IMC elevado superou pressão arterial sistólica como principal fator de risco à saúde no Brasil em 2023, ocupando sétimo lugar em 1990. Prevalência de sobrepeso e obesidade em adultos aumentou 68,8% desde 1990; em adolescentes e jovens, obesidade cresceu 646%, a maior taxa entre países latino-americanos analisados.
IMC elevado é o principal fator de risco à saúde no Brasil, ultrapassando hipertensão
O peso elevado é agora o maior problema de saúde do Brasil
Como um fator de risco consegue passar de sétimo lugar para primeiro em três décadas?
O IMC elevado não passou de sétimo para primeiro de repente. Foi uma trajetória. Enquanto a hipertensão e o tabagismo foram controlados — especialmente pela atenção primária — o peso seguiu crescendo. Em 1990, apenas 40% dos adultos tinham sobrepeso ou obesidade. Hoje são 67%. É uma mudança estrutural.
Mas precisamos ser claros: o IMC elevado superou a pressão arterial em 2023, não em 1990. A pressão liderou até 2021. Então estamos falando de uma virada muito recente, não de uma tendência de três décadas.
E por que os jovens foram tão mais afetados? Crescimento de 646% em obesidade adolescente parece extremo.
Os autores apontam que a prevalência era muito baixa em 1990 — 1,5% — então o intervalo de incerteza é amplo. Mas mesmo assim, o padrão é real. Gerações mais recentes atingem obesidade mais cedo. Homens nascidos em 1980 tinham 29,6% de obesidade aos 40 anos, contra 10,6% dos nascidos em 1950.
Exato. E aqui está o problema: como a remissão sustentada da obesidade após a adolescência é rara, se você não previne nessa faixa, você carrega o problema para a vida toda. É por isso que os autores insistem tanto em prevenção nessa idade.
Qual é o papel da atenção primária nessa história?
A atenção primária foi crucial para controlar hipertensão e tabagismo. O tabagismo caiu de 36% para 12% entre 1989 e 2019. Isso gerou ganhos reais de expectativa de vida. Mas o sistema não conseguiu frear o peso.
E aqui está o ponto: o estudo não explica por que a atenção primária funcionou para hipertensão e tabagismo mas não para obesidade. Pode ser falta de investimento específico, pode ser que o problema seja mais estrutural — urbanização, sedentarismo, ultraprocessados. O estudo aponta os determinantes, mas não diz qual é o gargalo da resposta.
Os medicamentos como GLP-1 podem resolver isso?
Teoricamente, sim. Mas há um problema de escala. A capacidade global de produção atende 100 milhões de pessoas. Na América Latina, há 127 milhões de adultos com obesidade. E o preço é alto, o que concentra o acesso nos ricos.
Então estamos falando de uma solução que, mesmo que funcionasse perfeitamente, não teria capacidade de atender a demanda. E mesmo que tivesse, seria desigual. Por isso os autores defendem prevenção populacional, não apenas tratamento farmacológico.
O que muda agora?
O plano de enfrentamento de doenças crônicas precisa ser adaptado. Em 2019, tinha cumprido apenas 4 de 12 metas. Os autores defendem que o novo plano coloque a prevenção da obesidade no centro, especialmente em adolescentes, e que mantenha o controle da hipertensão e dos fatores cardiovasculares.
Mas adaptar um plano é uma coisa. Implementar é outra. O estudo não diz como fazer isso, apenas que é necessário. E há uma questão política implícita: isso exige regulação de alimentos ultraprocessados, investimento em espaços públicos para atividade física, mudanças na alimentação escolar. Não é só clínica.
El Pulso
- IMC elevado superou pressão arterial sistólica como principal fator de risco em 2023, ocupando sétimo lugar em 1990
- Sobrepeso e obesidade em adultos aumentaram de 40,3% para 66,8% entre 1990 e 2023
- Obesidade em adolescentes e jovens cresceu 646%, de 1,5% para 10,2%, maior taxa entre países latino-americanos
- Carga de 1.825,6 DALYs por 100 mil mulheres e 2.015,7 por 100 mil homens em 2023
IMC elevado superou pressão arterial sistólica como principal fator de risco à saúde no Brasil em 2023, ocupando sétimo lugar em 1990. Prevalência de sobrepeso e obesidade em adultos aumentou 68,8% desde 1990; em adolescentes e jovens, obesidade cresceu 646%, a maior taxa entre países latino-americanos analisados.
Análise do Global Burden of Disease 2023 aponta IMC elevado como principal fator de risco à saúde no Brasil, ultrapassando pressão arterial em 2023, com prevalência de sobrepeso e obesidade em adultos saltando de 40,3% para 66,8% desde 1990.
