Na véspera de uma eleição, o silêncio imposto a uma pesquisa de opinião revela quanto os números podem pesar sobre o destino político. No Ceará, um desembargador eleitoral suspendeu, horas antes do primeiro turno, a divulgação de um levantamento Datafolha contratado pelo O POVO, atendendo a pedido da coligação do governador Elmano de Freitas. O gatilho foi a imagem de um pesquisador usando colete de outro instituto — uma irregularidade pequena em aparência, mas suficiente para que a Justiça retirasse de circulação o último grande retrato das intenções de voto dos cearenses.
Juiz suspende pesquisa Datafolha a pedido da coligação de Elmano
A suspensão em si se torna uma notícia que influencia a eleição
Por que uma pesquisa de opinião pública pode ser suspensa por ordem judicial? Isso não é censura?
Não exatamente. A lei eleitoral brasileira estabelece regras sobre como as pesquisas devem ser conduzidas e divulgadas. Se há indícios de que uma pesquisa foi feita de forma irregular, um juiz pode intervir para proteger a integridade do processo eleitoral.
Mas o que exatamente foi irregular aqui? Um pesquisador usava um colete antigo. O Datafolha o desligou e descartou seus dados. Onde está a irregularidade que justifica silenciar toda a pesquisa?
A campanha de Elmano argumentou que o registro da pesquisa estava comprometido. Eles apresentaram a foto como prova de que havia problemas no controle de qualidade.
E o Datafolha tinha respostas para essas críticas?
Tinha. A diretora explicou que o instituto usa GPS, gravação de áudio, inteligência artificial para verificar as respostas, e ainda faz checagem manual de vinte por cento do trabalho. Eles têm procedimentos rigorosos.
Mas aqui está o ponto: nenhum desses procedimentos impediu que um pesquisador com colete de outra empresa chegasse ao campo. Se os controles são tão bons, como isso aconteceu?
É uma falha, sim. Mas o Datafolha agiu rápido quando descobriu. A questão é se uma falha isolada, já corrigida, justifica suspender toda a pesquisa.
Quem decide isso agora?
O Datafolha vai recorrer. Provavelmente a decisão vai para instâncias superiores da Justiça Eleitoral.
E enquanto isso, a pesquisa fica fora do ar, a uma noite da eleição. Isso beneficia quem?
Teoricamente, beneficia quem estava em posição desfavorável na pesquisa. Mas não sabemos os números porque a pesquisa foi suspensa.
Então a suspensão em si se torna uma notícia que influencia a eleição.
Exatamente. A decisão judicial virou parte da campanha.
Le Pouls
- Com o primeiro turno a menos de 24 horas, uma liminar judicial apagou da esfera pública a última pesquisa eleitoral disponível para os eleitores cearenses.
- A coligação de Elmano de Freitas apresentou foto de pesquisador do Datafolha usando colete de instituto concorrente, questionando a integridade do levantamento e seu registro formal.
- O Datafolha desligou o profissional imediatamente e descartou todos os dados por ele coletados, mas o gesto não foi suficiente para evitar a decisão judicial.
- O desembargador proibiu qualquer divulgação dos resultados — em rádio, TV, internet ou aplicativos — sob pena de multa de R$ 20 mil por violação.
- O instituto anunciou recurso, transformando a disputa sobre a pesquisa em um caso jurídico que promete se estender além do dia da votação.
Na véspera de uma eleição, o silêncio imposto a uma pesquisa de opinião revela quanto os números podem pesar sobre o destino político. No Ceará, um desembargador eleitoral suspendeu, horas antes do primeiro turno, a divulgação de um levantamento Datafolha contratado pelo O POVO, atendendo a pedido da coligação do governador Elmano de Freitas. O gatilho foi a imagem de um pesquisador usando colete de outro instituto — uma irregularidade pequena em aparência, mas suficiente para que a Justiça retirasse de circulação o último grande retrato das intenções de voto dos cearenses.
Na noite de sábado, 3 de outubro, o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará silenciou uma pesquisa de opinião poucas horas antes do primeiro turno das eleições estaduais. O desembargador Francisco Luís Rios Alves concedeu liminar à coligação "Ceará Forte do Lado Certo", apoiadora da reeleição do governador Elmano de Freitas, e ordenou a suspensão imediata do levantamento Datafolha contratado pelo O POVO — o último antes do pleito de domingo.
A decisão proibiu o Datafolha e o Grupo O POVO de divulgar os dados em qualquer meio, com multa de R$ 20 mil por descumprimento. O estopim foi uma fotografia: um pesquisador da equipe havia sido flagrado em campo usando colete de identificação de outro instituto onde trabalhara anteriormente. A campanha de Elmano usou a imagem para questionar o registro formal da pesquisa. O profissional foi desligado imediatamente e seus dados, descartados da amostra.
