Dois feminicídios chocantes — Lorena Isceri jogada de viaduto e Tania Terrin estrangulada — marcam pico repentino de violência contra mulheres no país. Especialistas apontam que a nova legislação de feminicídio, aprovada há nove meses, enfrenta lacunas na implementação e falta de preparo de operadores do sistema judiciário.
Itália registra pico de feminicídios em setembro enquanto nova lei enfrenta críticas
A negação da posse se torna tão insuportável que mata
Por que esses dois casos em particular geraram tanta atenção? Não há feminicídios na Itália o tempo todo?
Há, sim. Mas esses dois casos têm características que os tornaram impossíveis de ignorar — a brutalidade, a sequência de eventos, e o fato de que ambas as mulheres já tinham saído do relacionamento. Eles não aceitaram o fim.
Espera. O observatório registra 16 casos em agosto e setembro, mas o governo diz que foram oito no primeiro semestre. Como sabemos qual número é correto?
Essa é exatamente a lacuna. A lei é nova, os critérios não estão consolidados, e diferentes órgãos contam de formas diferentes. O observatório tem uma metodologia mais rigorosa.
E a nova lei — ela não deveria ter reduzido esses números?
Teoricamente, sim. Mas a lei só tipifica o crime. Não muda as relações de poder que causam a violência. E ainda há problemas de implementação — juízes não foram treinados adequadamente.
Então a lei é mais simbólica que prática?
Não é simbólica. Ela importa para condenações e penas. Mas sozinha, sem educação cultural desde a infância, ela não previne os crimes.
O governo está fazendo algo para prevenir?
Está fazendo o oposto. Aprovou uma lei que exige autorização dos pais para aulas de educação sexual e afetiva nas escolas.
Baseado em quê? Qual é a justificativa oficial?
Proteção contra "propaganda de gênero", segundo o ministro. Mas as especialistas dizem que a sociedade pede essas aulas, que os pais querem que os filhos aprendam.
Então há uma desconexão entre o que o governo faz e o que as pessoas precisam?
Completa. E enquanto isso, mulheres continuam morrendo.
El Pulso
- 16 feminicídios em agosto e setembro de 2026
- Lorena Isceri, 45 anos, jogada de viaduto de 30 metros em Florença
- Tania Terrin, 39 anos, estrangulada em Veneza
- Discrepância de dados: governo contabiliza 8 casos no semestre, observatório registra 34
- Lei de feminicídio aprovada há 9 meses, sem treinamento adequado de juízes
Dois feminicídios chocantes — Lorena Isceri jogada de viaduto e Tania Terrin estrangulada — marcam pico repentino de violência contra mulheres no país. Especialistas apontam que a nova legislação de feminicídio, aprovada há nove meses, enfrenta lacunas na implementação e falta de preparo de operadores do sistema judiciário.
A Itália registrou 16 feminicídios em agosto e setembro, incluindo dois casos de alta repercussão, enquanto debate a eficácia da nova lei que tipificou o crime no código penal.
No início de setembro, a Itália enfrentou dois casos de violência extrema que chocaram o país e reavivaram o debate sobre feminicídio. Em 3 de setembro, Lorena Isceri, uma mulher de 45 anos, foi agredida e amarrada pelo ex-companheiro, que a trancou no porta-malas de seu carro. Ele dirigiu por quase uma hora, saiu da estrada, removeu Lorena do veículo e a arremessou viva de um viaduto com aproximadamente 30 metros de altura nas proximidades de Florença. Ela morreu no impacto. O homem tirou sua própria vida em seguida. Menos de três semanas antes, Tania Terrin, 39 anos, havia sido estrangulada até a morte pelo ex-companheiro dentro de sua própria casa, na província de Veneza — ela já havia denunciado o homem à polícia por violência anterior. Ele também se suicidou após o crime.
Esses dois casos não são isolados. Segundo o observatório do grupo Non Uma di Meno, a Itália registrou 16 feminicídios apenas em agosto e setembro, um salto dramático comparado aos seis casos documentados em julho e agosto do ano anterior. No total de 2026, o país contabiliza 56 vítimas, número ligeiramente inferior aos 84 registrados em 2025. Federica Rosin, responsável pelo observatório que monitora feminicídios em todo o território italiano, descreve o mês de setembro como um "pico feroz" de ocorrências, embora o acumulado anual se mantenha em linha com períodos anteriores. Desde que o monitoramento começou em 2020, há uma tendência geral de queda nos casos.
