Jota Quest: injustiçada, banda sempre fez bom pop romântico

Eles preferiam ser ingênuos, sem aquela acidez que se espera
Seu Jorge explicando por que o Jota Quest enfrentou rejeição crítica apesar do sucesso comercial.
Mark

Por que você acha que a crítica foi tão dura com o Jota Quest quando tantas outras bandas de pop rock passaram ilesas?

Mimi

Acho que foi uma questão de escala e timing. Eles ficaram muito grandes muito rápido, e quando você fica assim de expostos, vira alvo fácil. O comercial da Fanta foi só o gatilho.

Mark

Mas eles faziam boas músicas, certo? Não era só marketing?

Mimi

Absolutamente não. Eles tinham músicos competentes, sabiam construir uma melodia que gruda. O problema é que a crítica decidiu que isso era superficial, que romantismo era coisa de quem não tinha nada a dizer.

Mark

E o público discordava?

Mimi

Completamente. O público amava. "Só Hoje" virou a música mais ouvida deles no Spotify porque as pessoas realmente se conectavam com aquilo. A crítica e o público estavam em universos diferentes.

Mark

Você acha que eles mereciam aquele Grammy Latino?

Mimi

Mereciam e muito. Dois Grammys, na verdade. Isso prova que havia qualidade ali, reconhecimento internacional. Mas a crítica brasileira parecia não querer aceitar isso.

Mark

O que você acha que o Jota Quest entendia que a crítica não entendia?

Mimi

Que simplicidade não é sinônimo de falta de qualidade. Eles queriam uma canção fácil para todo mundo cantar junto. Isso é difícil de fazer bem. A crítica confundiu acessibilidade com mediocridade.

  • Jota Quest vendeu um milhão de cópias e ficou superexpostos antes do comercial da Fanta em 2001
  • A banda conquistou dois Grammys Latinos: Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro (2011) e Melhor Álbum de Rock Brasileiro Ao Vivo (2013)
  • "Só Hoje", tema de casal em "Malhação" (2003), é a música mais ouvida do Jota Quest no Spotify em todos os tempos
  • Rogério Flausino é o vocalista; Wilson Sideral, seu irmão, é praticamente um sexto integrante da banda

A banda conquistou prêmios Grammy Latino e sucesso massivo, mas enfrentou rejeição crítica desproporcional após comercial da Fanta em 2001. Jornalistas e críticos desqualificaram a banda por seu romantismo e melodias comerciais, enquanto o público manteve apoio consistente.

Análise sobre por que a banda mineira Jota Quest se tornou alvo de críticas apesar de sucesso comercial e reconhecimento internacional, explorando a mudança de tom da mídia a partir de 2001.

O Jota Quest toca no The Town este fim de semana carregando consigo uma reputação estranha: uma das bandas mais amadas pelo público brasileiro e simultaneamente uma das mais ridicularizadas pela crítica especializada. Essa contradição não é acidental. É o resultado de uma virada de tom que começou em 2001, quando a banda mineira de pop rock gravou um comercial para a Fanta Laranja e, de repente, virou alvo fácil para jornalistas e críticos que antes a celebravam.

Antes daquele momento, o Jota Quest era visto como uma banda divertida, com músicos competentes e arranjos que funcionavam. Seu primeiro álbum, lançado em 1996, trazia hits que grudam na cabeça — "Encontrar Alguém" abria com versos apaixonados sobre almas leves como fadas e peles claras como paz — mas também tinha espaço para coisas menos óbvias, como "Onibusfobia", uma canção cheia de trava-línguas sobre o medo de estar em um ônibus lotado em Jacarepaguá. O romantismo exagerado já estava lá desde o começo, mas ninguém parecia se importar tanto. O que mudou foi a escala. A banda vendeu um milhão de cópias, estava superexpostos, e quando o comercial da Fanta saiu, juntou-se a fome com a vontade de comer. Como Rogério Flausino, o vocalista, explicou em uma entrevista, a galera — não o público, mas jornalistas e críticos — decidiu que era hora de arregaçar aqueles moleques.

O que a banda fazia era simples: queria uma canção fácil, extremamente fácil, para você e eu e todo mundo cantar junto. Essa era a filosofia por trás de "Fácil", o maior hit deles, escrito com Wilson Sideral, irmão de Flausino e praticamente um sexto integrante da banda. "Falar é complicado, baby", canta Flausino naquela música, e é quase um manifesto das intenções do grupo. Não queriam complicar. Preferiam melodia acima de tudo, e isso funcionava. As trilhas sonoras ajudaram a popularizar a banda ainda mais — "Sempre Assim" tocou em "Zoando na TV" com Angélica, e "Só Hoje" virou tema de casal em "Malhação" em 2003, tornando-se a música mais ouvida deles no Spotify em todos os tempos.

Mas havia algo que pesava contra eles, segundo Seu Jorge, que gravou "Na Moral" com a banda. Ele definiu o Jota Quest como "agridoce" — ingênuo demais, sem aquela acidez que se espera da música pop. E havia o romantismo, um adjetivo que a crítica nunca recebeu bem. As letras eram apaixonadas, às vezes excessivamente. "Do seu lado" virou campeã de citações negativas com seu refrão sobre o amor ser o calor que aquece a alma e ter sabor pra quem bebe da sua água. Nando Reis, que escreveu essa letra, não entendia as críticas. Perguntou retoricamente se o entrevistador já havia bebido um copo de água quando estava com muita sede, defendendo seus versos como quase barrocos, cheios de imagens a favor de uma coisa muito objetiva: a necessidade de expressar sentimentos.

O que é injusto nessa história é negar o óbvio: o Jota Quest toca bem, sabe o que quer e criou músicas que grudam na cabeça, fazem dançar e embalam casais. A banda conquistou dois Grammys Latinos — Melhor Álbum de Pop Contemporâneo Brasileiro em 2011 e Melhor Álbum de Rock Brasileiro Ao Vivo em 2013 — prêmios que deixam claro que eles transitavam entre rock e pop como quem muda de roupa. Frequentemente convidavam letristas para trabalhar com eles: Paulinho Pedra Azul escreveu "Tele-fome", Martha Medeiros criou "Dentro de um abraço", e Humberto Gessinger, ex-Engenheiros do Hawaii, enviou uma sequência de mensagens de celular que virou "Tudo está parado". Havia sofisticação naquilo, mesmo que a crítica preferisse não ver.

A questão que fica é por que um grupo de pop rock entre tantos foi escolhido para ser um dos mais achincalhados do Brasil. Por que, quando se aceitava o pop rock conceitual de Paralamas, Pato Fu e Los Hermanos, o limite parecia ser o Skank, e o Jota Quest ficava de fora? Talvez porque eles nunca tiveram medo de fazer sucesso, de ser ingênuos, de preferir a melodia à picardia. Talvez porque, em um momento em que a crítica queria que as bandas fossem mais difíceis, mais ácidas, mais resistentes, o Jota Quest simplesmente quis cantar sobre amor e dança. Agora, tocando no The Town, eles continuam fazendo exatamente isso — e o público continua cantando junto.

Ganhamos uma puta grana na época. E era tabu fazer comercial
— Rogério Flausino, vocalista do Jota Quest, explicando a mudança de tom da crítica após o comercial da Fanta
Porque eles preferiram ser ingênuos. Não tem aquela picardia que se espera da música pop, que tem que ser uma coisa ácida. Eles são agridoces
— Seu Jorge, sobre por que o Jota Quest viveu momentos de rejeição crítica
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