Uma única injeção pode praticamente eliminar um tipo específico de câncer
Em um marco raro da medicina preventiva, a Inglaterra demonstrou que é possível eliminar mortes por câncer cervical em mulheres jovens por meio da vacinação em massa contra o HPV. Um estudo da Queen Mary University of London, publicado na revista The Lancet, revelou que entre 2020 e 2024 nenhuma mulher de 20 a 24 anos morreu da doença no país — resultado de um programa escolar iniciado em 2008 que alcançou cobertura de 90%. O achado convida o mundo a refletir sobre o que se perde quando a ciência existe, mas a adesão falha.
- Entre 2020 e 2024, a Inglaterra registrou zero mortes por câncer cervical em mulheres de 20 a 24 anos — um resultado sem precedentes na história da medicina preventiva.
- A conquista é fruto de quase duas décadas de vacinação escolar contra o HPV, com cobertura de 90% e expansão do programa para meninos em 2019.
- Apesar do avanço histórico, a adesão à vacina contra HPV está caindo globalmente, ameaçando reverter o progresso e colocar novas gerações em risco.
- No Brasil, onde a doença mata cerca de 7,5 mil pessoas por ano e afeta desproporcionalmente mulheres negras e em vulnerabilidade social, a vacina é gratuita — mas a cobertura precisa ser mantida para que o exemplo inglês se repita.
Uma pesquisa da Queen Mary University of London, publicada na revista The Lancet, revelou um feito inédito: a Inglaterra zerou as mortes por câncer de colo do útero em mulheres de 20 a 24 anos entre 2020 e 2024. O resultado é consequência direta do programa de vacinação contra o HPV iniciado nas escolas em 2008, que imunizou meninas de 12 e 13 anos e, a partir de 2019, passou a incluir meninos. Com cobertura vacinal de quase 90%, a estratégia evitou aproximadamente 200 mortes anuais.
O coordenador do estudo, Peter Sasieni, destacou que o impacto tende a crescer conforme as gerações vacinadas envelheçam, e que uma única injeção é capaz de praticamente eliminar um tipo específico de câncer. Mas há um alerta: a adesão à vacina contra HPV tem caído globalmente, ameaçando o progresso alcançado. Michelle Mitchell, da Cancer Research UK, advertiu que um futuro sem a doença está ao alcance — desde que a cobertura vacinal seja mantida.
No Brasil, a vacina é oferecida gratuitamente pelo SUS para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de grupos vulneráveis como pessoas vivendo com HIV e vítimas de violência sexual. O país registra cerca de 19,3 mil diagnósticos e 7,5 mil mortes pela doença por ano, afetando de forma desproporcional mulheres negras e em situação de vulnerabilidade social. O estudo inglês deixa uma mensagem clara: esses números não são inevitáveis.
Uma pesquisa divulgada nesta semana pela Queen Mary University of London marcou um marco raro na história da medicina preventiva: pela primeira vez, um país conseguiu reduzir a zero o número de mortes de mulheres jovens por câncer de colo do útero. Na Inglaterra, o período entre 2020 e 2024 não registrou um único óbito de mulheres entre 20 e 24 anos pela doença, resultado direto de um programa de vacinação contra o papilomavírus humano iniciado nas escolas em 2008.
O estudo, publicado na revista científica The Lancet, acompanhou as taxas de mortalidade desde que o país começou a imunizar meninas de 12 e 13 anos contra o HPV. A campanha se expandiu em 2019 para incluir meninos, e ofereceu a oportunidade de vacinação gratuita até os 25 anos para quem não recebeu a dose na idade escolar. Com uma cobertura vacinal de quase 90%, a estratégia evitou aproximadamente 200 mortes anuais pela doença. Peter Sasieni, professor de Epidemiologia do Câncer e coordenador do Centro de Rastreamento, Prevenção e Diagnóstico Precoce do Câncer da universidade, descreveu o achado como resultado de duas décadas de pesquisa acumulada sobre a relação entre o HPV e o desenvolvimento de tumores cervicais.
