Crédito deixou de ser antecipação de renda e virou extensão do salário
Em maio de 2026, enquanto o governo brasileiro relançava o Desenrola Brasil com R$ 15 bilhões em dívidas renegociadas, a inadimplência alcançou seu patamar mais alto desde 2011 — 4,7% nas operações gerais e 7,6% no crédito livre de pessoas físicas. O paradoxo revela algo mais profundo do que um simples descompasso entre política pública e realidade econômica: famílias brasileiras deixaram de usar o crédito para antecipar conquistas e passaram a usá-lo para sobreviver ao mês. Enquanto as causas estruturais — juros elevados, custo de vida crescente e renda insuficiente — permanecerem intocadas, programas de renegociação funcionam como curativos sobre feridas que continuam abertas.
- A inadimplência bateu o maior recorde desde 2011, com 4,7% de atrasos acima de 90 dias, mesmo durante o lançamento de um programa governamental de renegociação de dívidas.
- Famílias estão tomando crédito não para comprar geladeiras ou carros, mas para pagar comida e contas — e no mês seguinte não conseguem honrar nem esse crédito.
- A Selic em 14,25% ao ano transforma dívidas em espirais: juros sobre juros corroem orçamentos já comprometidos em quase 50% da renda familiar.
- O Desenrola renegociou R$ 15,9 bilhões, mas economistas alertam que o programa trata sintomas enquanto as causas — renda insuficiente, juros altos, apostas em bets — seguem intactas.
- A expectativa é de algum alívio nos próximos meses, mas analistas projetam que, sem reformas estruturais, a inadimplência pode voltar a crescer no fim de 2026 ou início de 2027.
Em maio, quando o governo relançou o Desenrola Brasil, a inadimplência nas operações de crédito atingiu seu maior nível desde que o Banco Central começou a registrar esses dados, em 2011. A taxa média de atrasos superiores a 90 dias chegou a 4,7%; no crédito livre de pessoas físicas — cartão, cheque especial, empréstimos pessoais — o número subiu para 7,6%, também um recorde histórico. Nos últimos doze meses, a taxa média de todas as operações cresceu um ponto percentual inteiro.
O paradoxo é evidente: mesmo com R$ 15 bilhões em dívidas renegociadas pelo novo programa, os atrasos continuaram avançando. O índice de comprometimento de renda das famílias permaneceu estável em 49,8% — um patamar que economistas consideram perigosamente elevado. Entre pessoas jurídicas, a inadimplência chegou a 3,2%, o maior nível desde setembro de 2017.
Para a economista Juliana Inhasz, do Insper, o problema não é ausência de renda — o mercado de trabalho segue aquecido. O problema é que a renda cresce muito menos do que o custo de vida. Alimentação, moradia e transporte encarecem; os juros nas modalidades mais usadas permanecem altíssimos. E há uma mudança de comportamento reveladora: as famílias pararam de usar o crédito para antecipar consumos duráveis e passaram a usá-lo para bancar o básico do dia a dia. No mês seguinte, não conseguem pagar e precisam tomar mais crédito. A dívida se acumula, os juros se multiplicam.
Flávio Ataliba, do FGV Ibre, classifica o problema como estrutural. Com a Selic em 14,25% ao ano e o endividamento sendo cumulativo, qualquer choque econômico encontra famílias sem margem de reação. Ataliba ainda aponta um fator recente: o comprometimento de renda com apostas em bets, que reduz ainda mais a capacidade de honrar dívidas e despesas essenciais.
O Desenrola permite negociar dívidas diretamente com bancos a juros mais baixos, mas não impede que novas dívidas sejam criadas. Economistas reconhecem que o programa ataca consequências, não causas. A expectativa é de alguma redução da inadimplência nos próximos meses — mas, sem enfrentar os fatores estruturais, o problema tende a se reconstituir até o fim do ano ou o início de 2027.
Em maio, quando o governo lançou a nova versão do Desenrola Brasil — seu programa de renegociação de dívidas — a inadimplência nas operações de crédito alcançou um recorde histórico. A taxa média de atrasos superiores a 90 dias chegou a 4,7%, o maior patamar desde que o Banco Central começou a registrar esses dados em 2011. Quando se olha apenas para o crédito livre de pessoas físicas — aquele que inclui cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais — o número sobe para 7,6%, também um recorde na série histórica das Estatísticas Monetárias e de Crédito.
O paradoxo é evidente: mesmo com pelo menos R$ 15 bilhões em dívidas renegociadas pelo novo programa, os atrasos continuaram crescendo. Nos últimos doze meses, a taxa média de inadimplência de todas as operações subiu um ponto percentual inteiro. Entre pessoas jurídicas, a situação também piorou, com a taxa chegando a 3,2% em maio — o maior nível desde setembro de 2017. Enquanto isso, o índice que mede quanto as famílias já comprometem de sua renda permaneceu estável em 49,8%, um patamar que economistas consideram perigosamente elevado.
