A banda conquistou prêmios Grammy Latino e sucesso massivo, mas enfrentou rejeição crítica desproporcional após comercial da Fanta em 2001. Jornalistas e críticos desqualificaram a banda por seu romantismo e melodias comerciais, enquanto o público manteve apoio consistente.
Jota Quest: injustiçada, banda sempre fez bom pop romântico
Eles preferiam ser ingênuos, sem aquela acidez que se espera
Por que você acha que a crítica foi tão dura com o Jota Quest quando tantas outras bandas de pop rock passaram ilesas?
Acho que foi uma questão de escala e timing. Eles ficaram muito grandes muito rápido, e quando você fica assim de expostos, vira alvo fácil. O comercial da Fanta foi só o gatilho.
Mas eles faziam boas músicas, certo? Não era só marketing?
Absolutamente não. Eles tinham músicos competentes, sabiam construir uma melodia que gruda. O problema é que a crítica decidiu que isso era superficial, que romantismo era coisa de quem não tinha nada a dizer.
E o público discordava?
Completamente. O público amava. "Só Hoje" virou a música mais ouvida deles no Spotify porque as pessoas realmente se conectavam com aquilo. A crítica e o público estavam em universos diferentes.
Você acha que eles mereciam aquele Grammy Latino?
Mereciam e muito. Dois Grammys, na verdade. Isso prova que havia qualidade ali, reconhecimento internacional. Mas a crítica brasileira parecia não querer aceitar isso.
O que você acha que o Jota Quest entendia que a crítica não entendia?
Que simplicidade não é sinônimo de falta de qualidade. Eles queriam uma canção fácil para todo mundo cantar junto. Isso é difícil de fazer bem. A crítica confundiu acessibilidade com mediocridade.
The Pulse
- Jota Quest vendeu um milhão de cópias e ficou superexpostos antes do comercial da Fanta em 2001
- A banda conquistou dois Grammys Latinos: Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro (2011) e Melhor Álbum de Rock Brasileiro Ao Vivo (2013)
- "Só Hoje", tema de casal em "Malhação" (2003), é a música mais ouvida do Jota Quest no Spotify em todos os tempos
- Rogério Flausino é o vocalista; Wilson Sideral, seu irmão, é praticamente um sexto integrante da banda
A banda conquistou prêmios Grammy Latino e sucesso massivo, mas enfrentou rejeição crítica desproporcional após comercial da Fanta em 2001. Jornalistas e críticos desqualificaram a banda por seu romantismo e melodias comerciais, enquanto o público manteve apoio consistente.
Análise sobre por que a banda mineira Jota Quest se tornou alvo de críticas apesar de sucesso comercial e reconhecimento internacional, explorando a mudança de tom da mídia a partir de 2001.
O Jota Quest toca no The Town este fim de semana carregando consigo uma reputação estranha: uma das bandas mais amadas pelo público brasileiro e simultaneamente uma das mais ridicularizadas pela crítica especializada. Essa contradição não é acidental. É o resultado de uma virada de tom que começou em 2001, quando a banda mineira de pop rock gravou um comercial para a Fanta Laranja e, de repente, virou alvo fácil para jornalistas e críticos que antes a celebravam.
Antes daquele momento, o Jota Quest era visto como uma banda divertida, com músicos competentes e arranjos que funcionavam. Seu primeiro álbum, lançado em 1996, trazia hits que grudam na cabeça — "Encontrar Alguém" abria com versos apaixonados sobre almas leves como fadas e peles claras como paz — mas também tinha espaço para coisas menos óbvias, como "Onibusfobia", uma canção cheia de trava-línguas sobre o medo de estar em um ônibus lotado em Jacarepaguá. O romantismo exagerado já estava lá desde o começo, mas ninguém parecia se importar tanto. O que mudou foi a escala. A banda vendeu um milhão de cópias, estava superexpostos, e quando o comercial da Fanta saiu, juntou-se a fome com a vontade de comer. Como Rogério Flausino, o vocalista, explicou em uma entrevista, a galera — não o público, mas jornalistas e críticos — decidiu que era hora de arregaçar aqueles moleques.
O que a banda fazia era simples: queria uma canção fácil, extremamente fácil, para você e eu e todo mundo cantar junto. Essa era a filosofia por trás de "Fácil", o maior hit deles, escrito com Wilson Sideral, irmão de Flausino e praticamente um sexto integrante da banda. "Falar é complicado, baby", canta Flausino naquela música, e é quase um manifesto das intenções do grupo. Não queriam complicar. Preferiam melodia acima de tudo, e isso funcionava. As trilhas sonoras ajudaram a popularizar a banda ainda mais — "Sempre Assim" tocou em "Zoando na TV" com Angélica, e "Só Hoje" virou tema de casal em "Malhação" em 2003, tornando-se a música mais ouvida deles no Spotify em todos os tempos.
Mas havia algo que pesava contra eles, segundo Seu Jorge, que gravou "Na Moral" com a banda. Ele definiu o Jota Quest como "agridoce" — ingênuo demais, sem aquela acidez que se espera da música pop. E havia o romantismo, um adjetivo que a crítica nunca recebeu bem. As letras eram apaixonadas, às vezes excessivamente. "Do seu lado" virou campeã de citações negativas com seu refrão sobre o amor ser o calor que aquece a alma e ter sabor pra quem bebe da sua água. Nando Reis, que escreveu essa letra, não entendia as críticas. Perguntou retoricamente se o entrevistador já havia bebido um copo de água quando estava com muita sede, defendendo seus versos como quase barrocos, cheios de imagens a favor de uma coisa muito objetiva: a necessidade de expressar sentimentos.
O que é injusto nessa história é negar o óbvio: o Jota Quest toca bem, sabe o que quer e criou músicas que grudam na cabeça, fazem dançar e embalam casais. A banda conquistou dois Grammys Latinos — Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro em 2011 e Melhor Álbum de Rock Brasileiro Ao Vivo em 2013 — prêmios que deixam claro que eles transitavam entre rock e pop como quem muda de roupa. Frequentemente convidavam letristas para trabalhar com eles: Paulinho Pedra Azul escreveu "Tele-fome", Martha Medeiros criou "Dentro de um abraço", e Humberto Gessinger, ex-Engenheiros do Hawaii, enviou uma sequência de mensagens de celular que virou "Tudo está parado". Havia sofisticação naquilo, mesmo que a crítica preferisse não ver.
A questão que fica é por que um grupo de pop rock entre tantos foi escolhido para ser um dos mais achincalhados do Brasil. Por que, quando se aceitava o pop rock conceitual de Paralamas, Pato Fu e Los Hermanos, o limite parecia ser o Skank, e o Jota Quest ficava de fora? Talvez porque eles nunca tiveram medo de fazer sucesso, de ser ingênuos, de preferir a melodia à picardia. Talvez porque, em um momento em que a crítica queria que as bandas fossem mais difíceis, mais ácidas, mais resistentes, o Jota Quest simplesmente quis cantar sobre amor e dança. Agora, tocando no The Town, eles continuam fazendo exatamente isso — e o público continua cantando junto.
Notable Quotes
Ganhamos uma puta grana na época. E era tabu fazer comercial— Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest, explicando a mudança de tom da crítica após o comercial da Fanta
Porque eles preferiram ser ingênuos. Não tem aquela picardia que se espera da música pop, que tem que ser uma coisa ácida. Eles são agridoces— Seu Jorge, sobre por que o Jota Quest viveu momentos de rejeição crítica