Na manhã de 8 de outubro, em Belém do Pará, uma operação da Polícia Federal destinada a prender um suspeito de liderar um grupo de extermínio terminou com a morte de Marcello Victor Carvalho de Araújo, 24 anos — filho de uma escrivã da Polícia Civil e alheio à investigação. Entre a versão oficial, que fala em reação à abordagem, e o relato da família, que descreve violência injustificada e uma mãe agredida ao tentar se identificar, abre-se uma fratura dolorosa sobre o que acontece quando o poder do Estado encontra o corpo errado. O Ministério Público Federal investiga as circunstâncias, mas ne
Jovem de 24 anos, filho de escrivã da PC, morre em operação da PF no Pará
Assustado, ele correu para dentro, e eles o seguiram, disparando novamente
Como um jovem que trabalhava na Polícia Civil acaba morto durante uma operação da PF no próprio apartamento onde estava?
Marcello estava lá porque morava com a mãe, que é escrivã da PC. O padrasto dele, Marcelo da Sucata, era o alvo real da operação. Marcello não tinha nada a ver com a investigação.
Mas a PF diz que ele reagiu à abordagem. Temos confirmação independente disso ou é apenas a versão da corporação?
A família contesta completamente. A tia dele, Ana Carolina, disse que os policiais entraram "bastante alterados" e que o primeiro tiro atingiu Marcello fora do quarto, antes de ele correr para dentro.
E a mãe dele, que é policial? O que aconteceu com ela?
Segundo a tia, quando Ana Suellen tentou se identificar como policial civil, foi agredida pelos agentes. Levou dois tapas no rosto, foi xingada e depois impedida de ver o filho morto.
Temos isso confirmado por mais de uma fonte ou é só o relato da família?
Por enquanto é o relato da família. A PF não comentou especificamente sobre isso. A Polícia Civil do Pará foi contatada mas ainda não se posicionou.
Qual era o tamanho dessa operação?
Operação Eclesiastes. Dezenove mandados de prisão preventiva, trinta de busca e apreensão, sequestro de bens que pode chegar a R$ 1,5 bilhão. Investigava tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.
E o padrasto, Marcelo da Sucata, foi preso?
Sim. A PF disse que prendeu um dos principais alvos, descrito como líder de um grupo de extermínio. Não nomeou, mas tudo indica que era ele.
O que vem agora?
O Ministério Público Federal abriu investigação para apurar as circunstâncias da morte. Requisitou informações à PF, ao Instituto de Criminalística e ao IML.
The Pulse
- Um jovem sem envolvimento com a investigação foi morto dentro do próprio apartamento durante uma operação policial de grande escala.
- A família relata que os agentes entraram 'bastante alterados', atiraram duas vezes em Marcello e agrediram sua mãe — escrivã da Polícia Civil — quando ela tentou se identificar.
- A Polícia Federal descreveu a vítima apenas como 'um indivíduo que reagiu à abordagem', sem nomeá-lo, ampliando o abismo entre a narrativa oficial e o testemunho dos familiares.
- O padrasto de Marcello, alvo real da operação e apontado como líder de grupo de extermínio, foi preso — mas a morte do enteado permanece sem explicação convincente.
- O Ministério Público Federal abriu investigação criminal e requisitou informações a institutos periciais e à própria PF para apurar o que ocorreu naquela manhã.
Na manhã de 8 de outubro, em Belém do Pará, uma operação da Polícia Federal destinada a prender um suspeito de liderar um grupo de extermínio terminou com a morte de Marcello Victor Carvalho de Araújo, 24 anos — filho de uma escrivã da Polícia Civil e alheio à investigação. Entre a versão oficial, que fala em reação à abordagem, e o relato da família, que descreve violência injustificada e uma mãe agredida ao tentar se identificar, abre-se uma fratura dolorosa sobre o que acontece quando o poder do Estado encontra o corpo errado. O Ministério Público Federal investiga as circunstâncias, mas nenhuma apuração devolverá à família o jovem que velaram na quinta-feira.
Marcello Victor Carvalho de Araújo tinha 24 anos, formação em educação física e trabalhava como auxiliar administrativo na Polícia Civil do Pará. Na manhã de 8 de outubro, agentes da Polícia Federal invadiram o apartamento onde ele estava com a mãe e o namorado dela. O alvo da operação era seu padrasto, Marcelo Pantoja Rabelo, apontado como líder de um grupo de extermínio. Marcello não era investigado. Ao fim da ação, estava morto.
