Israel torna-se laboratório político da IA com deepfakes e robôs em campanha eleitoral

A máquina de propaganda política está mudando por completo
Pesquisadora israelense reflete sobre como a IA está transformando fundamentalmente as campanhas eleitorais.
Mark

O que torna essa eleição em Israel diferente de outras campanhas que usaram tecnologia?

Mimi

A escala e a falta de regulação. Mais de 14% de todo o conteúdo nas redes sociais é gerado ou manipulado por IA. Mas o que realmente muda é que não há lei de IA, não há lei de serviços digitais como na Europa. Isso permite usos que seriam impossíveis em outros lugares.

Luke

Mas quanto disso realmente influencia votos? Sabemos que as pessoas veem esses conteúdos?

Mimi

Boa pergunta. O que sabemos é que está lá — 1.800 posts do Likud, deepfakes de autoridades sendo presas, ligações automatizadas que enganam as pessoas. Uma pesquisa diz que um quarto dos israelenses consideraria usar IA para decidir em quem votar.

Luke

Um quarto consideraria. Isso não é um quarto que realmente usa. E as ligações automatizadas — quantas pessoas recebem? Quantas acreditam?

Mark

Então o risco real é o que poderia acontecer, não o que já aconteceu?

Mimi

Sim. A pesquisadora Anat Ben-David disse que há um cenário em que, em um momento estratégico pouco antes da eleição, a IA poderia ser usada de maneiras que alimentassem controvérsias capazes de influenciar o resultado. Ainda não sabemos se isso vai acontecer.

Luke

E a autoridade eleitoral? Ela está fazendo algo?

Mimi

Criou uma norma em julho exigindo que conteúdo gerado por IA seja identificado. Ordenou que Smotrich removesse um vídeo que não havia sido rotulado. Mas fora isso, há poucas restrições.

Mark

Por que Israel se tornou esse laboratório?

Mimi

Porque os israelenses são adotantes entusiasmados de novas tecnologias. E porque não há regulação forte. Pesquisadores veem o país como um lugar para entender como a IA vai transformar eleições em todo o mundo.

Luke

Então o que vemos em Israel agora, veremos em outros países depois?

Mimi

Provavelmente. A menos que outros países criem regulação mais forte antes que chegue lá.

  • Likud publicou mais de 1.800 posts com conteúdo gerado por IA até outubro, representando um quarto do material da legenda
  • Mais de 14% de 44 mil publicações monitoradas em redes sociais utilizavam IA de alguma forma
  • Eleição em Israel ocorre em 27 de outubro de 2026
  • Cerca de 70% das contas que compartilham publicações de Netanyahu no X estão fora de Israel e apresentam características de bots

Likud publicou mais de 1.800 posts com conteúdo gerado por IA até outubro, representando um quarto do material da legenda analisado por pesquisadores. Políticos israelenses criaram deepfakes hiper-realistas de autoridades sendo detidas e palestinos em campos de concentração, gerando condenação internacional.

Israel usa IA em larga escala na eleição de 27 de outubro, com deepfakes, ligações automatizadas e bots em redes sociais. Pesquisadores alertam para riscos à integridade eleitoral sem regulação adequada.

Em um vídeo de 19 segundos publicado na rede X, o candidato a primeiro-ministro Gadi Eisenkot aparece com os braços abertos e um sorriso largo, correndo em câmera lenta através de um campo em direção a alguém que se parece com seu filho. É um clipe comum de campanha — exceto que não foi filmado. Foi gerado por inteligência artificial.

Esse vídeo é apenas um entre mais de 1.800 posts com conteúdo criado por IA que o Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, publicou até meados de outubro. Segundo o Ze Be AI, um projeto de pesquisa da Universidade Aberta de Israel que monitora o uso de IA na campanha legislativa de 2026, esses posts representam aproximadamente um quarto de todo o material publicado pela legenda. A descoberta oferece um retrato em tempo real de como a tecnologia está sendo integrada em praticamente todos os aspectos de uma eleição moderna — desde vídeos controversos projetados para gerar polêmica até ligações automatizadas para eleitores e redes de robôs operando nas redes sociais. Em 27 de outubro, os israelenses irão às urnas em uma votação que pode remover Netanyahu do poder ou consolidar seu domínio sobre o país pelos próximos anos.

Anat Ben-David, pesquisadora de mídia que lidera o projeto Ze Be AI, alertou para um cenário preocupante: em um momento estratégico pouco antes da eleição, a IA poderia ser usada de maneiras que alimentassem controvérsias capazes de influenciar o resultado. Desde o fim de julho, Ben-David e sua equipe monitoram todo o conteúdo publicado nas redes sociais por políticos, coletando mais de 44 mil publicações no Facebook, Instagram, X e TikTok. Seus dados revelam que mais de 14% do material utiliza IA de alguma forma. A abordagem mais comum é híbrida, com a tecnologia sendo empregada apenas em partes dos anúncios — imagens, músicas, legendas, logotipos ou deepfakes completos. Embora alguns partidos menores apresentem a maior proporção de conteúdo gerado por IA em relação ao seu volume total, o Likud lidera em números absolutos, seguido pelos Democratas de esquerda e pelo partido Yashar de Eisenkot, ambos em volumes muito menores.

