Após a deflação atípica de agosto, impulsionada pelo bônus de Itaipu, setembro devolve ao brasileiro a sensação familiar da inflação em alta — com projeção de 0,8% no mês, a maior do ano. O IPCA-15 acumulado em 12 meses encosta nos 4,4%, flertando com o teto da meta, enquanto alimentos e clima conspiram para pressionar os preços até o fim do ano. Neste equilíbrio tenso entre inflação ascendente e atividade econômica em desaceleração, o Banco Central segue seu caminho de cortes de juros, navegando entre dois ventos contrários.
Inflação de setembro será tão atípica para cima quanto foi deflação de agosto para baixo
Setembro desfaz o alívio de agosto e retoma a alta
Por que setembro é tão diferente de agosto se estamos falando do mesmo índice de preços?
Porque agosto teve um evento específico — o bônus de Itaipu reduziu as contas de energia. Isso foi um alívio temporário. Setembro desfaz esse alívio e, ao mesmo tempo, os alimentos começam a subir de novo.
Mas isso é previsível? Ou seja, o bônus de Itaipu é um evento que se repete anualmente?
Sim, é cíclico. O que torna agosto atípico para baixo e setembro atípico para cima é justamente essa alternância previsível.
E os alimentos — por que eles param de cair e começam a subir agora?
Principalmente por causa do El Niño esperado. Afeta a oferta. Além disso, há o ciclo de abates em carnes. Romão projeta que os alimentos vão subir cerca de 1% ao mês de setembro a dezembro.
Mas essas projeções de El Niño — elas já estão acontecendo ou são antecipações? Porque o impacto mais direto está previsto para fim de ano e 2027.
São antecipações. Os efeitos mais fortes vêm depois. Mas o mercado já está precificando isso nos preços atuais.
Então a inflação de 2026 vai ficar em 5,2%? Isso está acima da meta?
Sim. A meta é 3%, com intervalo de tolerância até 4,5%. 5,2% fica fora.
Mas o Banco Central vai continuar cortando juros mesmo com inflação acima da meta?
Sim, porque a economia está desacelerando. O crescimento esperado é 1,8% este ano e pode cair para 1,5% ou menos em 2027. O BC está priorizando o crescimento.
Isso é uma escolha arriscada?
Depende. Se o El Niño for tão forte quanto se espera, a inflação pode ficar ainda mais alta. Mas se a economia continuar caindo, o BC não tem muita escolha.
O Pulso
- A deflação de agosto era uma ilusão temporária: o rebote do bônus de Itaipu e a retomada das altas nos alimentos empurram setembro para uma alta de 0,8%, a maior variação mensal do ano.
- O IPCA-15 acumulado em 12 meses chegou a 4,4%, perigosamente próximo ao teto de tolerância de 4,5%, e as projeções apontam para 5,2% ao final de 2026.
- O super-El Niño e o ciclo de abates em carnes ameaçam a oferta de alimentos até 2027, com a inflação do setor podendo saltar de 2,8% em agosto para 7,2% em dezembro.
- Apesar do repique inflacionário, a desaceleração da economia — com crescimento projetado em 1,8% para 2026 — mantém aberto o espaço para novos cortes na taxa básica de juros, esperados ao menos até novembro.
Após a deflação atípica de agosto, impulsionada pelo bônus de Itaipu, setembro devolve ao brasileiro a sensação familiar da inflação em alta — com projeção de 0,8% no mês, a maior do ano. O IPCA-15 acumulado em 12 meses encosta nos 4,4%, flertando com o teto da meta, enquanto alimentos e clima conspiram para pressionar os preços até o fim do ano. Neste equilíbrio tenso entre inflação ascendente e atividade econômica em desaceleração, o Banco Central segue seu caminho de cortes de juros, navegando entre dois ventos contrários.
A deflação registrada pelo IPCA em agosto foi um movimento atípico, gerado principalmente pelo bônus de Itaipu, que reduziu temporariamente as tarifas de energia elétrica. Setembro inverte essa lógica: com o bônus se dissipando e os preços dos alimentos retomando a trajetória de alta após três meses de deflação, a inflação do mês deve chegar a 0,8% — a maior variação mensal do ano, atrás apenas do 0,9% de março. O IPCA-15 de setembro, que antecipa o índice cheio, já registrou 0,7%, e as projeções do mercado convergem para o número do economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence.
No acumulado em 12 meses, o IPCA-15 subiu para 4,4%, voltando a encostar no teto do intervalo de tolerância da meta, fixado em 4,5%. Com o IPCA completo de setembro, Romão projeta que esse acumulado chegará a 4,6%, acelerando para 4,7% em outubro, 4,9% em novembro e 5,2% em dezembro — número para o qual as revisões do mercado estão convergindo, ainda que o Boletim Focus mais recente estimasse 4,9% para o ano.
