Vinte anos após a segunda maior tragédia da aviação brasileira, o jato Embraer Legacy 600 que colidiu com um Boeing 737 da Gol e matou 154 pessoas segue operando rotas comerciais entre o México e os Estados Unidos, registrado sob a matrícula XA-FLY pela companhia FlyMex. Os dois pilotos americanos condenados pelo acidente jamais cumpriram pena, e a aeronave — reformada, renomeada e silenciosa sobre seu passado — continua cruzando fronteiras como se o peso de setembro de 2006 não existisse. Há algo perturbador na continuidade das coisas depois do insuportável.
Jato que causou tragédia da Gol em 2006 continua operando para empresa mexicana
O avião que matou 154 pessoas segue cumprindo sua função comercial
Como um avião que causou uma tragédia dessa magnitude consegue continuar voando normalmente?
Porque tecnicamente ele foi reparado e passou por inspeções. Não há lei que proíba uma aeronave de continuar operando após um acidente, mesmo que grave.
Mas espera — a investigação brasileira culpou os pilotos e os controladores, não o avião em si. O Legacy foi danificado, mas não era defeituoso.
Exato. E depois de reformado nos EUA, recebeu novas matrículas e foi vendido várias vezes. Legalmente, é como qualquer outra aeronave.
E os pilotos? Foram punidos?
Foram condenados em 2011 a três anos e um mês de prisão. Mas o governo americano discordou da conclusão brasileira e disse que apenas os controladores erraram.
Então ninguém cumpriu pena. Isso é importante deixar claro — não houve punição efetiva.
Verdade. Os dois continuaram voando nos Estados Unidos. Um está na American Airlines, segundo seu perfil público.
E ninguém achou estranho o avião voltar a operar, especialmente depois que visitou o Brasil em 2014?
A questão é: havia algo ilegal nisso? Provavelmente não. Mas há uma diferença entre legal e apropriado.
A FlyMex não quis comentar. Disse que não divulga informações sobre sua frota por confidencialidade.
Então a história termina aqui — o avião continua voando e ninguém quer falar sobre isso.
Termina, mas deixa uma pergunta aberta: deveria haver regulações que impedissem aeronaves envolvidas em acidentes dessa escala de continuar operando?
El Pulso
- O mesmo jato que destruiu um Boeing 737 em pleno voo e matou 154 pessoas decola hoje com normalidade de Sacramento rumo ao México, sem qualquer marcação pública de seu histórico.
- A divergência entre as conclusões do Brasil e dos Estados Unidos sobre a responsabilidade pelo acidente criou uma lacuna jurídica que permitiu aos pilotos condenados escapar inteiramente da prisão.
- A FlyMex se recusa a comentar qualquer aspecto da aeronave, invocando confidencialidade — uma resposta que encerra o diálogo sem oferecer nenhuma prestação de contas.
- Joseph Lepore mantém certificações ativas de piloto nos EUA, e Jan Paul Paladino se apresenta como piloto da American Airlines, enquanto nenhum dos dois respondeu a pedidos de comentário sobre o acidente.
- A aeronave passou por quatro matrículas diferentes, ficou apreendida por quatro anos e até retornou ao Brasil em 2014, antes de desaparecer do radar público e ressurgir em operação regular.
Vinte anos após a segunda maior tragédia da aviação brasileira, o jato Embraer Legacy 600 que colidiu com um Boeing 737 da Gol e matou 154 pessoas segue operando rotas comerciais entre o México e os Estados Unidos, registrado sob a matrícula XA-FLY pela companhia FlyMex. Os dois pilotos americanos condenados pelo acidente jamais cumpriram pena, e a aeronave — reformada, renomeada e silenciosa sobre seu passado — continua cruzando fronteiras como se o peso de setembro de 2006 não existisse. Há algo perturbador na continuidade das coisas depois do insuportável.
No domingo passado, um jato Embraer Legacy 600 com a matrícula XA-FLY decolou de Sacramento rumo a Hermosillo — mais um voo de rotina para a mexicana FlyMex, que já havia operado a aeronave pelo menos cinco vezes naquela semana. Nada chamava atenção. Mas aquele avião carrega uma história que não envelhece.
Em 29 de setembro de 2006, esse mesmo Legacy colidiu no ar com um Boeing 737 da Gol a cerca de 37 mil pés, sobre a Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso. O jato comercial perdeu parte da asa esquerda, ficou incontrolável e se desintegrou na queda. Cento e cinquenta e quatro pessoas morreram. Foi a segunda maior tragédia da aviação brasileira. O Legacy sofreu danos, mas permaneceu controlável — os dois pilotos americanos a bordo, Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, conseguiram pousar na base aérea do Cachimbo. Todos os sete ocupantes do jatinho sobreviveram.
