Aceitei este dinheiro de pessoas bem-intencionadas
Há quase 1.800 anos, uma coluna de pedra erguida numa cidade romana da atual Bulgária registou, em grego antigo, aquilo que os poderosos sempre souberam fazer: transformar a corrupção em cerimônia e a mentira em genealogia. Decifrada apenas agora com rigor científico, a inscrição do imperador Sétimo Severo revela que subornos disfarçados de doações e falsificações de linhagem para legitimar o poder não são vícios do nosso tempo — são, antes, uma herança muito antiga da condição política humana.
- Uma doação de 700 mil denários — equivalente a vários milhões de euros — foi aceite por um imperador romano em 198 d.C. com palavras tão cuidadosamente escolhidas que transformavam um suborno numa oferta de 'pessoas bem-intencionadas'.
- O mesmo texto gravado na coluna continha uma falsidade genealógica deliberada: Sétimo Severo apresentava-se como filho de Marco Aurélio, imperador que morrera décadas antes e com quem não tinha qualquer ligação de sangue.
- Descoberta em 1923, a coluna passou quase um século num museu local sem que o seu conteúdo fosse devidamente traduzido ou compreendido, mantendo o segredo político intacto por mais tempo do que qualquer conspirador poderia desejar.
- O epigrafista Nikolai Sharankov liderou a restauração e tradução rigorosa da inscrição, expondo as duas camadas de manipulação — financeira e identitária — num único documento arqueológico.
- Devolvida às ruínas de Nicopolis ad Istrum na Bulgária, a coluna restaurada é hoje acessível a turistas, convertida em testemunho público de que a corrupção política disfarçada de generosidade tem raízes profundamente antigas.
Uma coluna de três metros, erguida em 198 d.C. nas ruínas de Nicopolis ad Istrum, no centro-norte da Bulgária, guardou durante quase dois milénios um segredo político de surpreendente familiaridade. A inscrição gravada em grego antigo é uma cópia de uma carta do imperador Sétimo Severo e do seu filho Caracala aos habitantes da cidade — escrita no mesmo ano em que Caracala foi elevado a coimperador, ocasião assinalada por uma doação local de 700 mil denários, quantia que os especialistas estimam equivaler hoje a vários milhões de euros.
O epigrafista Nikolai Sharankov, ao restaurar e traduzir o texto com rigor, identificou duas operações de manipulação sobrepostas. A primeira era financeira: Sétimo Severo agradecia o dinheiro descrevendo-o como um presente de 'pessoas bem-intencionadas', formulação que criava uma ficção legal suficiente para aceitar o que era, na prática, uma contribuição forçada em troca de reconhecimento imperial. A segunda era genealógica: no preâmbulo da carta, o imperador apresentava-se falsamente como filho de Marco Aurélio, predecessor venerado com quem não tinha qualquer ligação, numa tentativa deliberada de ganhar prestígio e legitimidade junto das populações regionais.
Descoberta em 1923, a coluna permaneceu quase cem anos num museu local praticamente ignorada. Só recentemente especialistas decidiram restaurá-la e publicar as suas descobertas, abrindo uma janela inesperada para a política romana do século II d.C. Devolvida ao seu local original nas ruínas de Nicopolis, a coluna é hoje um artefacto acessível a qualquer visitante — e uma prova material de que a corrupção disfarçada de generosidade, e a mentira estratégica sobre identidade e legitimidade, são tão antigas quanto o próprio poder.
Uma coluna de pedra com três metros de altura, erguida há quase 1.800 anos nas ruínas de Nicopolis ad Istrum, no centro-norte da Bulgária, guardava um segredo que os cientistas acabaram de revelar: um imperador romano aceitando o que era claramente um suborno, mas chamando-o de presente.
A inscrição, gravada em grego antigo no ano 198 d.C., é uma cópia de uma carta que o imperador Sétimo Severo e seu filho Caracala enviaram aos habitantes da cidade. Naquele mesmo ano, Caracala foi elevado à condição de coimperador, e a ocasião foi marcada por um gesto generoso dos cidadãos locais: uma doação de 700 mil denários. Os cientistas que decifram o texto estimam que essa quantia equivaleria a vários milhões de euros nos dias de hoje.