Sua mãe, Ana Suellen Carvalho, é escrivã da Polícia Civil. Sua tia-avó é promotora do Ministério Público do Pará. Quando o corpo foi velado na tarde de quinta-feira, a família já carregava uma versão dos fatos radicalmente diferente da nota oficial. Segundo a tia de Marcello, os policiais arrombaram a porta 'bastante alterados', o primeiro disparo o atingiu fora do quarto e, quando ele correu assustado para dentro, os agentes o seguiram e atiraram novamente. Ao tentar se identificar como policial civil, a mãe teria levado dois tapas no rosto, sido xingada e impedida de ver o filho.
A Polícia Federal afirmou, em nota, que 'um indivíduo reagiu à abordagem policial, foi atingido e não resistiu aos ferimentos'. A corporação não nomeou Marcello. A Operação Eclesiastes, da qual a ação fazia parte, investigava tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro, com potencial de sequestro de até R$ 1,5 bilhão em bens. O padrasto foi preso.
O Ministério Público Federal instaurou procedimento investigatório criminal ainda na quarta-feira, requisitando informações à PF, ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico Legal. O que permanece incontestável é que um jovem de 24 anos, sem envolvimento aparente com qualquer investigação, não saiu vivo do lugar onde deveria estar em segurança.
Marcello Victor Carvalho de Araújo tinha 24 anos, formação em educação física e um emprego como auxiliar administrativo na Polícia Civil do Pará. Na manhã de quarta-feira, 8 de outubro, agentes da Polícia Federal invadiram o apartamento onde ele estava com a mãe e o namorado dela durante uma operação de busca e apreensão. Marcello não era o alvo. Seu padrasto, Marcelo Pantoja Rabelo — conhecido como "Marcelo da Sucata" — era quem os policiais procuravam. Ao fim da ação, Marcello estava morto.
A família o descrevia como uma pessoa tranquila, próxima aos parentes, alguém que compartilhava nas redes sociais momentos de lazer e demonstrava interesse por esportes. Sua mãe, Ana Suellen Carvalho, é escrivã da Polícia Civil. Sua tia-avó, Ana Maria Magalhães, é promotora do Ministério Público do Pará. Quando o corpo foi velado na tarde de quinta-feira, 9 de outubro, em Belém, a família já tinha uma versão dos acontecimentos que divergia radicalmente da narrativa oficial.
Segundo Ana Carolina Carvalho, tia de Marcello, os policiais arrombaram a porta do apartamento e entraram "bastante alterados". O primeiro disparo atingiu o jovem fora do quarto. Assustado, ele correu para dentro do cômodo. Os agentes o seguiram e dispararam novamente. Marcello caiu. Quando a mãe tentou se identificar como policial civil, foi agredida pelos agentes — dois tapas no rosto, xingamentos, ordem para calar a boca. Depois, foi impedida de ver o filho morto.
A Polícia Federal, em nota oficial, apresentou uma versão diferente. Afirmou que "durante o cumprimento de um dos mandados de busca e apreensão, um indivíduo reagiu à abordagem policial, foi atingido e, embora tenha recebido atendimento imediato, não resistiu aos ferimentos." A corporação não nomeou Marcello na comunicação. Referiu-se apenas a "um indivíduo". Quanto ao padrasto, a PF informou que havia prendido "um dos principais alvos da investigação, identificado como líder de um grupo de extermínio com atuação no Pará", mas também não revelou o nome do detido.
A Operação Eclesiastes, da qual essa ação fazia parte, investigava uma organização criminosa envolvida em tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro. O mandado que levou os agentes ao apartamento era um de 19 mandados de prisão preventiva e 30 de busca e apreensão expedidos pela 4ª Vara Federal Criminal da Seção Judiciária do Pará. Os bens e valores passíveis de sequestro judicial poderiam somar até R$ 1,5 bilhão. Marcelo Pantoja Rabelo já tinha antecedentes: em 2020, havia sido preso suspeito de atropelar um policial militar e de liderar um grupo de extermínio.
O Ministério Público Federal instaurou um procedimento investigatório criminal para apurar as circunstâncias da morte de Marcello. Como parte da investigação, iniciada ainda na quarta-feira, o MPF requisitou informações à Superintendência Regional da PF no Pará, ao Instituto de Criminalística e ao Instituto Médico Legal. A Polícia Civil do Pará foi contatada para comentários adicionais, mas o posicionamento ainda estava pendente. O que fica claro é que um jovem de 24 anos, sem envolvimento aparente com a investigação que motivou a operação, não saiu vivo do apartamento onde estava naquela manhã.
Notable Quotes
O primeiro tiro atingiu meu sobrinho fora do quarto. Assustado, ele correu para dentro, e eles o seguiram, disparando novamente, e ele caiu.— Ana Carolina Carvalho, tia de Marcello, sobre os momentos da operação
Durante o cumprimento de um dos mandados de busca e apreensão, um indivíduo reagiu à abordagem policial, foi atingido e, embora tenha recebido atendimento imediato, não resistiu aos ferimentos.— Polícia Federal, em nota oficial