Interesse dos EUA por minerais críticos testa nossas escolhas

Povos indígenas e quilombolas em territórios potencialmente afetados pela expansão de mineração não foram adequadamente considerados nos cenários de desenvolvimento analisados.
A escolha sobre como financiar é também uma questão de autonomia
O Brasil enfrenta decisão entre expandir mineração com capital estrangeiro ou manter controle doméstico da industrialização.
Mark

Por que o Brasil processa tão pouco do que extrai? Parece uma oportunidade óbvia.

Mimi

Historicamente, foi mais barato extrair e exportar. A infraestrutura de refinamento exige investimento pesado, tecnologia, energia. Empresas estrangeiras já têm as cadeias montadas lá fora. O Brasil fornecia a matéria-prima bruta.

Mark

E agora os EUA querem garantir o fornecimento. Isso muda o jogo?

Mimi

Muda, mas não necessariamente a favor do Brasil. Os EUA querem segurança de acesso. Podem oferecer capital para expandir a extração e o processamento aqui. Mas quem fica com o controle?

Mark

O estudo da Amcham mostra R$ 63 bilhões a mais com capital estrangeiro. Por que não aceitar?

Mimi

Porque capital estrangeiro vem com condições. Quem financia quer retorno, influência sobre decisões, acesso preferencial. E há povos indígenas e quilombolas vivendo nesses territórios. Ninguém perguntou a eles.

Mark

Então o Brasil deveria processar tudo sozinho?

Mimi

Deveria ter a opção. Talvez capital doméstico, talvez parcerias seletivas. Mas a decisão precisa ser brasileira, não ditada por pressão geopolítica.

Mark

E se o Brasil disser não aos EUA?

Mimi

Então o Brasil define sua própria estratégia. Mais lenta talvez, mas autônoma. Essa é a escolha real.

  • Os EUA declararam os minerais críticos como questão de segurança nacional e passaram a restringir compras de defesa a países aliados, pressionando o Brasil a definir seu papel nessa cadeia global.
  • O Brasil detém reservas minerais entre as maiores do mundo, mas processa menos de 5% do lítio extraído internamente — uma contradição que deixa bilhões em valor agregado escaparem para fora.
  • Um estudo da Amcham projeta que maior processamento doméstico combinado com capital estrangeiro geraria R$ 63,4 bilhões a mais e 446 mil empregos adicionais em relação ao cenário de capital exclusivamente nacional.
  • A análise, porém, não separa o efeito do adensamento produtivo do efeito da internacionalização do capital — deixando sem resposta a pergunta central sobre autonomia econômica.
  • Povos indígenas e quilombolas em territórios afetados pela expansão minerária seguem ausentes dos cenários projetados, enquanto a crise diplomática entre Brasil e EUA adiciona urgência e desconfiança ao debate.

Sob a pressão crescente de Washington, que elevou os minerais críticos à categoria de segurança nacional, o Brasil se vê diante de uma encruzilhada histórica: um país assentado sobre reservas extraordinárias de nióbio, grafita, lítio e terras raras, mas que ainda exporta a maior parte de sua riqueza mineral em estado bruto. A questão que emerge não é apenas econômica — é sobre soberania, sobre quem financiará a industrialização do subsolo brasileiro e a que preço, humano e ambiental, esse caminho será percorrido.

Para o governo Trump, cobre, grafita, lítio, níquel e terras raras deixaram de ser simples commodities — tornaram-se questões de segurança nacional. Desde janeiro, Washington negociou com parceiros para garantir o fornecimento desses materiais usados em baterias, veículos elétricos e sistemas militares. Em julho, foi além: restringiu compras para a indústria de defesa a países aliados. A mensagem ao Brasil foi inequívoca.

O país senta sobre uma riqueza extraordinária: as maiores reservas mundiais de nióbio, a segunda maior de grafita e terras raras, a terceira de níquel. Mas processa pouco do que extrai. Em 2023, apenas 5% do lítio extraído foi beneficiado internamente. No níquel, menos de 40% foi refinado no país. O restante parte como matéria-prima bruta, deixando para trás o valor que poderia ficar.

Em 30 de julho, a Amcham publicou um estudo com dois cenários para 2050. No primeiro, capital doméstico financia produção voltada à exportação: impacto de R$ 128,7 bilhões no PIB e 304 mil empregos. No segundo, maior integração industrial e participação estrangeira subindo de 4% para 15%: R$ 192,1 bilhões e 750 mil ocupações. A diferença é de R$ 63,4 bilhões e 446 mil postos de trabalho — números sedutores.