Parte das pressões futuras vem do clima: o super-El Niño esperado para o fim de 2026 e início de 2027 deve comprometer a oferta de alimentos, enquanto o ciclo de abates em carnes adiciona pressão adicional. A inflação de alimentos no domicílio pode saltar de 2,8% em agosto para 7,2% em dezembro, tornando o setor o principal vetor de alta da inflação anual.
Apesar desse cenário, o Banco Central deve manter o ritmo de cortes de juros. A desaceleração da atividade econômica — com crescimento projetado em 1,8% para 2026 e possivelmente abaixo de 1,5% em 2027 — oferece o espaço necessário para novas reduções na Selic, com analistas esperando ao menos mais um corte de 0,25 ponto percentual, dos atuais 13,75% para 13,5%, com o ciclo se estendendo pelo menos até novembro.
A volatilidade mensal dos preços é uma característica intrínseca da inflação. Agosto trouxe um movimento atípico para baixo — a deflação capturada pelo IPCA, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo. Setembro, por sua lógica inversa, promete ser igualmente atípico, mas desta vez para cima.
O IPCA-15 de setembro, que mede a variação de preços entre 15 de agosto e 15 de setembro, registrou alta de 0,7%. Com base neste resultado, o economista Fábio Romão, que acompanha preços na consultoria 4intelligence, projeta uma inflação de 0,8% para o IPCA completo de setembro — o que representaria a maior variação mensal do ano, superada apenas pelo 0,9% registrado em março. As projeções do mercado financeiro para setembro oscilam entre 0,7% e 0,8%, convergindo para o número de Romão.
Este movimento para cima em setembro tem origem clara. O bônus de Itaipu, que havia reduzido as tarifas de energia elétrica em agosto, agora rebate para o lado oposto. Simultaneamente, os preços dos alimentos, que apresentaram deflação mensal de junho até agosto, retomam a trajetória de alta. Reajustes em combustíveis também contribuem para elevar o índice geral. Os alimentos no domicílio, em particular, deverão registrar altas mensais em torno de 1% de setembro a dezembro, com exceção de outubro, quando o aumento deve ficar pouco acima de 0,5%.
No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 de setembro subiu para 4,4%, voltando a encostar no teto do intervalo de tolerância do sistema de metas, que é de 4,5%, com centro em 3%. Desde o início de 2026, a inflação nesta medida menos volátil transita entre 3,8% e 4,7%, mantendo-se praticamente dentro do intervalo permitido. Com o IPCA cheio de setembro, Romão projeta que a inflação acumulada em 12 meses chegará a 4,6%. A partir daí, as projeções indicam aceleração: 4,7% em outubro, 4,9% em novembro e 5,2% em dezembro.
Este cenário levou Romão a revisar ligeiramente sua projeção para a inflação de 2026 de 5,1% para 5,2%. É para este número que as revisões de estimativa estão convergindo. No Boletim Focus mais recente, divulgado na segunda-feira 21 de setembro, os analistas do mercado financeiro estimavam alta de 4,9% para a inflação do ano — uma previsão que deve sofrer pequenas revisões para cima nas próximas semanas.
Parte das pressões inflacionárias esperadas para os próximos meses repousa em fatores climáticos e de oferta. O fenômeno do super-El Niño, esperado para o fim deste ano e primeiros meses de 2027, deve impactar desfavoravelmente a oferta de alimentos. Além disso, o ciclo de abates em carnes contribui para as pressões de preço. Romão projeta, por exemplo, uma alta acima de 10% nos preços dos alimentos no domicílio em fevereiro de 2027, medida no acumulado em 12 meses. No acumulado de 12 meses, a inflação de alimentos deve sair de 2,8% em agosto para 7,2% em dezembro, transformando alimentos em candidatos a puxar a inflação de 2026 para cima.
Do ponto de vista da política monetária, o repique inflacionário de setembro deve ter pouca influência nas decisões do Banco Central. A queda do ritmo de atividades econômicas, cada vez mais evidente, abre espaço para a continuidade dos cortes de juros. As projeções para o crescimento da economia recuam para 1,8% em 2026 e devem descer a 1,5% ou menos em 2027. Os analistas consultados pelo Focus preveem pelo menos mais uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, dos atuais 13,75% para 13,5%, com a expectativa de que o ciclo de cortes se estenda pelo menos até novembro.
Citações Notáveis
A partir dos resultados do IPCA-15 de setembro, o economista elevou ligeiramente sua projeção para a inflação de 2026 de 5,1% para 5,2%— Fábio Romão, 4intelligence