Para entender por que um programa de renegociação não consegue frear o crescimento da inadimplência, é preciso olhar para a realidade das famílias brasileiras. Juliana Inhasz, economista do Insper, explica que o problema não é a falta de renda — o mercado de trabalho segue aquecido e a renda cresce. O problema é que essa renda cresce muito menos do que as necessidades das pessoas e o custo de vida. Alimentação, moradia e transporte ficam mais caros. As taxas de juros, especialmente nas modalidades que as pessoas mais usam, permanecem muito elevadas. Quem precisa renovar uma dívida, parcelar uma compra ou tomar crédito enfrenta juros que consomem uma parcela cada vez maior do orçamento.
Mas há algo mais profundo acontecendo. As famílias deixaram de usar o crédito como uma antecipação de renda para consumos duráveis — uma geladeira, um carro — e começaram a usá-lo como uma extensão da renda do dia a dia. Pessoas tomam crédito para bancar o básico: comida, contas, transporte. No mês seguinte, não conseguem pagar esse crédito e precisam tomar mais. A dívida se acumula, os juros se multiplicam, e a situação fica insustentável. Isso não é mais excepcional; virou a regra.
Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, vê o problema como estrutural. O elevado endividamento aumenta a fragilidade financeira das famílias, reduzindo sua capacidade de reagir a qualquer choque na economia — uma taxa de juros ainda mais alta, uma desaceleração da atividade. A Selic está em 14,25% ao ano, acima de 14%, e a dívida é cumulativa: juros sobre juros. Isso potencializa o desconforto financeiro e o volume de inadimplência. Ataliba também aponta um fator mais recente: o comprometimento da renda das famílias com apostas em bets, o que reduz ainda mais a capacidade de pagar dívidas e despesas essenciais.
O Desenrola Brasil, lançado em maio, renegociou desde então ao menos R$ 15,9 bilhões em dívidas. O Desenrola Famílias, voltado para pessoas físicas que ganham até cinco salários mínimos, renegociou R$ 10 bilhões. Somadas todas as modalidades, as dívidas foram reduzidas para cerca de R$ 2,6 bilhões. O programa permite que consumidores negociem dívidas de cartão de crédito, cheque especial ou crédito pessoal diretamente com os bancos, geralmente a juros mais baixos. Recentemente, o governo lançou uma nova vertente para informais adimplentes.
Mas economistas alertam que o programa ataca apenas as consequências, não as causas. O Desenrola permite que as famílias negociem a dívida a juros mais baixos, mas não impede que elas continuem se endividando ou criando novas dívidas. Ainda não houve tempo de captar os efeitos completos do programa sobre o endividamento. A expectativa é que nos próximos meses haja reduções de inadimplência, mas lá para o fim do ano ou começo de 2027, o problema pode começar a aumentar de novo. Enquanto as causas estruturais — renda insuficiente, juros altos, custo de vida crescente — permanecerem intocadas, a inadimplência seguirá sendo um problema que se perpetua.
Notable Quotes
O problema não é a falta de renda, mas o quanto essa renda cresce abaixo das necessidades das famílias e do custo financeiro das dívidas— Juliana Inhasz, economista do Insper
O elevado endividamento aumenta a fragilidade financeira das famílias, reduzindo sua capacidade de reagir a qualquer choque na economia— Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Desenrola não conseguiu frear a inadimplência em maio, justamente quando foi lançado?
Porque o programa chegou tarde demais para as famílias que já estavam em situação crítica, e porque ele só negocia o que já virou dívida. Não muda o fato de que as pessoas precisam tomar mais crédito todo mês para viver.
Então a renda está crescendo, mas não é suficiente?
Exatamente. A renda cresce, mas o custo de vida cresce mais rápido. E quando você precisa de crédito para o básico — comida, aluguel — você está em uma armadilha. Não é mais um luxo, é sobrevivência.
Qual é o papel das taxas de juros nessa história?
Elas são o multiplicador do problema. Com Selic em 14,25%, os juros do cheque especial e do cartão de crédito ficam estratosféricos. A dívida cresce sozinha, mesmo que você não tome mais crédito. É juros sobre juros.
E as apostas em bets que foram mencionadas?
É um dreno recente na renda das famílias. Pessoas que já estão apertadas financeiramente gastam com bets, o que reduz ainda mais o que sobra para pagar dívidas e contas essenciais. Piora a fragilidade.
O Desenrola vai resolver isso?
Não. Ele negocia a dívida existente, mas não impede que novas dívidas apareçam. Se a estrutura — renda baixa, juros altos, custo de vida alto — não mudar, em alguns meses o problema volta a crescer.
Qual é o risco maior aqui?
Que as famílias percam completamente a capacidade de reagir a qualquer choque. Se a economia desacelera ou os juros sobem mais, não há margem. É fragilidade financeira em massa.