A diretora do Datafolha, Luciana Chong, defendeu os procedimentos do instituto: pesquisadores próprios, treinados e monitorados por GPS e gravação de áudio em cada entrevista. Vinte por cento do trabalho de campo é verificado manualmente, e candidatos com vínculos partidários são excluídos antes mesmo de começar. Ainda assim, a coligação convenceu o juiz de que a credibilidade da pesquisa havia sido comprometida.
O caso expõe a tensão entre transparência eleitoral e pressão política nos dias finais de uma campanha. O Datafolha anunciou recurso, mantendo a disputa viva além das urnas.
Na noite de sábado, 3 de outubro, o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará tomou uma decisão que silenciou uma pesquisa de opinião pública poucas horas antes do primeiro turno das eleições estaduais. O desembargador eleitoral Francisco Luís Rios Alves concedeu liminar à coligação "Ceará Forte do Lado Certo", que apoia a reeleição do governador Elmano de Freitas, e ordenou a suspensão imediata da divulgação de um levantamento Datafolha contratado pelo O POVO. A pesquisa havia sido publicada no início daquela tarde e seria o último sondagem de intenção de voto antes do pleito marcado para domingo, 4 de outubro.
A decisão judicial, proferida no processo 0602618-81.2026.6.06.0000, foi categórica: tanto o instituto Datafolha quanto o Grupo de Comunicação O POVO foram proibidos de "divulgar, publicar, veicular ou disponibilizar" os dados e resultados da pesquisa "no todo ou em parte". A proibição abrange todos os meios de comunicação — rádio, televisão, jornal impresso, internet, redes sociais e aplicativos de mensagens. O desembargador fixou multa de vinte mil reais para cada violação da ordem. O Datafolha anunciou que recorreria da decisão.
O que levou a coligação de Elmano a buscar a suspensão foi um problema identificado na sexta-feira anterior. Um pesquisador que integrava a equipe Datafolha no Ceará foi encontrado durante o trabalho de campo usando um colete de identificação de outro instituto de pesquisas onde havia trabalhado anteriormente. A campanha do governador apresentou uma fotografia do profissional como prova do ocorrido e questionou aspectos relacionados ao registro formal da pesquisa. Quando o problema foi descoberto, o pesquisador foi imediatamente desligado da equipe e todo o material que ele havia coletado foi desconsiderado da amostra final.
O Datafolha respondeu às críticas explicando seus procedimentos de controle de qualidade. Luciana Chong, diretora do instituto, afirmou que a empresa "não terceiriza o campo" — ou seja, não contrata outras empresas para realizar as entrevistas. "Utilizamos nossos pesquisadores que são treinados pelo Datafolha", explicou. Ela detalhou que o instituto opera em todo o Brasil com coordenações regionais em vários estados, incluindo o Ceará, onde um coordenador em Fortaleza acompanha as pesquisas sob supervisão da sede em São Paulo.
Chong descreveu o sistema de verificação que o Datafolha emprega. Cada tablet usado pelos pesquisadores possui GPS que registra a localização do entrevistador no momento da coleta. Todas as entrevistas são gravadas em áudio. O instituto utiliza inteligência artificial para transcrever as gravações e comparar as respostas registradas com o que foi anotado no questionário. Além disso, vinte por cento do trabalho de cada pesquisador é verificado manualmente para confirmar que as entrevistas realmente ocorreram e avaliar a abordagem do profissional. Antes de começar a trabalhar, cada pesquisador passa por treinamento e análise de perfil político, e pessoas com envolvimento com partidos ou candidatos são automaticamente excluídas.
O caso ilustra a tensão entre a necessidade de transparência nas pesquisas eleitorais e a pressão política que envolve sondagens divulgadas nos dias finais de uma campanha. A pesquisa suspensa seria o último grande levantamento antes dos eleitores cearenses irem às urnas, o que a tornava particularmente sensível do ponto de vista político. O Datafolha, ao desligar o pesquisador e descartar seus dados assim que o problema foi identificado, demonstrou ter procedimentos para lidar com falhas — mas a coligação de Elmano conseguiu convencer um juiz de que a credibilidade da pesquisa havia sido comprometida o suficiente para justificar sua retirada de circulação. O recurso anunciado pelo instituto promete manter a questão em disputa nos próximos dias.
Citations marquantes
A gente não contrata outras empresas de campo para fazerem as nossas pesquisas. Utilizamos nossos pesquisadores que são treinados pelo Datafolha— Luciana Chong, diretora do Datafolha
Temos um coordenador regional em Fortaleza e todo o acompanhamento é feito aqui por São Paulo— Luciana Chong, sobre a estrutura de supervisão do Datafolha no Ceará