Inflação de setembro será tão atípica para cima quanto foi deflação de agosto para baixo

Setembro desfaz o alívio de agosto e retoma a alta
O rebote do bônus de Itaipu e a retomada dos preços de alimentos impulsionam a inflação para 0,8% no mês.
Mark

Por que setembro é tão diferente de agosto se estamos falando do mesmo índice de preços?

Mimi

Porque agosto teve um evento específico — o bônus de Itaipu reduziu as contas de energia. Isso foi um alívio temporário. Setembro desfaz esse alívio e, ao mesmo tempo, os alimentos começam a subir de novo.

Luke

Mas isso é previsível? Ou seja, o bônus de Itaipu é um evento que se repete anualmente?

Mimi

Sim, é cíclico. O que torna agosto atípico para baixo e setembro atípico para cima é justamente essa alternância previsível.

Mark

E os alimentos — por que eles param de cair e começam a subir agora?

Mimi

Principalmente por causa do El Niño esperado. Afeta a oferta. Além disso, há o ciclo de abates em carnes. Romão projeta que os alimentos vão subir cerca de 1% ao mês de setembro a dezembro.

Luke

Mas essas projeções de El Niño — elas já estão acontecendo ou são antecipações? Porque o impacto mais direto está previsto para fim de ano e 2027.

Mimi

São antecipações. Os efeitos mais fortes vêm depois. Mas o mercado já está precificando isso nos preços atuais.

Mark

Então a inflação de 2026 vai ficar em 5,2%? Isso está acima da meta?

Mimi

Sim. A meta é 3%, com intervalo de tolerância até 4,5%. 5,2% fica fora.

Luke

Mas o Banco Central vai continuar cortando juros mesmo com inflação acima da meta?

Mimi

Sim, porque a economia está desacelerando. O crescimento esperado é 1,8% este ano e pode cair para 1,5% ou menos em 2027. O BC está priorizando o crescimento.

Mark

Isso é uma escolha arriscada?

Luke

Depende. Se o El Niño for tão forte quanto se espera, a inflação pode ficar ainda mais alta. Mas se a economia continuar caindo, o BC não tem muita escolha.

  • A deflação de agosto era uma ilusão temporária: o rebote do bônus de Itaipu e a retomada das altas nos alimentos empurram setembro para uma alta de 0,8%, a maior variação mensal do ano.
  • O IPCA-15 acumulado em 12 meses chegou a 4,4%, perigosamente próximo ao teto de tolerância de 4,5%, e as projeções apontam para 5,2% ao final de 2026.
  • O super-El Niño e o ciclo de abates em carnes ameaçam a oferta de alimentos até 2027, com a inflação do setor podendo saltar de 2,8% em agosto para 7,2% em dezembro.
  • Apesar do repique inflacionário, a desaceleração da economia — com crescimento projetado em 1,8% para 2026 — mantém aberto o espaço para novos cortes na taxa básica de juros, esperados ao menos até novembro.

Após a deflação atípica de agosto, impulsionada pelo bônus de Itaipu, setembro devolve ao brasileiro a sensação familiar da inflação em alta — com projeção de 0,8% no mês, a maior do ano. O IPCA-15 acumulado em 12 meses encosta nos 4,4%, flertando com o teto da meta, enquanto alimentos e clima conspiram para pressionar os preços até o fim do ano. Neste equilíbrio tenso entre inflação ascendente e atividade econômica em desaceleração, o Banco Central segue seu caminho de cortes de juros, navegando entre dois ventos contrários.

A deflação registrada pelo IPCA em agosto foi um movimento atípico, gerado principalmente pelo bônus de Itaipu, que reduziu temporariamente as tarifas de energia elétrica. Setembro inverte essa lógica: com o bônus se dissipando e os preços dos alimentos retomando a trajetória de alta após três meses de deflação, a inflação do mês deve chegar a 0,8% — a maior variação mensal do ano, atrás apenas do 0,9% de março. O IPCA-15 de setembro, que antecipa o índice cheio, já registrou 0,7%, e as projeções do mercado convergem para o número do economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence.

No acumulado em 12 meses, o IPCA-15 subiu para 4,4%, voltando a encostar no teto do intervalo de tolerância da meta, fixado em 4,5%. Com o IPCA completo de setembro, Romão projeta que esse acumulado chegará a 4,6%, acelerando para 4,7% em outubro, 4,9% em novembro e 5,2% em dezembro — número para o qual as revisões do mercado estão convergindo, ainda que o Boletim Focus mais recente estimasse 4,9% para o ano.