Em julho, o Comitê Central de Eleições de Israel criou uma norma exigindo que todo conteúdo eleitoral gerado ou manipulado por IA seja identificado. Fora isso, há poucas restrições. Ben-David observa que não existe uma Lei de IA, nem uma Lei de Serviços Digitais como a que existe na Europa, e a legislação sobre privacidade está muito desatualizada. Essa lacuna regulatória permitiu usos da tecnologia que seriam impossíveis de ocorrer no continente europeu. Yair Golan, líder dos Democratas, criou um vídeo identificado como conteúdo gerado por IA no qual aparece sentado sob um ventilador de teto, suas roupas mudando a cada volta das pás — de uniforme militar para uma camiseta com o slogan "Tragam-nos para casa agora", referência aos reféns israelenses em Gaza, e depois para terno e gravata. O ministro das Finanças e ultradireitista Bezalel Smotrich publicou um vídeo hiper-realista em setembro mostrando a procuradora-geral de Israel e juízes da Suprema Corte sendo detidos durante um protesto contra o governo. O ministro da Segurança Nacional, também ultradireitista Itamar Ben-Gvir, compartilhou um vídeo gerado por IA mostrando palestinos sendo transportados por uma esteira rolante para algo semelhante a um campo de concentração — uma publicação amplamente condenada que o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha classificou como "completamente inaceitável" e "abominável".

A IA não está sendo usada apenas em deepfakes e anúncios. Ela também está servindo para entrar em contato direto com os eleitores de formas que a tecnologia anterior não permitia. Nitsan Yasur, pesquisador especializado em desinformação da Associação de Internet de Israel, recebeu uma ligação automatizada baseada em IA muito mais conversacional do que as antigas ligações robóticas. Uma voz se apresentou como uma pesquisadora chamada Danielle, ligada a um instituto israelense de pesquisas eleitorais, e perguntou sobre preferências de voto. Quando Yasur questionou se a voz era humana, ela admitiu que "não há nenhum agente humano na linha" e continuou perguntando se ele gostaria de prosseguir com a breve pesquisa. O sistema respondeu a várias perguntas de Yasur, mas sempre retornava ao tema de sua intenção de voto. Quando ele perguntou cinco vezes quem havia encomendado a pesquisa, a informação não foi revelada. Tehilla Shwartz Altshuler, pesquisadora sênior do Instituto para a Democracia de Israel, observou que "você não precisa mais de pessoas reais fazendo ligações reais, que obviamente têm limitações de tempo e capacidade".

Alguns israelenses também estão recorrendo à IA para decidir em quem votar. Segundo uma pesquisa da Associação de Internet de Israel, cerca de um quarto dos israelenses afirmaram que considerariam utilizar ferramentas de IA ou outros serviços online para ajudá-los nessa tarefa. Isso gera preocupações com uma prática conhecida como Generative Engine Optimization, ou otimização para mecanismos generativos: a criação de conteúdo online projetado para ser absorvido por chatbots de IA e influenciar suas respostas. O próprio governo israelense já recorreu a esse setor. De acordo com registros apresentados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros dos Estados Unidos, ele pagou uma empresa americana para criar sites destinados a alimentar grandes modelos de linguagem com conteúdos favoráveis ao governo Netanyahu, com o objetivo de tornar os chatbots mais favoráveis a Israel. Shwartz Altshuler alertou que "as mesmas indústrias agora serão usadas internamente para influenciar as eleições".

Além do conteúdo falso, existe também o engajamento falso. A empresa israelense de monitoramento de mídia Scooper identificou uma rede de contas inautênticas promovendo Netanyahu nas redes sociais. No X, mais de mil novas contas passavam a segui-lo diariamente logo após serem criadas. Seu número de seguidores no Instagram também cresceu rapidamente nas últimas semanas. Segundo Gil Feldman, gerente de pesquisa da Scooper, cerca de 70% das contas que compartilham publicações de Netanyahu no X estão fora de Israel e apresentam características típicas de bots — postagens ininterruptas, datas recentes de criação e ausência de foto de perfil. A organização de monitoramento FakeReporter detectou uma campanha de bots ligada à campanha de Ben-Gvir, acusação negada por seu gabinete, com uma rede contendo mais de cem contas, algumas utilizando imagens e identidades geradas por IA para atacar Smotrich e outras figuras políticas. Embora redes de bots não sejam novidade, a inteligência artificial tornou sua operação mais barata e mais fácil. Como os israelenses estão entre os primeiros e mais entusiasmados adotantes de novas tecnologias, Shwartz Altshuler vê o país como um laboratório para entender como a IA está transformando eleições em todo o mundo. "A máquina de propaganda política está mudando por completo", afirmou ela.

Há um cenário em que, em um momento estratégico pouco antes da eleição, a IA poderia ser usada de maneiras que alimentassem controvérsias capazes de influenciar o resultado eleitoral
— Anat Ben-David, pesquisadora de mídia que lidera o projeto Ze Be AI
Você não precisa mais de pessoas reais fazendo ligações reais, que obviamente têm limitações de tempo e capacidade
— Tehilla Shwartz Altshuler, pesquisadora sênior do Instituto para a Democracia de Israel
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