João Gomes conduz cortejo nordestino e conquista Palco Sunset do Rock in Rio

O Rock in Rio virou, por algumas horas, Carnaval
O cortejo de João Gomes com símbolos do Carnaval pernambucano transformou o festival em uma celebração da cultura nordestina.
Mark

Como é que um artista sai de um palco promocional em 2022 para headliner do Sunset em 2026? Parece uma trajetória muito rápida.

Mimi

Não foi só sorte. João trabalhou para expandir o forró além do seu espaço tradicional. As colaborações com artistas como Roberto Carlos e Gilberto Gil mostraram que o gênero podia conversar com outras linguagens. O Grammy Latino veio depois, validando tudo isso.

Luke

Mas a gente precisa ser cuidadoso aqui. O sucesso dele é real, mas também é verdade que o forró já tinha presença no Brasil antes dele. O que mudou foi a visibilidade dele especificamente, não necessariamente o gênero inteiro.

Mark

E quanto ao cortejo? Aquilo foi planejado ou surgiu no momento?

Mimi

Foi planejado. Ele reuniu símbolos do Carnaval pernambucano — o Boi da Macuca, os bonecos de Olinda — e criou um desfile que atravessou o público. Era uma forma de trazer a cultura nordestina para dentro do festival.

Luke

Mas a gente sabe que isso funcionou porque o público estava receptivo. Se tivesse sido em outro momento, com outra plateia, talvez não tivesse o mesmo impacto. Não é garantido que uma estratégia assim sempre funcione.

Mark

E a orquestra? Como é que se monta uma coisa dessas para um show?

Mimi

Ele trouxe músicos de diferentes estados, com instrumentos de várias tradições — violinos, pífanos de Caruaru, tambores do Maranhão. Era uma orquestra que representava o Brasil inteiro, não só o Nordeste.

Luke

Verdade, mas também houve uma falha técnica nas caixas de som. A gente não sabe como isso afetou a qualidade do som para quem estava mais longe. O relato foca na emoção, mas a experiência técnica pode ter sido desigual.

Mark

Qual foi o momento mais marcante para você?

Mimi

Quando Mestrinho subiu ao palco e João chorou. Aquilo era genuíno — dois parceiros que tinham acabado de fazer shows em lugares diferentes se reencontrando ali. Não era encenação.

Luke

É um momento bonito, sim. Mas também é o tipo de coisa que funciona bem em um relato porque é visualmente forte e emocionalmente clara. A gente não sabe se foi planejado ou se foi realmente uma surpresa.

Mark

E o que isso significa para o futuro do forró no Rock in Rio?

Mimi

Significa que o gênero conquistou legitimidade. João não é mais uma aposta — ele é um artista consolidado que pode trazer uma orquestra inteira e encher um dos palcos principais.

Luke

Mas a gente precisa lembrar que uma apresentação bem-sucedida não garante que isso vire tendência. O forró pode ter um espaço maior agora, mas não sabemos se vai ser permanente ou se foi um momento específico.

  • João Gomes saiu de um palco promocional em 2022 para o Palco Sunset em 2026
  • O show começou com um cortejo que incluía o Boi da Macuca, bonecos de Olinda e grupos de pernas de pau
  • A orquestra incluía violinos, violas, flautas, violoncelos, pífanos de Caruaru e tambores do Maranhão
  • Mestrinho subiu ao palco durante a apresentação, emocionando João até às lágrimas
  • João considerava "praticamente impossível" em 2022 que o piseiro ocupasse um dos palcos principais do Rock in Rio

João Gomes saiu de aposta do piseiro em 2022 para headliner do Palco Sunset, após colaborações com Roberto Carlos, Gilberto Gil e prêmio Grammy Latino. O show começou com cortejo pela plateia trazendo símbolos do Carnaval pernambucano: estandartes, Boi da Macuca, bonecos de Olinda e grupos de pernas de pau.

Cantor pernambucano João Gomes apresentou-se no Palco Sunset do Rock in Rio com cortejo de símbolos do Carnaval nordestino e orquestra brasileira, consolidando sua trajetória de artista que expandiu o forró nos palcos principais do festival.

