Imigrantes venezuelanos abrem restaurantes e trazem sabores autênticos a São Paulo

Venezuelanos enfrentam deslocamento forçado devido a crises políticas e econômicas, buscando reconstruir suas vidas através da gastronomia em São Paulo.
Eles não estão abrindo restaurantes por turismo — estão reconstruindo vidas.
Reflexão sobre o significado econômico e pessoal dos restaurantes venezuelanos para imigrantes que fugiram da instabilidade.
Mark

Por que essa história importa agora? Noventa mil pessoas em um ano é um número grande?

Mimi

É o suficiente para mudar a cara de um bairro, para criar comunidades. Quando você tem 89.800 pessoas chegando em um ano, você tem famílias, você tem gente com habilidades, com histórias. Alguns abrem restaurantes.

Luke

Mas esses números vêm de onde exatamente? Do Sisconare e do OBMigra — são fontes confiáveis?

Mimi

São órgãos oficiais. O OBMigra é da Universidade de Brasília. Não é especulação.

Mark

E esses restaurantes — eles estão crescendo porque a comunidade venezuelana está crescendo, ou porque São Paulo está descobrindo a comida?

Mimi

Provavelmente os dois. Mayra abriu o Rincón em 2022, quando a comunidade já estava aqui. Lester e Rosalva vieram em busca de estabilidade. Eles não estão abrindo restaurantes por turismo — estão reconstruindo vidas.

Luke

Quanto tempo esses restaurantes têm de funcionamento? O Rincón tem quatro anos. O Aromas tem dez. O La Perla — não sabemos quando abriu.

Mimi

O La Perla é o mais conhecido, segundo o texto. Isso sugere que ele está consolidado.

Mark

O que torna um prato como a cachapa importante além do sabor?

Mimi

É memória. É identidade. Os chaipas faziam isso antes dos espanhóis. Quando você come uma cachapa em São Paulo, você está comendo história indígena venezuelana.

Luke

Mas o texto não diz se esses restaurantes estão crescendo em número ou se são apenas esses três. Não sabemos se é um movimento ou exceção.

Mimi

Justo. O que sabemos é que existem, que estão aqui, que funcionam.

Mark

E para os donos? O que significa abrir um restaurante quando você fugiu de uma crise?

Mimi

Significa agência. Significa que você não é só vítima da história — você está reconstruindo algo.

  • A Venezuela expulsa sua gente em ritmo acelerado — terremotos e colapso político empurraram 89.800 pessoas ao Brasil só em 2025, e São Paulo concentra uma parcela significativa desse fluxo.
  • No vazio deixado pelo deslocamento forçado, imigrantes venezuelanos encontraram na cozinha uma forma de sobreviver economicamente e de não perder a si mesmos.
  • Restaurantes como Rincón de Venezuela, Aromas e La Perla viraram pontos de encontro para refugiados e exilados, funcionando como territórios afetivos numa cidade que ainda aprende a reconhecê-los.
  • A gastronomia venezuelana conquista também o público paulistano — jovens descobrem a cultura caribenha nos fins de semana lotados do La Perla, enquanto pratos como a arepa com polvo grelhado redefinem o que significa comida de imigrante.
  • O que começou como estratégia de sobrevivência se consolida como oportunidade econômica e expressão cultural duradoura no tecido urbano de São Paulo.

Quando uma nação se desfaz sob o peso de terremotos e colapso político, seus filhos partem levando o que não pode ser confiscado: a memória do sabor. Em São Paulo, os quase 90 mil venezuelanos que chegaram ao Brasil em 2025 estão reconstruindo identidade e sustento através da gastronomia, abrindo restaurantes que transformam arepas, cachapas e pabellón criollo em pontes entre o exílio e a pertença. A mesa, aqui, é ao mesmo tempo refúgio e resistência.

A Venezuela tem expulsado sua gente. Terremotos e colapso político transformaram o país numa porta giratória, e em 2025 sozinho, 89.800 venezuelanos chegaram ao Brasil. São Paulo absorveu uma boa parte deles — e agora a cidade está descobrindo o que eles trazem na bagagem: comida que sabe a casa.

Mayra Angulo, caraquenha, desembarcou pouco antes da pandemia e abriu o Rincón de Venezuela em 2022, na Lapa. O salão pequeno virou ponto de encontro de refugiados e exilados. O cardápio é um retrato da Venezuela: o pabellón criollo — arroz, feijão preto, banana-da-terra frita, carne desfiada e abacate — ganhou o nome por ser colorido como a bandeira do país. As arepas, feitas com farinha de milho, têm raízes indígenas que antecedem os espanhóis. As cachapas, panquecas de milho adocicadas, também. Os patacones, discos de banana amassada e frita, viram pão em sanduíches com carne suína ou camarão.

Na Pompeia, Adriana Camargo abriu o Aromas em 2016 depois de sair de Maracay. O cardápio repete os clássicos e inclui empanadas de farinha de milho fritas, bem diferentes das argentinas, além de papelón — limonada com rapadura — e obleas, biscoitos wafer recheados de caramelo ou geleia.

