Em um intervalo de quarenta e oito horas após o primeiro turno, o deputado André Janones transformou um canal de WhatsApp em um quartel-general digital com mais de 1 milhão de membros, movido pela convicção de que a comunicação analógica de Lula nas redes sociais pode custar-lhe a reeleição. O gesto revela uma tensão antiga entre a política institucional e a linguagem das plataformas digitais — e a crença de que, em tempos de disputa acirrada, a proximidade humana vale mais do que o espetáculo do poder.
Janones mobiliza 1 milhão em tropa digital para resgatar campanha de Lula
Sentar na calçada junto com a pessoa e dialogar com ela
Por que Janones achou que precisava fazer isso sozinho? A campanha de Lula não tinha estrutura digital?
Ele disse explicitamente que não ia mais ficar esperando. Viu que a comunicação de Lula nas redes era analógica, desconectada da linguagem que funciona lá. Três semanas para virar uma eleição — ele sentiu urgência.
Mas espera. Ele tomou a iniciativa "por conta própria", segundo ele mesmo. Não sabemos se a campanha oficial concordava, se havia conflito, se era complementar ou concorrente.
E o crescimento de 50 mil para 1 milhão em 48 horas — isso é real ou é contagem inflada?
Ele contou à Folha que o canal ultrapassava 1 milhão até terça-feira. Áudios a cada hora pedindo que cada pessoa convidasse mais três — a matemática exponencial funciona rápido em WhatsApp.
Verdade, mas WhatsApp não é voto. Quantos desses 1 milhão realmente vão compartilhar conteúdo? Quantos vão virar votos? Não sabemos.
Ele quer 2 a 3 milhões. É realista?
Ele pretende dedicar a semana a isso. Convocou influenciadores com 500 mil seguidores ou mais para divulgarem o grupo. Está usando colaborações no Instagram para ampliar.
Novamente — crescimento de membros não é o mesmo que efetividade. E a estratégia dele de "comunicação unificada" depende de que todos esses influenciadores e políticos que ele citou realmente topem participar e coordenem as postagens.
Qual é a crítica dele ao Lula, no fundo?
Que o presidente chega de helicóptero, que a comunicação é cinematográfica demais, que precisa ser mais humano, mais nordestino, sentar na calçada e conversar.
Isso é uma crítica à imagem pública de Lula ou à estratégia da campanha? Porque Lula não controla se chega de helicóptero — alguém da campanha decidiu isso.
Janones tinha razão nas previsões dele sobre Flávio?
Em agosto, disse que Flávio ultrapassaria Lula. Em setembro, alertou sobre voto útil. E de fato Lula terminou o primeiro turno atrás.
Mas isso não prova que ele entende redes melhor que a campanha. Pode ser que ele tenha lido as pesquisas como qualquer um. E agora está tentando consertar algo que talvez não fosse só comunicação digital.
El Pulso
- Lula terminou o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, abrindo uma janela de apenas três semanas para reverter a desvantagem antes do segundo turno.
- Janones agiu por conta própria, sem esperar a campanha oficial, e multiplicou um canal de 50 mil para 1 milhão de membros em menos de dois dias com uma cadeia de convites em cascata.
- A crítica ao presidente é direta e incômoda: sua comunicação nas redes é 'ultrapassada e analógica', incapaz de falar a linguagem de quem decide eleições no ambiente digital.
- A estratégia proposta é de desprodução — menos helicópteros e cerimônias, mais cenas cotidianas gravadas com celular que mostrem um Lula humano e acessível.
- O deputado planeja formar um conselho de parlamentares com domínio de redes para gerir o crescimento e coordenar postagens coesas em múltiplas plataformas, replicando o modelo que a direita já domina.
Em um intervalo de quarenta e oito horas após o primeiro turno, o deputado André Janones transformou um canal de WhatsApp em um quartel-general digital com mais de 1 milhão de membros, movido pela convicção de que a comunicação analógica de Lula nas redes sociais pode custar-lhe a reeleição. O gesto revela uma tensão antiga entre a política institucional e a linguagem das plataformas digitais — e a crença de que, em tempos de disputa acirrada, a proximidade humana vale mais do que o espetáculo do poder.
Quarenta e oito horas depois do resultado do primeiro turno — com Lula atrás de Flávio Bolsonaro —, André Janones decidiu não esperar. O deputado federal reeleito por Minas Gerais olhou para as três semanas que restavam e concluiu que a máquina de comunicação da campanha não operava no ritmo que a disputa exigia. Então agiu por conta própria.
Janones tinha um canal no WhatsApp chamado 'Exército do Lula', criado em abril, com cerca de 50 mil membros. Decidiu transformá-lo em quartel-general digital. A cada hora, gravava áudios pedindo que cada novo membro convidasse mais três pessoas. O crescimento foi exponencial: até a terça-feira 6 de outubro, o canal ultrapassava 1 milhão de membros. Sua meta era alcançar entre 2 e 3 milhões para coordenar postagens coesas sobre Lula em diferentes plataformas — replicando a estratégia que produtores de conteúdo de direita já dominavam.
O deputado não era um nome qualquer nesse campo: 3 milhões de seguidores no Instagram, 1 milhão no X, 1,5 milhão no TikTok. Havia coordenado a estratégia digital da campanha de Lula em 2022 e, meses antes do primeiro turno, já alertava que Flávio Bolsonaro ultrapassaria o presidente nas pesquisas — previsão que lhe rendeu críticas da militância, mas que se confirmou.
