Pausa nos cortes da Selic ganha força no Copom de junho

O ciclo de cortes já tem data de validade
Inflação desancorada e pressões globais selam o fim próximo da redução de juros iniciada em março.

Em meados de junho de 2026, o Banco Central brasileiro se aproximava de uma encruzilhada silenciosa: o ciclo de alívio monetário iniciado com esperança em março parecia chegar ao fim antes de completar sua trajetória. Pressionado por uma inflação que escapou das metas, por um choque energético global e por estímulos fiscais persistentes, o Copom sinalizava ao mercado que a pausa nos cortes da Selic não era uma possibilidade, mas uma quase certeza. É o momento em que a prudência se impõe sobre o otimismo — e o custo do dinheiro permanece alto como escudo contra forças que nenhuma reunião de banco central, sozinha, consegue domar.

  • A curva de juros futuros já precificava, com clareza crescente, que o ciclo de cortes iniciado em março chegaria ao fim em junho — antes mesmo de o Copom se reunir formalmente.
  • O choque do petróleo, disparado pelo fechamento do Estreito de Hormuz durante o conflito EUA-Irã, empurrou a inflação acima do teto da meta e contaminou combustíveis e alimentos, os itens de maior peso no IPCA.
  • Programas governamentais de estímulo à demanda — transferências, subsídios e crédito favorecido — seguiam pressionando os preços por dentro, enquanto o Banco Central tentava conter o avanço pelo lado dos juros.
  • A trégua entre Washington e Teerã derrubou o barril de US$ 130 para US$ 80, dando fôlego a uma minoria de analistas que ainda apostava em um último corte — mas as expectativas inflacionárias desancoradas já haviam selado o destino do ciclo.
  • Com a Selic projetada para encerrar 2026 entre 13,5% e 14%, o diferencial de juros Brasil-exterior continuava a moldar o câmbio e o fluxo de capital estrangeiro, tornando qualquer afrouxamento prematuro um risco de dupla face.

Na tarde de uma terça-feira de junho, os mercados brasileiros enviavam sinais mistos — dólar em alta, Ibovespa em queda — mas convergiam em um ponto: o Banco Central estava prestes a interromper o ciclo de cortes da Selic que havia começado com otimismo em março. Duas reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual haviam levado a taxa de 15% para 14,5% ao ano. A curva de juros futuros, porém, já não enxergava espaço para muito mais.

O cenário havia mudado de forma abrupta. A inflação para 2026 ultrapassava 5%, acima do teto da meta, impulsionada principalmente pelo petróleo. O fechamento do Estreito de Hormuz durante o conflito entre Estados Unidos e Irã havia disparado o barril para US$ 130, contaminando combustíveis e alimentos — os itens de maior peso no IPCA. Mesmo após a trégua e a reabertura do Estreito, o preço recuou apenas para US$ 80, ainda muito acima dos US$ 60 a US$ 70 anteriores à crise.

Somavam-se a isso os programas de estímulo do governo — transferências de renda, subsídios e crédito favorecido — que pressionavam a demanda e dificultavam o trabalho do Banco Central. No exterior, economias como o Japão haviam interrompido seus próprios ciclos de corte, reduzindo o diferencial de juros que atrai capital estrangeiro para o Brasil e complica o controle do câmbio.

A consultoria 4intelligence argumentava que a diferença entre a taxa real de juros, em torno de 9%, e a taxa neutra estimada, de cerca de 5%, ainda justificaria cortes em tese. Mas as expectativas inflacionárias desancoradas tornavam esse argumento insuficiente na prática. Analistas projetavam que a Selic encerraria 2026 entre 13,5% e 14%, com no máximo uma ou duas reduções adicionais. O Copom de junho não seria o fim do ciclo de cortes — seria o começo do seu fim.

Na terça-feira à tarde, os sinais dos mercados financeiros brasileiros apontavam em direções divergentes. O dólar subia enquanto o Ibovespa recuava. Mas havia um consenso claro emergindo nos números: os operadores esperavam que o Banco Central interrompesse o ciclo de cortes da taxa Selic na reunião do Copom daquela semana.

O ciclo havia começado em março com otimismo. Duas reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual — em março e abril — trouxeram a Selic de 15% para 14,5% ao ano. A curva de juros futuros, especialmente em seus segmentos mais curtos, agora sinalizava que essa trajetória de alívio chegava ao fim. A expectativa majoritária era de uma pausa já em junho, ou no máximo um último corte de 0,25 ponto em julho, seguido de congelamento em agosto.

