Em junho de 2026, quase metade da dívida pública brasileira estava atrelada à taxa Selic — o maior patamar em vinte anos —, não por escolha estratégica, mas como reflexo de uma desconfiança crescente dos mercados nas contas do país. Quando a incerteza fiscal se aprofunda, investidores migram para os títulos mais seguros, e o governo, ao acompanhar essa demanda, assume custos cada vez mais elevados e imprevisíveis. É um ciclo antigo: a fragilidade fiscal alimenta a composição arriscada da dívida, que por sua vez torna mais difícil sair da fragilidade.
Incerteza fiscal leva dívida atrelada à Selic ao maior nível em 20 anos
É um sintoma, não uma estratégia deliberada
Por que o Tesouro está emitindo tanto título atrelado à Selic se isso aumenta o risco?
Porque neste momento, é a única coisa que os investidores querem comprar. Quando há incerteza, as pessoas fogem para o seguro. As LFTs são o seguro da dívida brasileira.
Mas isso não é um círculo vicioso? Quanto mais LFTs, mais caro fica o financiamento.
Exatamente. É um sintoma, não uma estratégia. O Tesouro gostaria de emitir títulos prefixados e vinculados à inflação, que dão mais previsibilidade de custo. Mas ninguém quer comprar.
O que mudou desde 2014, quando a participação de LFTs era de apenas 18%?
O Brasil perdeu o grau de investimento em 2015. Isso afastou investidores estrangeiros. Antes, eles detinham 20% dos títulos. Hoje, detêm 10%. Sem confiança, não há diversificação.
A culpa é do governo atual?
Não é tão simples. A piora começou em 2015, mas se aprofundou agora. O governo argumenta que o resultado primário tem sido praticamente neutro, que o problema foi a escalada dos juros. Mas a composição da dívida reflete a desconfiança geral sobre as contas públicas.
Qual é a saída?
Recuperar o grau de investimento. Isso traria de volta os investidores estrangeiros, aumentaria a demanda por títulos de mais longo prazo, e permitiria que o Tesouro reduzisse a dependência das LFTs. Mas para isso, é preciso consolidar a fiscal.
E se não conseguir?
Então o Brasil continua pagando cada vez mais caro para se financiar, e qualquer choque de juros piora automaticamente a conta. É um risco crescente.
O Pulso
- A fatia da dívida federal atrelada à Selic chegou a 49,32% em junho, o maior nível desde 2005, pressionando o Tesouro a revisar suas próprias metas de composição.
- Com a Selic chegando a 15% ao ano em 2025, o custo médio do estoque da dívida atingiu 12,68% — o mais alto desde 2016 —, e novas emissões custam ainda mais: 14,20% ao ano.
- Investidores estrangeiros, que detinham 20% dos títulos internos antes da perda do grau de investimento em 2015, hoje respondem por apenas 10%, estreitando as opções do Tesouro.
- O governo atribui parte do problema ao cenário externo e reivindica esforço fiscal, mas economistas apontam que a concentração em LFTs é, acima de tudo, um sintoma de desconfiança estrutural.
- A meta de longo prazo é reduzir as LFTs a 23% da dívida em dez anos, mas o Brasil carrega hoje mais que o dobro disso, e a recuperação do grau de investimento surge como condição essencial para qualquer reversão.
Em junho de 2026, quase metade da dívida pública brasileira estava atrelada à taxa Selic — o maior patamar em vinte anos —, não por escolha estratégica, mas como reflexo de uma desconfiança crescente dos mercados nas contas do país. Quando a incerteza fiscal se aprofunda, investidores migram para os títulos mais seguros, e o governo, ao acompanhar essa demanda, assume custos cada vez mais elevados e imprevisíveis. É um ciclo antigo: a fragilidade fiscal alimenta a composição arriscada da dívida, que por sua vez torna mais difícil sair da fragilidade.
O Tesouro Nacional chegou a junho de 2026 com quase metade de sua dívida — 49,32% — atrelada à taxa Selic, o maior patamar em duas décadas. A mudança não foi planejada: é o resultado de uma fuga sistemática de investidores em direção às LFTs, os títulos considerados porto seguro em tempos de incerteza fiscal e internacional. Em relação a dezembro de 2022, a participação desses papéis cresceu 11 pontos percentuais.
O problema é que essa segurança tem preço. Quando o Banco Central elevou a Selic de 10,50% para 15% ao ano a partir de meados de 2024, o custo de toda a dívida atrelada a ela subiu junto. O custo médio do estoque chegou a 12,68% em junho, o maior desde 2016, e as novas emissões custam 14,20% ao ano. A conta de juros do governo federal, que representava 5,25% do PIB, foi a cerca de 7% no mesmo período — e mesmo com a Selic recuando para 14%, o endividamento total cresceu.
O Tesouro já está próximo do teto de 50% que havia estabelecido como meta para o ano e deve revisá-lo para cima. A estratégia de longo prazo prevê reduzir as LFTs a 23% da dívida em dez anos, mas o Brasil carrega hoje mais que o dobro disso. Para economistas como Luis Felipe Vital, da Warren Rena, a composição da dívida melhora quando a perspectiva fiscal melhora — e piora quando ela piora. A concentração atual é, portanto, um sintoma de desconfiança, não uma escolha.