Mas há uma armadilha. O estudo combina duas escolhas distintas — adensar a cadeia produtiva e internacionalizar o financiamento — sem separar o efeito de cada uma. Não responde à pergunta mais relevante: o que aconteceria se o Brasil ampliasse o processamento doméstico sem aumentar o capital estrangeiro? O fato de o estudo ter sido produzido pela câmara comercial dos EUA não é detalhe menor.

A escolha sobre como financiar essa industrialização é também uma escolha sobre autonomia. E os custos humanos e ambientais — para povos indígenas e quilombolas em territórios potencialmente afetados — não entraram adequadamente nos cenários analisados. Num momento em que a relação Brasil-EUA acumula tarifas, atritos diplomáticos e a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, cabe ao Brasil definir com clareza os seus próprios objetivos. A resposta não é apenas econômica. É sobre quem controla o futuro industrial do país — e a que custo.

O cobre, a grafita, o lítio, o níquel e as terras raras não são apenas matérias-primas. Para o governo Trump, eles são questões de segurança nacional. Em janeiro, Washington determinou negociações com parceiros para garantir o fornecimento desses minerais críticos, usados em baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas militares. Em julho, a administração foi além: restringiu a aquisição de materiais para a indústria de defesa aos Estados Unidos e países aliados. A mensagem era clara. Agora o Brasil enfrenta uma escolha que vai muito além de economia.

O país senta sobre uma riqueza mineral extraordinária. Possui as maiores reservas mundiais de nióbio, a segunda maior de grafita e terras raras, e a terceira maior de níquel. Mas há um problema fundamental: processa pouco do que extrai. Apenas 5% do lítio extraído no Brasil em 2023 foi processado internamente. No níquel, a parcela refinada ficou abaixo de 40%. O resto segue para fora como matéria-prima bruta, agregando pouco valor ao país que o produz.

Em 30 de julho, a Amcham — a Câmara Americana de Comércio para o Brasil — publicou um estudo que coloca essa questão em perspectiva. O trabalho projeta dois caminhos até 2050. No primeiro cenário, capital doméstico financia uma produção voltada principalmente à exportação. O impacto acumulado sobre o PIB seria de 1,1%, ou R$ 128,7 bilhões, com 304 mil postos de trabalho criados. No segundo cenário, o estudo combina maior integração dos minerais às cadeias industriais brasileiras com maior participação do capital estrangeiro no setor, que subiria de cerca de 4% para 15%. Nesse caso, o resultado chegaria a 1,64% do PIB, R$ 192,1 bilhões, e 750 mil ocupações. A diferença entre os dois cenários é substancial: R$ 63,4 bilhões e 446 mil empregos.

Os números são sedutores. Mas há uma armadilha embutida na análise. O estudo oferece bons argumentos para ampliar a transformação dos minerais no Brasil, mas o cenário de maior crescimento combina duas escolhas distintas: adensar a cadeia produtiva no país e internacionalizar parte de seu financiamento. A comparação apresentada não permite separar quanto do resultado decorre de cada uma. A pergunta que fica em aberto — e que parece bastante relevante — é qual seria o resultado se o Brasil ampliasse o processamento doméstico sem aumentar a participação do capital estrangeiro. O estudo não trata especificamente de investimentos norte-americanos, mas foi realizado pela Amcham, a câmara comercial dos EUA.

A escolha sobre como financiar essa industrialização é também uma questão de autonomia. O interesse brasileiro em agregar valor aos minerais não precisa se confundir com qualquer possível interesse em ampliar a participação do capital estrangeiro. Sem falar que os efeitos sobre o meio-ambiente, povos indígenas e quilombolas que vivem em territórios potencialmente afetados também precisam entrar na conta — e não entraram adequadamente nos cenários analisados.

O contexto geopolítico reforça a importância dessa pergunta. A atual crise entre Brasil e EUA inclui tarifas, divergências diplomáticas e, mais recentemente, a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington. Os objetivos norte-americanos estão explicitados: garantir acesso a minerais críticos como questão de segurança nacional. Cabe ao Brasil definir bem os seus. A resposta não é apenas econômica. É sobre quem controla o futuro industrial do país e a que custo.

Os objetivos norte-americanos estão explicitados. Cabe ao Brasil definir bem os seus.
— Colunista da Folha de S.Paulo
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