Sua crítica ao presidente era direta: 'A maneira como o presidente se comunica nas redes sociais é ultrapassada, analógica.' Janones defendia gravações simples, feitas com um celular comum, mostrando Lula em momentos cotidianos — visitando beneficiários de programas sociais, tomando café, se preparando para reuniões. 'Precisa mostrar o Lula humano, parar de chegar de helicóptero e sentar na calçada junto com a pessoa', resumiu. Menos espetáculo, mais conversa.
Com a tropa digital crescendo a cada hora, Janones estudava formar um conselho com parlamentares que dominassem redes sociais para pensar a gestão do canal. Nomes como Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e João Campos estavam na lista. O que ele tentava fazer, em essência, era reverter em três semanas o que a campanha oficial não havia conseguido em meses.
Quarenta e oito horas. Esse era o intervalo entre o resultado do primeiro turno — Lula atrás de Flávio Bolsonaro — e o momento em que André Janones decidiu agir por conta própria. O deputado federal pela Rede de Minas Gerais, reeleito no domingo 4 de outubro, olhou para o cenário e viu três semanas de campanha pela frente. Viu também uma máquina de comunicação que, em sua avaliação, não funcionava no ritmo que a disputa exigia. Então tomou a iniciativa.
Janones já tinha um canal no WhatsApp chamado "Exército do Lula", criado em abril, que reunia cerca de 50 mil pessoas até o primeiro turno. O espaço funcionava principalmente como fórum de troca de ideias. Ele decidiu transformá-lo em quartel-general. A cada hora, gravava áudios orientando novos membros a convidarem mais três pessoas. O crescimento foi exponencial. Até a terça-feira 6 de outubro, o canal havia ultrapassado 1 milhão de membros. "Tomou uma proporção maior do que eu imaginava", admitiu Janones, que pretendia dedicar o resto da semana a ampliar ainda mais o grupo, com meta de alcançar entre 2 e 3 milhões de seguidores.
O objetivo não era apenas acumular números. Janones buscava organizar a militância de forma coordenada, de modo que postagens sobre Lula e a campanha circulassem de maneira coesa em diferentes plataformas digitais — replicando a estratégia que produtores de conteúdo de direita já dominavam. Convocou influenciadores, formadores de opinião, políticos e perfis com mais de 500 mil seguidores para divulgarem o grupo. Orientou que fizessem colaborações no Instagram com ele, ampliando o alcance das postagens. "Comunicação unificada é algo que não tivemos nesses quatro anos de governo. É para o país inteiro falar só sobre esse assunto", explicou.
Janones não era um nome qualquer nesse campo. Tinha 3 milhões de seguidores no Instagram, 1 milhão no X e 1,5 milhão no TikTok. Era visto como estrategista de redes na esquerda e havia coordenado a estratégia digital da campanha de Lula em 2022. Em agosto, havia escrito no X que Flávio ultrapassaria Lula nas pesquisas. Um mês depois, alertou que o bolsonarismo desidrataria outras candidaturas e atrairia votos úteis. Colegas de militância o xingaram pelas previsões, mas ele mantinha que acompanhava as redes e via a dianteira de Flávio como certa.
Sua crítica ao presidente era direta: "A maneira como o presidente se comunica nas redes sociais é ultrapassada, analógica. Não é só distribuir conteúdo, é falar a linguagem das redes." Defendia que uma falha nessa comunicação poderia custar a Lula a reeleição. Por isso, propunha gravações simples, feitas com "um celular velho", mostrando trechos do cotidiano do presidente — visitando casas de beneficiários de programas sociais, tomando um café ao fim da tarde, se arrumando para reuniões. Cenas com as quais o eleitor pudesse se identificar.
"Precisa de uma mudança drástica, mostrar o Lula humano, parar de chegar de helicóptero na Vila Euclides e passar a ser o Lula nordestino, sentar na calçada junto com a pessoa e dialogar com ela. Mas não precisa de produção cinematográfica", afirmou Janones. A imagem era clara: menos espetáculo, mais proximidade. Menos distância, mais conversa.
Com mais de 1 milhão de seguidores à sua disposição no canal, Janones apresentava suas mensagens com tom de urgência. Estudava formar um conselho com colegas que dominassem redes sociais para pensar em como gerir o crescimento. Citou nomes como Ana Elisa Santos Silva, eleita deputada federal pelo PT de Minas; Pedro Campos, do PSB de Pernambuco; João Campos, ex-prefeito do Recife; Gleisi Hoffmann, derrotada ao Senado no Paraná; Lindbergh Farias, do PT do Rio; Renato Freitas, eleito pelo PT do Paraná; Guilherme Cortez, do PSOL de São Paulo; e Luna Zarattini, eleita pelo PT de São Paulo. Ainda não os havia procurado, mas os nomes estavam na lista.
O que Janones fazia era tentar reverter em três semanas o que a campanha oficial não havia conseguido em meses. Não esperaria mais. Não ficaria quieto. A eleição estava em aberto, e ele tinha uma tropa digital que crescia a cada hora.
Citas Notables
Não vou mais ficar esperando a campanha, temos três semanas para virar a eleição— André Janones
A maneira como o presidente se comunica nas redes sociais é ultrapassada, analógica— André Janones