O significado do resultado vai além dos números. Sasieni ressaltou que o impacto continuará crescendo conforme as gerações vacinadas envelheçam, e que uma única injeção consegue praticamente eliminar um tipo específico de câncer. Porém, há uma advertência importante: a adesão à vacinação contra o HPV tem diminuído globalmente nos últimos anos, colocando em risco o progresso alcançado. Michelle Mitchell, diretora executiva da Cancer Research UK, que financiou a pesquisa, alertou que embora um futuro onde praticamente ninguém desenvolva a doença esteja ao alcance, a queda na cobertura vacinal ameaça esse cenário.
No Brasil, a vacina contra o HPV está disponível gratuitamente pelo sistema público de saúde para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de pacientes oncológicos, vítimas de violência sexual entre 9 e 45 anos, e pessoas imunossuprimidas, como aquelas que vivem com HIV ou aids e transplantados. A rede pública oferece a versão quadrivalente, que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus, relacionados tanto a verrugas genitais quanto a lesões malignas. Clínicas privadas disponibilizam uma versão nonavalente com proteção mais ampla.
O câncer de colo do útero permanece um problema de saúde pública significativo, especialmente em populações vulneráveis. A doença é o terceiro tipo de câncer mais comum entre mulheres e o quarto que mais mata pessoas com útero. Afeta desproporcionalmente mulheres negras, com baixa escolaridade e em situação de vulnerabilidade social. Para quem vive com HIV, o risco de desenvolver tumores é até cinco vezes maior. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima cerca de 19,3 mil diagnósticos anuais e aproximadamente 7,5 mil mortes pela doença a cada ano. O estudo inglês demonstra que esses números não são inevitáveis, mas dependem da manutenção de altos níveis de cobertura vacinal nas populações.
Notable Quotes
É incrível pensar que uma única injeção pode praticamente eliminar um tipo específico de câncer, e esta nova pesquisa mostra o quão vital é manter altos os níveis de vacinação contra o HPV— Peter Sasieni, professor de Epidemiologia do Câncer da Queen Mary University of London
A adesão à vacina tem diminuído nos últimos anos e este progresso está em risco— Michelle Mitchell, diretora executiva da Cancer Research UK
The Hearth Conversation Another angle on the story
O que torna este estudo tão significativo se a vacina contra HPV já existe há anos?
É a primeira vez que conseguimos documentar zero mortes em um grupo etário específico. Não é apenas que a vacina funciona — é que ela funcionou tão bem que eliminou completamente a mortalidade em mulheres jovens. Isso é diferente de reduzir ou diminuir.
Mas por que apenas mulheres de 20 a 24 anos? Não deveria afetar todas as idades?
Porque o programa começou em 2008 com meninas de 12 e 13 anos. Essas mulheres de 20 a 24 anos agora são exatamente a geração que foi vacinada quando crianças. Mulheres mais velhas não tiveram acesso à vacina naquela época, então ainda morrem pela doença.
Então o resultado é mais uma promessa do que uma realidade completa?
Exatamente. É uma promessa muito concreta, mas ainda uma promessa. Mostra o que é possível quando você vacina crianças. Mas a cobertura de 90% é o piso mínimo — se cair abaixo disso, o progresso desaparece.
Por que a adesão está caindo se o resultado é tão claro?
Porque as pessoas jovens não veem a doença acontecendo. Quando você elimina uma ameaça, ela sai da consciência coletiva. Aí vêm as dúvidas sobre vacinas em geral, e a proteção que parecia garantida fica frágil.
No Brasil, a vacina é gratuita. Isso deveria resolver o problema?
Deveria, mas gratuidade não é suficiente. Você precisa de confiança, de acesso real às escolas, de campanhas que mantenham a importância visível. A Inglaterra conseguiu porque manteve a vacinação como rotina escolar obrigatória durante 16 anos.
Então o desafio agora é manter o que foi conquistado?
É. E convencer a próxima geração de que uma doença que não veem mais é exatamente porque foram vacinadas. Esse é o paradoxo da prevenção bem-sucedida.