Comunidade iraniana nos EUA se divide entre protesto político e apoio à seleção

Milhares de iranianos foram mortos em repressão violenta do governo durante protestos em janeiro, contexto que alimenta divisões na comunidade.
Esta seleção não representa o povo iraniano
Um manifestante explica por que recusa apoiar a seleção, vendo-a como endosso ao regime repressivo.

Nas cercanias de um estádio em Los Angeles, onde o futebol deveria unir, a comunidade iraniana nos Estados Unidos revelou as fraturas que décadas de exílio e repressão deixaram abertas. Antes da estreia do Irã na Copa do Mundo, centenas de manifestantes ergueram a bandeira pré-revolucionária do leão e do sol, recusando-se a entrar — enquanto outros torcedores pediam que o esporte fosse simplesmente esporte. O campo de jogo tornou-se espelho de uma diáspora que ainda negocia, sem consenso, o que significa amar um país sem endossar quem o governa.

  • A memória de milhares de mortos nos protestos de janeiro no Irã pesava sobre cada bandeira erguida do lado de fora do estádio, tornando impossível separar a bola da bala.
  • A comunidade iraniana de Los Angeles — a maior fora do Irã — partiu-se visivelmente em dois: os que recusavam entrar e os que vestiam a camisa oficial com orgulho genuíno.
  • O regime iraniano ameaçou interromper as partidas caso bandeiras não oficiais aparecessem, mas repórteres viram essas mesmas bandeiras passarem pela segurança sem qualquer impedimento.
  • A FIFA, pressionada a se posicionar, citou regras genéricas contra símbolos políticos sem jamais mencionar especificamente a bandeira pré-revolucionária iraniana — deixando a tensão sem árbitro.
  • Dentro das arquibancadas, torcedores ergueram discretamente o leão e o sol de seus assentos — um desafio silencioso que a Copa do Mundo não sabia como conter.

Na noite de 15 de junho, centenas de iranianos se reuniram do lado de fora do estádio de Los Angeles antes da estreia da seleção iraniana na Copa do Mundo. O que poderia ter sido celebração virou confronto simbólico: parte da multidão carregava cartazes e a bandeira pré-revolucionária do leão e do sol, recusando-se a entrar. Para eles, assistir à partida equivalia a legitimar um regime que consideram opressivo. Farhad Jafargad, com a camiseta estampada do leão e do sol, foi claro: a seleção não representa o povo iraniano. Ele e outros torceriam pela Nova Zelândia.

Do outro lado da multidão, Mehdi Jafari, 57 anos, vestia a camisa oficial e pedia que a política ficasse de fora. Para ele, a Team Melli era orgulho nacional — uma chance rara de ver o Irã no maior palco do futebol. Los Angeles, lar da maior comunidade iraniana fora do Irã, tornou-se o epicentro de uma tensão que misturava a euforia esportiva, a raiva pela repressão de Teerã e o trauma dos bombardeios americanos ao Irã em fevereiro.

A questão das bandeiras rapidamente se tornou o ponto de ruptura. O Irã havia ameaçado interromper partidas caso símbolos não oficiais aparecessem. A FIFA citou regras contra itens políticos, mas não se pronunciou sobre a bandeira pré-revolucionária especificamente. Na prática, repórteres viram essas bandeiras passarem pela segurança sem problemas, e dentro do estádio torcedores as ergueram discretamente — um desafio silencioso ao regime.

O pano de fundo era sombrio: em janeiro, protestos no Irã foram reprimidos com violência, e milhares morreram. Quem estava do lado de fora carregava essa memória. Para eles, apoiar a seleção era conivência. Para outros, era simplesmente futebol — um respiro necessário. A partida começou, mas a divisão que ela expôs não tinha apito final.

Centenas de iranianos se aglomeraram do lado de fora do estádio de Los Angeles na noite de segunda-feira, 15 de junho, antes da partida de estreia da seleção iraniana na Copa do Mundo. O que deveria ser um momento de celebração esportiva transformou-se em um campo de batalha ideológico, onde a comunidade iraniana nos Estados Unidos expôs suas fraturas mais profundas — divisões que refletem décadas de exílio, repressão política e lealdades conflitantes.

Alguns dos presentes carregavam cartazes e hasteavam a bandeira pré-revolucionária do Irã, aquela com o leão e o sol, recusando-se a entrar no estádio. Para eles, assistir à partida significava validar um regime que eles acreditam ser opressivo e ilegítimo. Farhad Jafargad, um dos manifestantes que usava uma camiseta branca estampada com o leão e o sol, foi direto: a seleção não representa o povo iraniano. Ele e outros planejavam torcer pela Nova Zelândia, o adversário da noite.

