro Ribas Junior em fevereiro de 2025, em Sorocaba. O juiz indeferiu a pergunta. Merli insistiu. Os advogados confrontaram o promotor, que retrucou: "O senhor está com mau hálito". Merli depois afirmou que os defensores eram "leões nas redes sociais" mas "gatinhos" na sala de audiência, fugindo do embate com a Justiça. O juiz determinou uma pausa de cinco minutos.
Depois, Merli negou ter atacado um membro da banca de defesa, dizendo apenas que estava demonstrando aos jurados que a defesa criava narrativas para colocar "bandidos, travestidos de policiais, nas ruas". Afirmou que quase foi agredido por oito advogados dentro do plenário e que eles abandonaram o julgamento quando viram que tudo desabaria, apostando em um novo conselho de sentença. "Nas redes sociais, nas mídias, na imprensa parecem leões, mas, na verdade, não passam de gatinhos que, mais uma vez, fugiram do embate com a Justiça Pública", disse.
Mas havia outras pessoas no plenário além dos operadores do direito. Celso Araújo Sampaio Novaes era motorista de aplicativo. Ele estava no aeroporto de Guarulhos quando os tiros começaram. Morreu no ataque que visava Gritzbach. Sua esposa gritou para os advogados de defesa: "Não é justo. Estou há dois anos esperando por Justiça. Vocês têm que voltar para a faculdade, seus atores. Eles estavam lá dentro dando um show". Ela contou que sente tudo de novo, que tudo veio à tona quando o juiz anunciou o cancelamento. "Pra quê isso? Só eu sei a luta que eu estou vivendo dentro casa com três filhos. Meu filho está doente. Eu não tenho apoio, não tenho nada. Só eu sei o que estou passando". A mãe de Celso, Aparecida Camilo, 65 anos, viajou de Brasília para acompanhar o julgamento. Aos prantos, classificou o episódio como um absurdo e estratégia dos defensores. "Meu filho não volta mais, mas nós estamos aqui para lutar pela morte dele", disse.
Durante o julgamento, sete testemunhas depuseram. A primeira, W.S.S., trabalhava no aeroporto e testemunhou vários disparos em diferentes regiões e trajetórias. A defesa argumentou que isso prova desorganização dos atiradores, típica de quem não tem treinamento com fuzis — policiais militares, segundo os defensores, recebem esse treinamento. A segunda testemunha, S.L.O., voltava de Salvador quando foi atingida superficialmente na barriga e se escondeu atrás de um elevador. Disse que o episódio a abalou psicologicamente. A terceira foi Simone Dionizia Fernandes, viúva de Celso. Casada com ele há 21 anos, tinha três filhos — hoje com 22, 15 e cinco anos. Ela contou que Celso gravou um vídeo dentro da ambulância logo após ser atingido. "Ainda não colocamos a vida em ordem, principalmente meu filho de 15 anos. O Celso era um pai excelente, fazia de tudo pelos filhos. Ele era dedicado, não deixava faltar nada". A situação financeira da família continua difícil porque Celso era o provedor.
A quarta testemunha foi Leandro Lopes, perito do DHPP. A defesa tentou invalidar seu depoimento, alegando que ele se reuniu com o promotor Merli semanas antes do julgamento e teve acesso prévio ao parecer técnico dos assistentes da defesa. O juiz Rodrigo Tellini Camargo indeferiu o pedido. A quinta testemunha foi Danilo Lima Silva, motorista de Gritzbach. Ele afirmou nunca ter visto presencialmente o tenente Genauro, acusado de ser o motorista dos sicários, com Gritzbach, mas sabia que se conheciam. Danilo relatou que Gritzbach emprestava carros para Genauro e que em algumas ocasiões os veículos voltaram com rastreadores. Disse também que Vinicius mencionou que alguém chamado "Cigarreira" queria matá-lo. A sexta testemunha foi o capitão Vinicius Gomes Cajuela, que cumpriu mandado na casa de Genauro e apreendeu três notebooks, uma empunhadura de fuzil, imagens de câmeras de segurança, 12 relógios incluindo um Rolex, um colete balístico, 11 estojos de calibre .40, além de uma moto e um carro de luxo.
A sétima e última testemunha foi o capitão Manoel Flavio de Carvalho Barros, que cumpriu mandado na casa do cabo Denis. Ele começava a falar sobre sua atuação no processo quando a acusação perguntou se conhecia Mauro Ribas Jr. Nesse momento, o julgamento foi encerrado. O juiz não explicou formalmente o motivo da anulação, mas a defesa havia criado uma situação insustentável. Agora, tudo recomeça do zero.
Notable Quotes
Nas redes sociais, nas mídias, na imprensa parecem leões, mas, na verdade, não passam de gatinhos que, mais uma vez, fugiram do embate com a Justiça Pública— Promotor Rodrigo Merli
Não é justo. Estou há dois anos esperando por Justiça. Vocês têm que voltar para a faculdade, seus atores— Esposa de Celso Araújo Sampaio Novaes
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que exatamente o julgamento foi anulado? O juiz simplesmente decidiu parar?
Não foi tão simples assim. Houve uma escalada de confrontos entre o promotor e os advogados que tornou o ambiente insustentável. Quando a sétima testemunha começava a depor, a defesa criou uma situação que prejudicou o prosseguimento.
Os advogados fizeram isso propositalmente?
O promotor acredita que sim. Ele disse que a defesa abandonou o julgamento quando viu que tudo desabaria, apostando em um novo conselho de sentença. É uma estratégia processual, se for verdade.
E as famílias das vítimas? Como reagiram?
Com frustração e raiva. A esposa de Celso, o motorista de aplicativo que morreu no ataque, gritou para os advogados que estavam dando um show. Ela está há dois anos esperando por justiça e enfrenta dificuldades financeiras com três filhos.
Celso não era o alvo original, certo?
Não. O alvo era Gritzbach, o delator do PCC. Celso estava no aeroporto, no lugar errado na hora errada. Morreu nos disparos. Sua mãe viajou de Brasília para acompanhar o julgamento.
O que as testemunhas revelaram sobre o crime?
Várias coisas. Que os disparos foram desorganizados, em diferentes trajetórias. Que havia conexões entre Genauro e Gritzbach — empréstimo de carros, reforma de apartamento. Que Gritzbach mencionou ameaças de morte.
E agora? Quando volta o julgamento?
Ninguém sabe. O juiz ainda não marcou a data. Enquanto isso, a viúva de Celso continua lutando para manter a família de pé, e a mãe dele segue esperando por justiça.