O mais conhecido é o La Perla, na Vila Romana. Lester Silva e sua esposa Rosalva Cardona, de Puerto Ordaz, planejavam abrir um restaurante na Isla Margarita. A instabilidade econômica os trouxe ao Brasil. No sobrado com ambiente moderno e pegada praiana, garçons cubanos e venezuelanos servem pratos com toques contemporâneos: o pabellón vira bowl com chips de banana, os patacones chegam cobertos de ceviche ou recheados de reina pepiada — uma espécie de guacamole venezuelana com frango desfiado.

As arepas são os grandes hits: uma versão com polvo grelhado, chimichurri e abacate chega à mesa envoltas em papel pardo para comer com as mãos. Rosalva conta que compatriotas vêm de outras cidades só para comer os tequeños — palitos de queijo típicos de festas na Venezuela, aqui servidos com salsa verde. Nos fins de semana, o restaurante lota de jovens paulistanos que descobriram os encantos da cultura caribenha. A salsa é o ritmo que embala as refeições.

A Venezuela tem expulsado sua gente. Terremotos e colapso político transformaram o país numa porta giratória, e quem consegue sai. Em 2025 sozinho, 89.800 venezuelanos chegaram ao Brasil segundo registros do Sisconare e do OBMigra da Universidade de Brasília. São Paulo absorveu uma boa parte deles, e agora, aos poucos, a cidade está descobrindo o que eles trazem na bagagem: comida que sabe a casa.

Mayra Angulo desembarcou em São Paulo pouco antes da pandemia. Caraquenha de origem, ela abriu o Rincón de Venezuela em 2022 na Lapa, num salão pequeno com poucas mesas que virou ponto de encontro de refugiados e exilados. O cardápio é um retrato da Venezuela em pratos. O pabellón criollo, que custa 35 reais, é o carro-chefe: arroz, feijão preto, tiras de banana-da-terra frita, carne bovina desfiada e fatias de abacate, tudo junto num prato que ganhou o nome porque é colorido como a bandeira do país. Parece um picadinho nosso, mas é outra coisa.

As arepas são clássicas de rua, bolinhos feitos com farinha de milho que os cumanagotos, indígenas do nordeste venezuelano, chamavam de erepa há séculos. No Rincón saem por 25 reais, recheadas com carne desfiada, presunto e queijo ou ovo mexido. As cachapas são ainda mais antigas: panquecas de milho levemente adocicadas que os chaipas já faziam antes dos espanhóis chegarem. A versão mixta, com carne desfiada, muçarela e abacate, custa 40 reais. Os patacones, discos de banana-da-terra amassada e frita, viram pão em sanduíches com carne suína desfiada ou camarão em molho picante, cada um por 40 reais. Quem tem intolerância ao glúten encontra aqui uma saída.

Na Pompeia, perto da arena Nubank Parque, Adriana Camargo abriu o Aromas em 2016, depois de sair de Maracay. O cardápio repete os clássicos: arepas, cachapas, pabellón criollo numa versão vegetariana também, e empanadas feitas com farinha de milho e fritas, bem diferentes das argentinas que usam trigo e forno. Custam 20 reais cada. Para beber, há sucos, papelón (limonada com rapadura, 15 reais) e cafés. Na sobremesa, a oblea, biscoito tipo wafer recheado de caramelo, chocolate ou geleia, por 21 reais.

Mas o mais conhecido é o La Perla, na Vila Romana, com ambiente moderno e pegada praiana. Lester Silva e sua esposa Rosalva Cardona, naturais de Puerto Ordaz à beira do rio Orinoco, planejavam abrir um restaurante na Isla Margarita, destino de verão caribenho. A instabilidade econômica da Venezuela os trouxe para o Brasil. No sobrado da Vila Romana, garçons cubanos e venezuelanos servem pratos típicos com toques contemporâneos. O pabellón criollo vira bowl com alface e chips de banana por 65 reais. Os patacones aparecem cobertos de ceviche (42 reais a porção com 3 unidades) ou recheados de reina pepiada, uma espécie de guacamole venezuelana com abacate, muçarela ralada e frango desfiado, por 48 reais. A cachapa rumbera, com pernil suíno desfiado, custa 50 reais.

As arepas são os grandes hits. A versão com filé de peixe empanado, abacate, cebola roxa e molho especial sai por 54 reais. A pulpotastic, com polvo grelhado, banana-da-terra frita, chimichurri e abacate, custa 57 reais. Chegam à mesa envoltas em papel pardo para serem comidas com as mãos. Há também o plátano real, criação de Lester que mistura tempurá de banana-da-terra, guacamole, camarões GG grelhados com alho e coentro, por 75 reais. Para acompanhar cervejas e drinques como o hibiscus à base de rum e chá de hibisco (30 reais), o La Perla oferece cassabe, crocantes de mandioca por 21 reais, e tequeños, palitos de queijo envoltos em massa crocante, 45 reais a porção com 6 unidades. Rosalva conta que muitos compatriotas vêm de outras cidades só para comer os tequeños, petiscos típicos de casamentos e aniversários na Venezuela, aqui servidos com salsa verde. Nos fins de semana, o restaurante fica cheio de jovens que descobriram os encantos da cultura e gastronomia venezuelana. A salsa é o ritmo que embala as refeições.

Muitos compatriotas radicados aqui no Brasil vêm de outras cidades só para comer os nossos tequeños, que lá na Venezuela são petiscos típicos de casamentos e aniversários. Aqui, eles são servidos com a nossa salsa verde.
— Rosalva Cardona, co-proprietária do La Perla
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