Inflação pode se tornar árbitro de conflitos no Brasil, alerta economista-chefe do Santander

Pandemia aprofundou desigualdades no Brasil, criando ambiente mais polarizado com dificuldades concretas de crescimento e consenso para decisões sobre reformas estruturais.
A inflação funciona como financiamento oculto, injusto, mas eficaz
Economista do Santander explica como a inflação resolve conflitos distributivos sem debate político explícito.

Enquanto o mundo reorganiza suas cadeias produtivas e enfrenta pressões inflacionárias no pós-pandemia, o Brasil permanece estático diante de reformas estruturais que não avançam. A economista-chefe do Santander, Ana Paula Vescovi, alerta que, numa sociedade mais desigual e polarizada, a inflação corre o risco de se tornar o árbitro silencioso dos conflitos distributivos — redistribuindo perdas sem debate, sem consenso e sem justiça. Em ano eleitoral, com crescimento projetado em apenas 0,7% e dólar a 5,70 reais, o país enfrenta a difícil tarefa de construir futuro sem ter resolvido o presente.

  • O Brasil parou de avançar em reformas estruturais exatamente quando a economia global exige mais adaptação e velocidade.
  • A inflação, já entre as mais altas do mundo, ameaça se tornar o mecanismo oculto pelo qual o governo financia gastos crescentes sem elevar impostos — penalizando sobretudo os mais pobres.
  • O abandono do teto de gastos antes da consolidação fiscal aprofunda a incerteza sobre como o país vai dividir recursos escassos numa sociedade mais desigual do que antes da pandemia.
  • Com Ômicron pressionando a atividade, juros americanos subindo e ciclo eleitoral acirrado, a volatilidade cambial e a polarização prometem tornar 2022 um ano de intensas turbulências.

O mundo se move — cadeias produtivas se reorganizam, tecnologias avançam, juros sobem. O Brasil, segundo Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, permanece parado. Enquanto a economia global se reposiciona no pós-pandemia, o país não avança nas reformas estruturais que poderiam ajustá-lo a essa nova realidade, como se tivesse interrompido o dever de casa no momento em que a lição ficou mais difícil.

O cenário descrito por Vescovi é de múltiplas pressões simultâneas: a pandemia forçou uma reconfiguração profunda das cadeias globais, com perda de produtividade; avanços tecnológicos emergem, mas exigem políticas públicas inteligentes para se converterem em crescimento. O Brasil enfrenta esses desafios sem ter resolvido seus próprios problemas — crescimento fraco, desigualdades ampliadas pela crise sanitária e polarização política crescente.

Há um risco que preocupa Vescovi de forma particular: a inflação tornando-se o mecanismo invisível de resolução dos conflitos distributivos. A lógica é perversa — o governo enfrenta demanda crescente por gastos públicos, mas a sociedade resiste a pagar mais impostos. Diante dessa impossibilidade política, a inflação funciona como financiamento oculto, reduzindo silenciosamente o poder de compra de todos, especialmente dos mais pobres, sem que haja debate explícito sobre quem arca com a conta.

Essa dinâmica se apoia na fragilidade fiscal do país, que abriu mão do teto de gastos antes de consolidar as reformas necessárias. Por trás disso estão conflitos distributivos profundos: como dividir recursos escassos numa sociedade mais desigual e polarizada? Como construir consenso quando a confiança nas instituições está abalada?

O Santander projeta crescimento de apenas 0,7% do PIB para 2022, com o dólar fechando o ano a 5,70 reais. A variante Ômicron, o aperto monetário americano e os riscos climáticos à safra agrícola pressionam ainda mais o cenário. Vescovi encerra sua análise com uma previsão direta: este será um ano em que o Brasil vai tremer bastante.

O mundo está em movimento. Cadeias de produção se reorganizam, tecnologias avançam, juros sobem sob pressão inflacionária. Mas o Brasil, segundo Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, permanece imóvel. Enquanto a economia global se reposiciona no pós-pandemia, o país não avança nas reformas estruturais que poderiam ajustá-lo a essa nova realidade. É como se tivesse parado de fazer o dever de casa no momento exato em que a lição ficou mais difícil.