Mas havia outro lado da multidão. Torcedores como Mehdi Jafari, de 57 anos, vestindo a camisa oficial da seleção, pediam que a política fosse deixada de lado. Para eles, a Team Melli — como carinhosamente chamam a seleção — era uma questão de orgulho nacional, uma oportunidade rara de ver o Irã no maior palco do futebol mundial. Jafari argumentava que todos deveriam simplesmente entrar e torcer, esquecendo as complexidades políticas que dividiam a comunidade.

Los Angeles, que abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã — muitos deles refugiados que fugiram após a Revolução Islâmica de 1979 — tornou-se o epicentro dessa tensão. Os torcedores iranianos-americanos estavam genuinamente divididos: entre a empolgação de ver sua seleção em um torneio mundial, a raiva pela repressão de Teerã contra manifestantes, e a preocupação com a campanha de bombardeios que os Estados Unidos havia lançado contra o Irã em fevereiro, após ataques israelenses.

A questão das bandeiras e símbolos políticos rapidamente se tornou o ponto de inflamação. Manifestantes exibiam a bandeira pré-revolucionária, que mantém as mesmas cores da bandeira oficial mas com um leão e um sol distintos — uma escolha carregada de significado político. O Irã havia ameaçado interromper as partidas caso bandeiras não oficiais fossem levadas ou slogans fossem entoados. A FIFA, questionada sobre o assunto, citou suas regras que proíbem bandeiras ou vestimentas de cunho político, mas não se pronunciou especificamente sobre a bandeira iraniana pré-revolucionária.

O que aconteceu na prática foi revelador. Repórteres da Reuters viram diversas pessoas carregando a bandeira do leão e do sol passarem pela segurança sem problemas. Muitas começaram a erguer a bandeira de seus assentos durante a partida. Três pessoas nas arquibancadas, vestindo camisetas com o símbolo, disseram ter decidido usá-las apesar dos avisos — um ato de desafio silencioso contra as ameaças do regime.

O contexto que alimentava essa divisão era sombrio. Em janeiro, protestos explodiram em todo o Irã, e milhares de pessoas foram mortas em uma repressão violenta do governo. Aqueles que estavam do lado de fora do estádio com as bandeiras pré-revolucionárias carregavam consigo a memória dessa violência. Para eles, apoiar a seleção era conivência. Para outros, era simplesmente futebol — um respiro necessário de uma realidade política insuportável.

A partida contra a Nova Zelândia começou às 22h, horário de Brasília. Mas antes dela, a comunidade iraniana nos EUA havia deixado claro que nenhuma partida de futebol poderia resolver as contradições que a dividiam. A FIFA ainda teria de decidir como lidar com os símbolos políticos que continuariam a aparecer nas arquibancadas — uma questão que não tinha resposta fácil.

Esta seleção não representa o povo iraniano
— Farhad Jafargad, manifestante
Temos muito orgulho do nosso país. Acho que todos devemos deixar a política de lado e simplesmente entrar e torcer pela Team Melli
— Mehdi Jafari, torcedor de 57 anos
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a bandeira pré-revolucionária se tornou tão importante naquele estádio? Não é apenas uma bandeira.

Model

Não é. É um símbolo de um Irã que não existe mais, de um país antes da Revolução Islâmica. Para quem fugiu, ela representa uma identidade que o regime atual nega. Usá-la é dizer: este governo não fala por mim.

Inventor

E os que queriam apenas torcer? Como eles veem essa politização?

Model

Para eles, é uma invasão. Eles dizem que o futebol é um dos poucos espaços onde iranianos podem se sentir unidos, onde a nacionalidade importa mais que a política. Quando os protestos tomam conta, sentem que estão sendo privados disso.

Inventor

A FIFA sabia que isso aconteceria?

Model

Provavelmente. Mas as regras sobre símbolos políticos são vagas o suficiente para deixar espaço. E a bandeira pré-revolucionária é tecnicamente iraniana — só que de um Irã diferente. A FIFA não quis se envolver nessa discussão.

Inventor

O que muda agora que as pessoas conseguiram levar as bandeiras para dentro?

Model

Muda tudo. Mostra que a ameaça do regime não funcionou, que há espaço para dissidência mesmo em um estádio americano. Mas também aprofunda a divisão. Cada lado vê a vitória do outro como uma derrota pessoal.

Inventor

E para os torcedores que estão lá apenas para ver futebol?

Model

Eles estão presos no meio. Não podem simplesmente desfrutar de um jogo. Cada grito, cada bandeira, cada camiseta carrega peso político. É exaustivo.

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