Parte das pressões futuras vem do clima: o super-El Niño esperado para o fim de 2026 e início de 2027 deve comprometer a oferta de alimentos, enquanto o ciclo de abates em carnes adiciona pressão adicional. A inflação de alimentos no domicílio pode saltar de 2,8% em agosto para 7,2% em dezembro, tornando o setor o principal vetor de alta da inflação anual.

Apesar desse cenário, o Banco Central deve manter o ritmo de cortes de juros. A desaceleração da atividade econômica — com crescimento projetado em 1,8% para 2026 e possivelmente abaixo de 1,5% em 2027 — oferece o espaço necessário para novas reduções na Selic, com analistas esperando ao menos mais um corte de 0,25 ponto percentual, dos atuais 13,75% para 13,5%, com o ciclo se estendendo pelo menos até novembro.

A volatilidade mensal dos preços é uma característica intrínseca da inflação. Agosto trouxe um movimento atípico para baixo — a deflação capturada pelo IPCA, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo. Setembro, por sua lógica inversa, promete ser igualmente atípico, mas desta vez para cima.

O IPCA-15 de setembro, que mede a variação de preços entre 15 de agosto e 15 de setembro, registrou alta de 0,7%. Com base neste resultado, o economista Fábio Romão, que acompanha preços na consultoria 4intelligence, projeta uma inflação de 0,8% para o IPCA completo de setembro — o que representaria a maior variação mensal do ano, superada apenas pelo 0,9% registrado em março. As projeções do mercado financeiro para setembro oscilam entre 0,7% e 0,8%, convergindo para o número de Romão.

Este movimento para cima em setembro tem origem clara. O bônus de Itaipu, que havia reduzido as tarifas de energia elétrica em agosto, agora rebate para o lado oposto. Simultaneamente, os preços dos alimentos, que apresentaram deflação mensal de junho até agosto, retomam a trajetória de alta. Reajustes em combustíveis também contribuem para elevar o índice geral. Os alimentos no domicílio, em particular, deverão registrar altas mensais em torno de 1% de setembro a dezembro, com exceção de outubro, quando o aumento deve ficar pouco acima de 0,5%.

No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 de setembro subiu para 4,4%, voltando a encostar no teto do intervalo de tolerância do sistema de metas, que é de 4,5%, com centro em 3%. Desde o início de 2026, a inflação nesta medida menos volátil transita entre 3,8% e 4,7%, mantendo-se praticamente dentro do intervalo permitido. Com o IPCA cheio de setembro, Romão projeta que a inflação acumulada em 12 meses chegará a 4,6%. A partir daí, as projeções indicam aceleração: 4,7% em outubro, 4,9% em novembro e 5,2% em dezembro.

Este cenário levou Romão a revisar ligeiramente sua projeção para a inflação de 2026 de 5,1% para 5,2%. É para este número que as revisões de estimativa estão convergindo. No Boletim Focus mais recente, divulgado na segunda-feira 21 de setembro, os analistas do mercado financeiro estimavam alta de 4,9% para a inflação do ano — uma previsão que deve sofrer pequenas revisões para cima nas próximas semanas.

Parte das pressões inflacionárias esperadas para os próximos meses repousa em fatores climáticos e de oferta. O fenômeno do super-El Niño, esperado para o fim deste ano e primeiros meses de 2027, deve impactar desfavoravelmente a oferta de alimentos. Além disso, o ciclo de abates em carnes contribui para as pressões de preço. Romão projeta, por exemplo, uma alta acima de 10% nos preços dos alimentos no domicílio em fevereiro de 2027, medida no acumulado em 12 meses. No acumulado de 12 meses, a inflação de alimentos deve sair de 2,8% em agosto para 7,2% em dezembro, transformando alimentos em candidatos a puxar a inflação de 2026 para cima.

Do ponto de vista da política monetária, o repique inflacionário de setembro deve ter pouca influência nas decisões do Banco Central. A queda do ritmo de atividades econômicas, cada vez mais evidente, abre espaço para a continuidade dos cortes de juros. As projeções para o crescimento da economia recuam para 1,8% em 2026 e devem descer a 1,5% ou menos em 2027. Os analistas consultados pelo Focus preveem pelo menos mais uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, dos atuais 13,75% para 13,5%, com a expectativa de que o ciclo de cortes se estenda pelo menos até novembro.

A partir dos resultados do IPCA-15 de setembro, o economista elevou ligeiramente sua projeção para a inflação de 2026 de 5,1% para 5,2%
— Fábio Romão, 4intelligence
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