O espaço para continuar reduzindo juros havia se estreitado drasticamente. Analistas e operadores avaliavam que até o final de 2026, a Selic poderia cair no máximo uma ou duas vezes mais, encerrando o ano entre 13,5% e 14%. A consultoria 4intelligence apontava um argumento técnico forte: a diferença entre a taxa real de juros (em torno de 9%) e a taxa neutra estimada (cerca de 5%) deveria justificar cortes. Mas havia um porém crucial.

A inflação havia saído do controle esperado. As expectativas para 2026 ultrapassavam 5%, acima do teto da meta do Banco Central. O culpado principal era o petróleo. Quando o Estreito de Hormuz foi fechado pela guerra entre Estados Unidos e Irã, os preços do barril dispararam para US$ 130. Isso reverberou por toda a cadeia de preços domésticos — combustíveis e alimentos, os itens com maior peso no IPCA, ficaram mais caros. Mesmo com a trégua anunciada e a reabertura do Estreito, os preços recuaram apenas para US$ 80 por barril, ainda bem acima dos US$ 60 a US$ 70 anteriores ao conflito.

Mas o choque de petróleo era apenas parte do problema. O governo mantinha programas de estímulo à demanda — transferências de renda, subsídios de preços, políticas de crédito favorecido — que pressionavam a inflação. A taxa de juros mais elevada era o instrumento para tentar neutralizar esse estímulo. Além disso, economias avançadas ao redor do mundo enfrentavam suas próprias pressões inflacionárias. O Japão havia interrompido seus cortes de juros. Isso importava porque o diferencial entre os juros brasileiros e os externos determinava o fluxo de capital estrangeiro — o chamado carry trade. Juros mais altos no Brasil atraíam dinheiro de fora, pressionando o dólar para baixo e afetando uma larga lista de preços domésticos.

Havia ainda quem apostasse em um corte em junho. Essas vozes eram cada vez mais minoritárias, mas ganharam algum reforço quando o petróleo caiu para US$ 80. Para esses analistas, a trégua entre Estados Unidos e Irã — ainda incerta, mas real — sugeria que era melhor esperar até agosto para decidir sobre uma pausa. Mas a realidade das expectativas inflacionárias desancoradas já havia selado o destino do ciclo de cortes. Não teria vida longa. Não seria acelerado. O Copom de junho marcaria o começo do fim.

A taxa neutra é estimada em torno de 5%, enquanto a taxa real vai a 9%
— Consultoria 4intelligence
O atual ciclo de cortes não terá vida longa nem acelerada
— Análise de mercado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o mercado mudou de ideia tão rápido? Em março havia otimismo com os cortes.

Model

O ciclo de cortes foi pensado quando a inflação parecia controlada. Mas a guerra no Oriente Médio mudou tudo — petróleo subiu para US$ 130, e isso alimenta inflação em combustíveis e alimentos, que são a base do que as pessoas pagam.

Inventor

Então é só culpa do petróleo?

Model

Não. O governo está gastando muito com estímulos — subsídios, transferências. Juros altos tentam frear isso. E tem mais: o mundo inteiro está com inflação alta. Japão parou de cortar juros. Se o Brasil corta e o exterior não, o dinheiro sai daqui.

Inventor

Qual é a taxa neutra que vocês mencionam?

Model

É o nível de juros que nem estimula nem desacelera a economia. Estimamos em 5%. Estamos em 14,5%, bem acima. Deveria haver espaço para cortes. Mas a inflação esperada ultrapassou 5%, acima da meta. Isso muda o jogo.

Inventor

A trégua entre EUA e Irã não muda nada?

Model

Muda um pouco. O petróleo caiu de US$ 130 para US$ 80. Mas ainda está acima do pré-guerra. E a trégua é incerta — ninguém sabe se dura. Mesmo que durasse, a inflação já desancorou das expectativas. O ciclo de cortes já tem data de validade.

Inventor

Então em junho o Copom vai parar?

Model

Provavelmente. Ou faz um último corte em julho e para em agosto. Mas o consenso é que chegou ao fim. Não vai haver aceleração, não vai haver vida longa.

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