Educador defende priorizar leitura e matemática básica em vez de conteúdos complexos

Aproximadamente 70% das crianças nos anos finais do ensino médio apresentam desempenho abaixo do conhecimento básico, afetando sua preparação para o mercado de trabalho.
Profundidade em poucos tópicos, não cobertura superficial de tudo
Ribeiro defende que a BNCC cobre muita coisa sem dar profundidade, especialmente em português e matemática.

Apenas 34% dos alunos de 3º ano do ensino médio público têm aprendizagem adequada em Português; em Matemática, apenas 5% atingem o nível esperado. Ribeiro propõe três ações: priorizar currículo da BNCC, expandir escolas de período integral e implementar programas de recomposição de aprendizagem.

  • Apenas 5% dos alunos de 3º ano do ensino médio público têm desempenho adequado em Matemática
  • 34% atingem nível adequado em Português
  • Aproximadamente 70% das crianças nos anos finais do ensino médio estão abaixo do conhecimento básico
  • Programa Pé-de-Meia custa cerca de R$ 18 bilhões anuais
  • Programa Professor Tutor funciona em mais de 3 mil escolas em São Paulo

Jair Ribeiro, presidente do Parceiros da Educação, defende que o MEC deve priorizar currículo focado em leitura, escrita e matemática básica, citando que apenas 5% dos alunos do 3º ano do ensino médio têm desempenho adequado em Matemática.

Jair Ribeiro, fundador e presidente do Parceiros da Educação, está propondo uma mudança radical na forma como o Brasil organiza seu ensino. Não se trata de uma reforma que busca adicionar mais conteúdo às salas de aula, mas de fazer menos — e fazê-lo muito melhor. Em participação no Brasil Adiante, série de debates promovida pelo Estadão que busca consolidar propostas para o próximo presidente, Ribeiro foi direto: estudantes não precisam dominar trigonometria ou equações polinomiais. O que precisam é saber ler, escrever e compreender matemática fundamental com profundidade.

Os números que sustentam essa posição são alarmantes. Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica de 2023 mostram que apenas 34% dos alunos do terceiro ano do ensino médio da rede pública atingem nível adequado de aprendizagem em português. Em matemática, a situação é ainda mais grave: apenas 5% dos mesmos estudantes demonstram desempenho apropriado. Ribeiro descreve essa realidade como uma "escuridão cognitiva" — aproximadamente 70% das crianças nos anos finais do ensino médio apresentam desempenho abaixo do conhecimento básico, o que as deixa despreparadas para o mercado de trabalho e para interagir com tecnologias emergentes como inteligência artificial.

O diagnóstico de Ribeiro aponta para a Base Nacional Comum Curricular como parte do problema. A BNCC, segundo ele, "cobre muita coisa e não dá profundidade". Sua proposta é que o Ministério da Educação faça uma priorização curricular corajosa, concentrando-se em habilidades essenciais em língua portuguesa e matemática. Isso não é uma ideia isolada — o mundo inteiro, afirma, está se movendo nessa direção, priorizando currículos enxutos e focados.

Além da reforma curricular, Ribeiro apresenta duas outras ações concretas. A primeira é expandir significativamente as escolas de período integral. Ele cita o modelo de Pernambuco como evidência: um ano em escola integral equivale a três anos em escola regular. O governo federal, porém, reduziu financiamento para essas instituições no ano anterior, desviando recursos para outros programas. A segunda ação é implementar programas robustos de recomposição de aprendizagem — iniciativas que trabalham com material didático adaptado ao nível real de compreensão de cada aluno, personalizando o ensino. São Paulo já executa um programa chamado Professor Tutor em mais de três mil escolas, e outros estados como Santa Catarina, Espírito Santo e Goiás também têm experiências em andamento.

Quando questionado sobre custos, Ribeiro rejeita a ideia de que seria necessário aumentar o orçamento da educação. Sua estratégia é de redirecionamento. O programa Pé-de-Meia, que oferece auxílio financeiro a estudantes de baixa renda, custa aproximadamente 18 bilhões de reais anualmente. Ribeiro questiona a evidência de sua efetividade, contrastando-a com a comprovada eficácia dos programas de recomposição e escolas integrais. Dividir turmas por nível de proficiência, por exemplo, teria o mesmo custo de manter turmas mistas. Não seria necessário passar pelo Congresso — apenas uma questão de priorização dentro dos recursos já disponíveis.

Para medir o sucesso dessas iniciativas, Ribeiro aponta para os próprios sistemas de avaliação do Brasil. O país possui um dos melhores aparatos de avaliação educacional do mundo — o Saeb, avaliações estaduais e independentes que poderiam ser mobilizadas para acompanhar a eficácia dos programas. A implementação, porém, precisaria ser descentralizada. Diferentes estados estão em diferentes estágios de desenvolvimento, e a demografia mudou: em São Paulo, por exemplo, escolas no centro estão subutilizadas enquanto há demanda crescente na periferia, onde a população se deslocou. Construir novas escolas leva tempo, então o planejamento não pode ser uniforme.

Ribeiro defende que nos primeiros 24 meses de um novo governo, o MEC deveria negociar metas específicas com cada estado e restaurar os recursos que foram retirados dos programas de período integral. Sua crítica é clara: o Brasil tem dinheiro, tem expertise em avaliação, tem exemplos que funcionam. O que falta é coragem para priorizar o essencial em detrimento do complementar.

O aluno não precisa saber seno e cosseno, não precisa saber equações polinomiais, mas precisa saber ler e escrever muito bem e precisa saber as bases de matemática
— Jair Ribeiro, presidente do Parceiros da Educação
Um ano da escola de período integral equivale a três anos de uma escola regular
— Jair Ribeiro, sobre o modelo de Pernambuco
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que você acha que a profundidade em poucos tópicos é melhor que cobrir mais conteúdo?

Model

Porque 70% dos alunos chegam ao final do ensino médio sem dominar o básico. Se continuarmos tentando cobrir tudo, continuaremos deixando a maioria para trás. Profundidade significa que o aluno realmente entende, não apenas memoriza.

Inventor

Mas não há risco de os alunos ficarem defasados em relação a outros países?

Model

Não. O mundo inteiro está fazendo isso — priorizando habilidades essenciais. Um aluno que lê, escreve e raciocina bem em matemática consegue aprender qualquer coisa depois. É a base que falta.

Inventor

Como você convence um governo a tirar dinheiro de um programa popular como o Pé-de-Meia?

Model

Mostrando evidência. O Pé-de-Meia é legal, pode reduzir evasão, mas qual é a prova de que funciona? Enquanto isso, temos evidência sólida de que escolas integrais e recomposição funcionam. É uma questão de priorizar o que sabemos que dá resultado.

Inventor

E os professores? Eles têm capacidade de fazer essa recomposição personalizada?

Model

Existem programas como o Professor Tutor em São Paulo que já mostram como fazer isso. Não é sobre ter mais professores — é sobre usar melhor os que temos, dividindo turmas por nível de proficiência, usando material didático adequado.

Inventor

Qual é o maior obstáculo para isso acontecer?

Model

Às vezes é mais fácil criar um programa novo do que reformar o que existe. Mas o MEC tem poder de indutor — pode direcionar recursos e materiais para os estados executarem bem. Não precisa de lei nova, só de decisão política.

Contact Us FAQ