Rosin aponta que o verão é tradicionalmente um período de mudanças nos hábitos sociais que pode intensificar a violência de gênero, mas isso não explica completamente o aumento repentino. Para ela, a raiz está nas relações de poder. Observando os casos de Lorena e Tania, Rosin identifica um padrão central: a posse. "É um elemento central. A negação disso, ou seja, o fato de a mulher se subtrair à posse se torna, para o autor da violência, tão insuportável a ponto de matar e se matar", afirma. Cristina Carelli, presidente da Donne in Rete Contro La Violenza, uma associação que reúne 120 centros pelo país e atende 25 mil mulheres anualmente, concorda com essa análise. "Essas duas mulheres já tinham deixado esses homens e começado outra vida. Eles não aceitaram a escolha livre", diz. Para Carelli, embora haja um aumento significativo de casos, não se trata de uma emergência nova. "É um fenômeno urgente há muito tempo, estrutural na nossa sociedade, não causado por um fator externo qualquer."
Os dois homicídios ocorreram aproximadamente nove meses após o feminicídio ser tipificado como crime específico no código penal italiano. A lei foi aprovada por unanimidade no Parlamento e prevê pena de prisão perpétua para o autor, mas desde sua tramitação inicial enfrentou cautela de especialistas. Uma das principais preocupações é a falta de preparo dos operadores do sistema judiciário para reconhecer os elementos que definem o feminicídio. O texto legal descreve o crime como "morte de uma mulher" cometida como "ato de ódio; discriminação ou abuso; ato de controle, posse ou domínio por ela ser mulher; em razão de recusa de estabelecer ou manter um relacionamento afetivo; ou como ato de limitação de sua liberdade". Muitos desses termos — particularmente posse e controle — não possuem entendimento consolidado no direito italiano, criando espaço para interpretações divergentes que podem resultar em vitimização secundária da vítima ou falha em identificar a morte como feminicídio.
"Reconhecer atos de controle, posse e domínio prevê uma capacidade de leitura da violência, e sabemos que essa é uma lacuna importante na Itália", observa Carelli. Ela aponta que a lei prevê cursos de formação para magistrados, mas não há evidências de que estejam sendo implementados. Essa lacuna afeta também os dados oficiais: o governo contabilizou oito feminicídios no primeiro semestre de 2026, a primeira contagem desde a tipificação do crime, enquanto o observatório da Non Una di Meno registra 34 casos no mesmo período — uma discrepância de mais de 400%.
Para Rosin, a nova lei não contribuiu para reduzir a violência de gênero ou os feminicídios. "Não existe uma varinha mágica. É preciso desarmar, romper com as relações de gênero como foram construídas. É preciso muita educação, desde a primeira infância, sobre a ideia de que uma pessoa pode estar no mundo sem ser mais forte sobre outra." As especialistas defendem a educação sexual e afetiva como medida de prevenção capaz de promover mudanças culturais profundas. Em junho, porém, o governo aprovou uma lei que exige autorização dos pais para que adolescentes participem de aulas desse tipo. O ministro Giuseppe Valditara, do partido de ultradireita Liga, justificou a medida como proteção contra a "confusão da propaganda de gênero". Carelli, que trabalha há mais de 25 anos com violência contra mulheres, afirma que essa posição governamental contrasta com o que observa na sociedade. "Somos uma rede capilar e vemos que a opinião pública sente necessidade disso. Os adultos estão preocupados por filhos e alunos. As instituições deveriam acolher isso e ajudar a fazer uma passagem cultural à nossa sociedade."
Citas Notables
Essas duas mulheres já tinham deixado esses homens e começado outra vida. Eles não aceitaram a escolha livre.— Cristina Carelli, presidente da Donne in Rete Contro La Violenza
É um fenômeno urgente há muito tempo, estrutural na nossa sociedade, não causado por um fator externo qualquer.— Cristina Carelli