O epigrafista Nikolai Sharankov, ao analisar a inscrição restaurada, identificou algo que transcende a simples transação financeira. O texto, segundo sua interpretação, revela uma operação de relações públicas antiga: Sétimo Severo agradecia o dinheiro com palavras cuidadosamente escolhidas, afirmando que aceitava "este dinheiro dado por pessoas bem-intencionadas". A formulação era deliberada. Ao descrever a quantia como um presente de pessoas de boa vontade, o imperador criava uma ficção legal que permitia aceitar o que era, na prática, um suborno — uma contribuição forçada dos habitantes em troca de favores ou reconhecimento imperial.
Mas a corrupção não parava ali. O mesmo texto continha uma mentira política ainda mais audaciosa. No preâmbulo da carta, Sétimo Severo apresentava-se como filho do imperador Marco Aurélio, que havia reinado décadas antes, de 161 a 180 d.C. A afirmação era inteiramente falsa. Severo não tinha qualquer ligação com a Dinastia Nerva-Antonina, à qual Marco Aurélio pertencia. Segundo Sharankov, essa falsificação genealógica tinha um objetivo claro: conferir prestígio regional ao imperador, associando-o a um predecessor venerado e, assim, legitimando seu poder perante os cidadãos da região.
A coluna permaneceu enterrada na história durante séculos. Foi descoberta em 1923, mas passou quase cem anos num museu local, praticamente ignorada. Apenas recentemente, especialistas em epigrafia e arqueologia decidiram restaurá-la adequadamente, traduzir o texto grego com rigor e publicar suas descobertas. O resultado foi uma janela inesperada para a política romana do século II d.C. — um período em que as mesmas táticas de manipulação, dissimulação e corrupção que caracterizam sistemas políticos modernos já estavam plenamente desenvolvidas.
A coluna, agora restaurada e devolvida ao seu local original nas ruínas de Nicopolis ad Istrum, tornou-se um artefato acessível aos turistas. Quem a visita hoje pode ler, nas palavras de um imperador romano de 1.800 anos atrás, a prova material de que a corrupção política disfarçada de generosidade, e a mentira estratégica sobre linhagem e legitimidade, não são invenções do mundo contemporâneo.
Notable Quotes
É um suborno disfarçado de doação, mas o texto diz que foi aceite como um presente de pessoas bem-intencionadas— Nikolai Sharankov, epigrafista
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como é que os cientistas conseguiram decifrar uma inscrição tão antiga?
A coluna estava lá desde 1923, mas ninguém tinha feito o trabalho de restauração e tradução adequado. Quando finalmente o fizeram, o grego antigo revelou-se legível. O texto não era ambíguo — era uma carta formal, oficial.
E a parte do suborno — como é que Sharankov tem tanta certeza de que era um suborno e não apenas uma doação genuína?
Está na linguagem. Quando Severo diz que aceita o dinheiro de "pessoas bem-intencionadas", está a criar uma camada de negação. Se fosse realmente um presente voluntário, não precisaria dessa formulação defensiva. A escolha das palavras é a confissão.
Mas por que é que uma cidade inteira doaria 700 mil denários a um imperador?
Porque não tinham escolha real. Quando um imperador visita ou toma posse, as cidades locais sabem que contribuições são esperadas. Recusar seria perigoso. Portanto, o dinheiro flui, mas ambos os lados fingem que é voluntário.
E a mentira sobre ser filho de Marco Aurélio — isso era comum?
Aparentemente sim. Severo estava a tentar ancorar-se numa dinastia anterior respeitada para ganhar legitimidade regional. Era propaganda política, mas gravada em pedra como se fosse verdade histórica.
Qual é o significado de ter isto tudo documentado numa inscrição pública?
Isso é o mais interessante. Não era um documento secreto. Era público, para que todos vissem. Significa que a mentira e o suborno disfarçado eram tão normalizados que podiam ser inscritos em pedra sem constrangimento. Era apenas como as coisas funcionavam.