A investigação do Cenipa concluiu que a colisão resultou de erros dos controladores aéreos e dos pilotos do Legacy. Em 2011, Lepore e Paladino foram condenados a mais de três anos de prisão. Mas o governo americano chegou a conclusão diferente, isentando os pilotos de culpa. A divergência garantiu que nenhum dos dois cumprisse pena. Ambos continuaram suas carreiras nos Estados Unidos.
Depois do acidente, o Legacy foi vendido, ficou apreendido no Pará até 2010 e foi levado aos EUA para reforma. Recebeu quatro matrículas diferentes ao longo dos anos, visitou o Brasil em 2014 e depois desapareceu do radar público. Hoje opera regularmente para a FlyMex, que se recusa a comentar qualquer aspecto da aeronave por razões de confidencialidade. É uma resposta que encerra a conversa sem respondê-la.
Lepore mantém certificações ativas de piloto nos EUA. Paladino se apresenta no LinkedIn como piloto da American Airlines. Nenhum dos dois respondeu a pedidos de comentário. O avião que matou 154 pessoas segue cumprindo sua função comercial, como se aquele domingo de 2006 nunca tivesse acontecido.
No domingo passado, um jato Embraer Legacy 600 registrado sob a matrícula XA-FLY decolou do aeroporto de Sacramento, na Califórnia, rumo a Hermosillo, no México. Foi mais um voo de rotina para a companhia aérea mexicana FlyMex — a aeronave já havia decolado pelo menos cinco vezes naquela semana, cruzando fronteiras entre cidades americanas e mexicanas. Nada de extraordinário. Nada que chamasse atenção. Mas aquele avião carrega uma história que não envelhece.
Em 29 de setembro de 2006, há exatamente vinte anos, esse mesmo Legacy se chocou no ar com um Boeing 737 da Gol a cerca de 37 mil pés de altitude, na região da Serra do Cachimbo, no norte de Mato Grosso. O impacto foi devastador para o jato comercial: perdeu aproximadamente um terço da asa esquerda, ficou incontrolável e se desintegrou durante a queda em uma área de mata fechada. Cento e cinquenta e quatro pessoas morreram — passageiros e tripulantes do voo comercial. Foi a segunda maior tragédia da aviação brasileira.
O Legacy, por sua vez, sofreu danos significativos. Perdeu parte da ponta da asa e foi atingido em outros pontos da fuselagem. Mas permaneceu controlável. Os dois pilotos americanos a bordo — Joseph Lepore e Jan Paul Paladino — conseguiram pousar a aeronave na base aérea do Cachimbo, no sul do Pará. Havia mais cinco pessoas na cabine. Todos sobreviveram.
A investigação conduzida pelo Cenipa, órgão da Força Aérea Brasileira responsável por apurar acidentes aeronáuticos, apontou que a colisão resultou de erros cometidos pelos controladores aéreos e pelos pilotos do jatinho. Em 2011, Lepore e Paladino foram condenados a três anos e um mês de prisão. Mas havia uma complicação: o governo americano determinou que os pilotos não haviam cometido erros, apenas os controladores. Essa divergência de conclusões significou que ninguém cumpriu pena oficialmente. Os dois pilotos continuaram suas carreiras nos Estados Unidos.
Depois do acidente, o Legacy foi vendido para uma empresa especializada em compra e revenda de aeronaves. Ficou apreendido na base aérea do Pará até novembro de 2010, quando foi levado para os Estados Unidos para ser reformado. Desde então, recebeu quatro matrículas diferentes até chegar ao prefixo atual. O jatinho voou para o Brasil ao menos uma vez após sua liberação — em abril de 2014 passou por Recife e Florianópolis. Depois disso, desapareceu do radar público.
Agora está operando regularmente para a FlyMex. Quando questionada sobre a aeronave, a companhia mexicana respondeu que não divulga informações operacionais, comerciais, históricas, de rotas ou relacionadas à sua frota por motivos de confidencialidade e segurança. É uma resposta que encerra a conversa sem respondê-la.
O Legacy era praticamente novo quando se envolveu no acidente. Tinha menos de cinco horas de voo em testes de aceitação da fábrica da Embraer em São José dos Campos. Vinte anos depois, continua voando. Joseph Lepore possui certificações válidas de piloto nos Estados Unidos. Jan Paul Paladino se identifica em seu perfil no LinkedIn como piloto da American Airlines — a companhia não confirmou se ele continua em seus quadros. Nenhum dos dois respondeu às tentativas de contato para comentar sobre o acidente duas décadas depois.
O avião que matou 154 pessoas segue cumprindo sua função comercial, transportando passageiros entre cidades mexicanas e americanas, como se aquele domingo de 2006 nunca tivesse acontecido.
Citas Notables
A FlyMex afirmou que não divulga informações operacionais, comerciais, históricas, de rotas, de utilização ou relacionadas à frota de qualquer aeronave sob sua gestão ou operação por motivo de confidencialidade e segurança— FlyMex, em resposta a questionamento sobre a aeronave