O cenário que Vescovi descreve é complexo. A pandemia não apenas quebrou cadeias produtivas globais — ela está forçando uma reconfiguração mais profunda, com empresas buscando encurtar distâncias, regionalizar operações, reduzir a dependência de redes globalizadas. Isso traz perda de produtividade. Simultaneamente, avanços tecnológicos importantes emergem, mas precisam de políticas públicas inteligentes para se converterem em bem-estar e crescimento. O Brasil enfrenta esses desafios globais sem ter resolvido seus próprios problemas internos: crescimento fraco, desigualdades ampliadas pela crise sanitária, polarização política crescente, consenso cada vez mais raro.

Mas há um risco que preocupa Vescovi particularmente. Num país onde a inflação já está entre as maiores do mundo, existe o perigo de que ela se torne o mecanismo invisível de resolução de conflitos distributivos. A lógica é perversa: o governo enfrenta uma demanda crescente por gastos públicos — saúde, educação, assistência social — mas a sociedade não quer pagar mais impostos. A carga tributária teria de subir significativamente para cobrir essa conta. Diante dessa impossibilidade política, a inflação funciona como um financiamento oculto, injusto, mas eficaz. Ela reduz silenciosamente o poder de compra de todos, especialmente dos mais pobres, sem que haja debate explícito sobre quem paga a conta.

Essa dinâmica está enraizada na fragilidade das contas públicas brasileiras. O país abriu mão de sua âncora fiscal — o teto de gastos — antes de ter consolidado as reformas necessárias. Esse teto, criado para limitar o crescimento das despesas, será revisto pela próxima gestão federal, qualquer que seja. Por trás disso estão conflitos distributivos profundos: como dividir recursos escassos numa sociedade mais desigual e polarizada do que antes da pandemia? Como construir consenso para reformas quando a confiança nas instituições está abalada?

Vescovi reconhece que há pouco clima político para esse debate agora. Seria positivo que a campanha eleitoral incluísse discussões sérias sobre gestão das contas públicas e resolução dos conflitos socioeconômicos, mas a realidade é outra. O país enfrenta a propagação forte da variante Ômicron, que pressiona para baixo as projeções de crescimento. O Santander estima expansão de apenas 0,7% do PIB para 2022. Há pressões também vindas das discussões sobre aperto monetário nos Estados Unidos e dos riscos climáticos à safra agrícola brasileira.

A volatilidade cambial deve acompanhar esse cenário. O dólar foi projetado pelo banco para fechar 2022 a 5,70 reais, refletindo mudanças de humor entre investidores conforme os juros americanos sobem e o ciclo eleitoral brasileiro ganha ritmo. Histórico recente mostra que quando polarização, baixo crescimento e problemas sociais se combinam, a volatilidade é intensa. Vescovi encerra sua análise com uma previsão simples: este será um ano em que o país vai tremer bastante.

É como se a gente tivesse parado de fazer nosso dever de casa com todas essas mudanças acontecendo
— Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander
O grande receio é que a inflação venha com uma ajuda ruim para a dificuldade que nós temos de arbitrar conflitos
— Ana Paula Vescovi
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Quando você diz que a inflação pode se tornar árbitro de conflitos, o que exatamente quer dizer?

Model

Que ela resolve o problema de forma invisível e injusta. O governo precisa gastar mais, a sociedade não quer pagar mais impostos, então a inflação faz o trabalho sujo — reduz o poder de compra de todos, especialmente dos pobres, sem debate político explícito.

Inventor

Mas por que isso é pior do que simplesmente aumentar impostos?

Model

Porque com impostos há transparência, há conflito aberto, há chance de negociação e consenso. Com inflação, ninguém vota nela, ninguém a escolhe, mas todos pagam. É um mecanismo de financiamento oculto.

Inventor

E o Brasil está particularmente vulnerável a isso?

Model

Muito. O país já tem uma das maiores inflações do mundo, as contas públicas estão frágeis, e o teto de gastos — que era a âncora — está sendo abandonado. Temos desigualdade crescente e polarização política. É o cenário perfeito para que a inflação se torne a solução de facto.

Inventor

Qual seria a alternativa?

Model

Reformas estruturais sérias. Mas Vescovi reconhece que não há clima político para isso agora. O país está parado enquanto o mundo muda. Seria preciso debater como dividir recursos escassos de forma justa, mas isso exige consenso que não existe.

Inventor

E se nada mudar?

Model

O ano eleitoral será volátil. Investidores ficarão nervosos com a polarização e o baixo crescimento. O dólar pode subir bastante. A inflação continuará funcionando como mecanismo invisível de ajuste, aprofundando desigualdades.

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