Um estudo nacional baseado em dados do Global Burden of Disease 2023 mapeou três décadas de saúde brasileira e chegou a uma conclusão que reordena as prioridades de risco: o peso elevado é agora o maior problema. Publicado na revista The Lancet Regional Health Americas, o trabalho reuniu cerca de 200 pesquisadores da Rede GBD Brasil em parceria com o Institute for Health Metrics and Evaluation e traçou a evolução dos fatores de risco entre 1990 e 2023. O que emerge é um país onde a pressão arterial, que liderou o ranking de ameaças à saúde até 2021, foi ultrapassada pelo índice de massa corporal elevado em 2023. A glicemia de jejum elevada chegou ao terceiro lugar.
O método usado para essa classificação soma dois tipos de perda: os anos de vida perdidos por morte prematura e os anos vividos com incapacidade, uma medida chamada DALY. Cada unidade representa um ano de vida saudável que não se realizou. Quando se olha para trás, o salto é impressionante. Em 1990, o IMC elevado ocupava apenas o sétimo lugar entre os fatores de risco. Tabagismo e outras condições ocupavam posições mais altas. Mas enquanto o tabagismo recuou — caindo de 36% em 1989 para 12% em 2019 graças a regulação, aumento de preços e restrições à publicidade — o peso seguiu em trajetória oposta.
Os números de prevalência revelam a escala da transformação. Entre adultos com 25 anos ou mais, a proporção com sobrepeso ou obesidade saltou de 40,3% em 1990 para 66,8% em 2023, um aumento relativo de 68,8%. A obesidade sozinha triplicou, passando de 7,8% para 27,7%. Mas o crescimento mais alarmante ocorreu entre adolescentes e jovens de 15 a 24 anos. Nessa faixa, a obesidade cresceu 646% — de 1,5% para 10,2% — a maior taxa de aumento entre todos os países latino-americanos analisados. Gerações mais recentes estão atingindo níveis altos de obesidade cada vez mais cedo. Homens nascidos em 1980 apresentavam prevalência de 29,6% aos 40 anos, contra apenas 10,6% entre os nascidos em 1950. Como a remissão sustentada da obesidade após a adolescência é rara, os pesquisadores apontam que a prevenção precisa mirar explicitamente esse período da vida.
O impacto dessa mudança se reflete na carga de doença. Em 2023, o IMC elevado gerou 1.825,6 DALYs por 100 mil mulheres e 2.015,7 por 100 mil homens — ambos os números maiores que em 1990. Para as mulheres brasileiras, o peso elevado já é o principal fator de risco para a saúde geral, padrão também observado em Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador e Uruguai. A faixa etária que carrega o maior peso dessa condição é a de 60 a 64 anos. Na América Latina como um todo, o IMC elevado foi responsável por 15,8 milhões de DALYs em 2023. As doenças mais afetadas são diabetes, doença isquêmica do coração e doença renal crônica.
A glicemia de jejum elevada também ganhou força no período. Passou da sexta posição em 1990 para a terceira em 2023. No mesmo intervalo, a diabetes subiu de oitava para sexta causa de DALYs no país. Os autores do estudo apontam que a alta simultânea do IMC e da glicemia representa um desafio particular para a doença isquêmica do coração, enquanto a urbanização, o sedentarismo, as dietas hipercalóricas e o consumo de ultraprocessados funcionam como determinantes dessa trajetória.
O controle da hipertensão, por sua vez, beneficiou-se do investimento em atenção primária. Essa melhora contribuiu para quedas nas mortes por acidente vascular cerebral e doença isquêmica do coração, gerando alguns dos maiores ganhos de expectativa de vida observados no período. Mas diante do avanço do peso elevado, os pesquisadores defendem uma adaptação do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis — que em 2019 havia cumprido apenas 4 de 12 metas — com foco explícito na prevenção da obesidade ao longo de toda a vida.
Há também a questão do acesso ao tratamento farmacológico. Os autores discutem o papel dos agonistas do receptor de GLP-1, medicamentos que têm mostrado eficácia no controle do peso. Mas a capacidade global de produção pode atender, no máximo, 100 milhões de pessoas — menos que os 127 milhões de adultos com obesidade estimados na região. Preço elevado e baixa proteção financeira tendem a concentrar o acesso nos grupos de maior renda, reforçando a necessidade de prevenção populacional ao lado do tratamento farmacológico. O desafio, portanto, não é apenas clínico, mas também de equidade.
Citas Notables
Como a remissão sustentada da obesidade após a adolescência é pouco comum, a prevenção precisa mirar explicitamente essa faixa etária— Autores do estudo Global Burden of Disease 2023
A capacidade global de produção deve atender, no máximo, 100 milhões de pessoas, menos que os 127 milhões de adultos com obesidade estimados na região— Autores do estudo sobre agonistas do receptor de GLP-1