João Gomes desceu do Palco Sunset do Rock in Rio no sábado à noite tendo feito algo que, quatro anos antes, ele próprio teria chamado de impossível. Em 2022, quando pisou pela primeira vez no festival ao lado de Pedro Sampaio num palco promocional, o forró era ainda um gênero à margem dos grandes espaços. Agora, com uma orquestra brasileira montada especialmente para sua apresentação, ele havia ocupado um dos palcos principais do maior festival de música do país — e enchido de gente.

Mas o show começou antes de ele subir ao palco. Enquanto J Balvin cantava no Palco Mundo, João reuniu um cortejo que atravessou a multidão do festival carregando os símbolos vivos do Carnaval pernambucano. Estandartes, o Boi da Macuca, uma chave como a que abre a festa em Caruaru, bonecos de Olinda representando João, Chico Science e Gonzagão, grupos de homens em pernas de pau — tudo isso se movimentava pelo público enquanto a orquestra de frevo tocava. A música pop dos estandes de marca se misturava ao som tradicional, criando uma pequena dissonância, mas ninguém se importou. Pessoas que estavam espalhadas pelo festival se reuniram. Quem estava sentado se levantou. O Rock in Rio virou, por algumas horas, Carnaval.

Depois de pouco mais de uma hora do desfile, João entrou no palco com alguns minutos de atraso, seu guitarrista tocando um solo brilhante de "Eu tenho a senha", um de seus maiores sucessos. A orquestra que o acompanhava era uma cartografia sonora do Brasil — violinos, violas, flautas e violoncelos ao lado de pífanos de Caruaru e tambores do Maranhão. Mesmo dentro desse projeto ambicioso e diferente, João não perdeu o que o tornou querido: uma leveza natural, simpatia genuína e a capacidade de improvisar. Cantou "Deusa de Itamaracá" e "Dengo". Houve uma falha técnica nas caixas de som do lado esquerdo do palco entre uma música e outra, mas o público — que não parava de comentar nunca ter visto o Sunset tão cheio — não deixou que isso diminuísse a energia.

O que impressionou foi a amplitude do que João escolheu celebrar naquela noite. Ele não apenas passeou por sua própria carreira, mas homenageou compositores nordestinos com um medley que trouxe "Confidências", "Anjo Querubim" e "Ai, Que Saudade D'Ocê". Cantou "Frevo Mulher" de Zé Ramalho ao lado do maestro Spok, cuja história está profundamente ligada ao frevo pernambucano. Fechou com dois sucessos de Assisão, uma lenda do forró que sonhava em ser roqueiro — "As quatro estações" e "Fogueirinha" deram o tom de baile junino para uma plateia que estava completamente dentro da festa.

O momento mais revelador veio quando Mestrinho, seu parceiro no projeto "Dominguinho", subiu ao palco minutos depois de fazer seu próprio show em outro espaço do festival. João, que já estava emocionado ao falar sobre estar ali, não conseguiu segurar as lágrimas. "Ensaiei tanto pra você me fazer chorar assim, faz isso, não", disse ele, rindo e chorando ao mesmo tempo. Antes disso, "Lembrei de nós" e "Arriadin por tu" — músicas do projeto que ganhou prêmio Grammy Latino — haviam tocado a plateia de forma visceral.

O que torna essa noite significativa vai além do espetáculo em si. João Gomes saiu de uma aposta do piseiro para alguém que cantou com Roberto Carlos, gravou com Gilberto Gil, foi elogiado por Caetano Veloso e entrou em estúdio com Marisa Monte. Sua trajetória é a história de um gênero que conquistou espaço nos palcos principais da música brasileira. Quando ele disse do palco que estava "possivelmente fazendo algo muito importante para o nosso forró", não era falsa modéstia. Era a constatação de alguém que viu a impossibilidade virar realidade, e que agora estava ali, com uma orquestra inteira, mostrando que o forró não é apenas um gênero — é uma forma de estar no mundo.

Ensaiei tanto pra você me fazer chorar assim, faz isso, não
— João Gomes, ao ser surpreendido por Mestrinho no palco
Estava possivelmente fazendo algo muito importante para o nosso forró
— João Gomes, refletindo sobre sua apresentação no Palco Sunset
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