Outros fatores agravam o quadro: a dificuldade em emitir títulos atrelados à inflação, a concorrência de papéis privados isentos de IR e a saturação dos fundos de pensão. O governo aponta o cenário externo — juros americanos elevados, instabilidade geopolítica — como agravantes, e defende que o esforço fiscal desde 2023 tem mantido a dinâmica da dívida praticamente neutra. Mas reconhece que a recuperação do grau de investimento, perdido em 2015, é condição fundamental para alongar a dívida e reverter a trajetória atual.
O Tesouro Nacional está financiando o Brasil de forma cada vez mais cara e arriscada. Em junho deste ano, quase metade da dívida federal — 49,32% — estava atrelada à taxa Selic, a maior proporção em duas décadas. Isso representa um salto de 11 pontos percentuais em relação a dezembro de 2022, quando essa fatia era de 38,25%. A mudança não foi planejada. Foi uma reação.
Quando a incerteza toma conta dos mercados, investidores buscam segurança. As LFTs — Letras Financeiras do Tesouro, títulos que acompanham a Selic — são consideradas o porto seguro da dívida brasileira. Diferentemente dos títulos prefixados, cujo retorno é conhecido na hora da compra, ou dos vinculados à inflação, as LFTs se ajustam automaticamente conforme o Banco Central move a taxa básica. Para quem investe, isso reduz o risco. Para o governo, porém, cria um problema crescente.
Em meados de 2024, o Banco Central começou a elevar a Selic. A taxa saiu de 10,50% e chegou a 15% ao ano, permanecendo nesse patamar até março de 2026. Cada ponto de aumento na Selic significa que o governo paga mais caro para rolar sua dívida. A conta de juros do governo federal subiu de 5,25% do PIB para cerca de 7% no mesmo período. Mesmo com o BC reduzindo a Selic para 14% ao ano nos meses recentes, a conta total de juros não caiu — o Brasil está mais endividado do que estava dois anos atrás.
O custo médio do estoque da dívida em junho alcançou 12,68%, o maior desde setembro de 2016. As novas emissões custam ainda mais: 14,20% ao ano, o maior desde outubro de 2016. Boa parte desse aumento vem da maior participação das LFTs, embora as taxas dos demais títulos também estejam subindo. O Tesouro já está próximo do teto de 50% que estabeleceu como meta para este ano — e técnicos do órgão já anunciaram que devem revisar essa meta para acomodar uma participação ainda maior desses títulos.
A estratégia de longo prazo do Tesouro é reduzir a fatia de LFTs para 23% da dívida nos próximos dez anos. Mas a realidade atual mostra que o Brasil detém mais que o dobro disso. Para economistas e integrantes do próprio governo, essa concentração não é uma escolha deliberada — é um sintoma. Um sintoma de desconfiança. Quando a perspectiva fiscal piora, investidores fogem dos papéis prefixados e dos títulos vinculados à inflação. Essa demanda migra para as LFTs, que oferecem previsibilidade de risco mesmo em tempos turbulentos.
O Brasil perdeu seu grau de investimento em 2015. Naquela época, investidores estrangeiros detinham 20% dos títulos emitidos pelo Tesouro no mercado interno. Hoje, sem o selo de bom pagador, essa fatia caiu para 10%. A composição da dívida pública vem piorando desde então, e essa deterioração se aprofundou no governo atual. Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Rena, observa que em momentos de melhora da perspectiva fiscal, a composição da dívida também melhora. O inverso também é verdadeiro.
Outros fatores complicam o quadro. O governo tem dificuldade em emitir NTN-Bs, títulos atrelados à inflação, e aponta a concorrência com títulos privados isentos de Imposto de Renda como uma distorção. Há também uma saturação da demanda dos fundos de pensão por esses papéis. Para o economista Guilherme Almeida, da Suno Research, emitir LFTs tornou-se "mais barato e mais fácil" para o Tesouro, mas a gestão dessa dívida se torna mais difícil porque não existe previsibilidade sobre quanto será o custo efetivamente.
O governo coloca peso nos fatores externos — o aumento na taxa de juros dos Estados Unidos, que serve de âncora para os demais mercados, e os efeitos da guerra no Oriente Médio, que empurram investidores para apostas mais seguras. Fabio Terra, chefe de gabinete do ministro da Fazenda, argumenta que o resultado primário tem tido comportamento praticamente neutro sobre a dinâmica da dívida desde 2023, fruto do esforço fiscal do governo. Mas reconhece que a continuidade desse esforço é necessária para reduzir a dívida. O Tesouro, em seu plano de ação divulgado em janeiro, apontou a recuperação do grau de investimento como fundamental para viabilizar o alongamento da dívida doméstica e a convergência em direção à meta de longo prazo.
Citações Notáveis
Em momentos de melhora da perspectiva fiscal, a composição da dívida também melhora. Em momentos de piora, a composição sente isso, principalmente com aumento de títulos atrelados à taxa flutuante— Luis Felipe Vital, chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Rena
Emitir LFTs tornou-se mais barato e mais fácil para o Tesouro, mas a gestão dessa dívida se torna mais difícil porque não existe previsibilidade sobre quanto será o custo efetivamente— Guilherme Almeida, analista da Suno Research