Na noite de 7 de novembro, um tornado de categoria F3 varreu Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, com ventos de até 330 km/h, matando seis pessoas e ferindo ao menos 750 — apagando, em minutos, 90% de uma cidade inteira. O fenômeno, registrado pelas câmeras da Universidade Federal da Fronteira Sul, não surgiu do nada: foi gestado por condições atmosféricas que cientistas associam a um clima cada vez mais desequilibrado. O que pareceria excepcional é, para muitos pesquisadores, o rascunho de um futuro que se aproxima.
Imagens inéditas capturam força devastadora do tornado F3 que destruiu Rio Bonito do Iguaçu
Mais calor e mais umidade servem como combustível para eventos extremos
Como é que câmeras de uma universidade a cinco quilômetros de distância conseguiram capturar o tornado que destruiu Rio Bonito?
As câmeras não capturam o tornado em si — capturam a supercélula, a formação de nuvens gigante que o contém. O tornado se forma dentro dessa estrutura e desce quando toca o solo. A universidade registrou a tempestade passando pela região.
Mas a gente sabe exatamente onde o tornado se formou? Ou é uma estimativa baseada no padrão de destruição?
É uma combinação. Usaram radar meteorológico, um sobrevoo de especialista, engenheiros do Corpo de Bombeiros e relatos da população. Não é adivinhação, mas também não é uma observação direta do tornado em formação.
E esses números de 300 a 330 quilômetros por hora — como se mede a velocidade de um tornado que já passou?
Pela análise dos danos. Engenheiros avaliam o que foi destruído, como foi destruído, e comparam com estudos sobre o que cada velocidade consegue fazer. Também usam dados de radar.
Então a classificação F3 é uma estimativa, não uma medição direta?
Sim. É a melhor estimativa possível com os dados disponíveis. Mas é feita por especialistas com experiência.
Os pesquisadores que falam sobre mudanças climáticas — eles estão dizendo que o tornado foi causado por mudanças climáticas?
Não. Eles dizem que tornados não são causados apenas por isso. Mas que o desequilíbrio climático pode torná-los mais frequentes e intensos.
Isso é importante deixar claro. Porque alguém pode ler e pensar que sem mudanças climáticas não haveria tornado. Não é isso.
Exato. É mais sutil. É sobre probabilidade e intensidade aumentando, não sobre causa direta.
E as outras duas tempestades na mesma noite — Guarapuava e Turvo — isso é comum?
Não é comum ter três tornados na mesma noite na mesma região. Sugere que as condições atmosféricas eram extremamente favoráveis.
Mas a gente tem dados históricos para comparar? Isso acontecia antes com a mesma frequência?
O material não fornece essa comparação histórica. É uma lacuna na reportagem.
Il Polso
- Ventos de até 330 km/h varreram Rio Bonito do Iguaçu em questão de minutos, tombando caminhões, arrancando telhados e reduzindo a escombros nove em cada dez construções da cidade.
- Seis vidas foram perdidas e ao menos 750 pessoas ficaram feridas, enquanto moradores descreviam o desespero de ver o vento levantar estruturas inteiras diante de seus olhos.
- Na mesma noite, outros dois tornados — um F2 em Guarapuava e outro em Turvo — revelaram que o evento não foi isolado, mas parte de um surto meteorológico de proporções raras no sul do Brasil.
- Meteorologistas do Simepar reconstruíram as condições que tornaram aquela sexta-feira fatal: calor intenso, umidade elevada e ventos em camadas atmosféricas distintas criaram o ambiente perfeito para a formação de supercélulas.
- Especialistas alertam que mudanças climáticas amplificam as diferenças de pressão entre massas de ar, tornando tornados mais frequentes e destrutivos — e o desastre no Paraná coincidiu, simbolicamente, com a abertura da COP-30.
Na noite de 7 de novembro, um tornado de categoria F3 varreu Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, com ventos de até 330 km/h, matando seis pessoas e ferindo ao menos 750 — apagando, em minutos, 90% de uma cidade inteira. O fenômeno, registrado pelas câmeras da Universidade Federal da Fronteira Sul, não surgiu do nada: foi gestado por condições atmosféricas que cientistas associam a um clima cada vez mais desequilibrado. O que pareceria excepcional é, para muitos pesquisadores, o rascunho de um futuro que se aproxima.
Na noite de 7 de novembro, câmeras da Universidade Federal da Fronteira Sul, em Laranjeiras do Sul, capturaram uma supercélula de proporções imensas atravessando o céu do Paraná. Cinco quilômetros adiante, o tornado que ela carregava atingiu Rio Bonito do Iguaçu por volta das 18 horas, classificado como F3 na escala Fujita, com ventos entre 300 e 330 km/h. O saldo foi devastador: seis mortos, ao menos 750 feridos e 90% da cidade destruída. Casas foram arrasadas, veículos tombados, construções inteiras arrastadas. Naquela mesma noite, outros dois tornados F2 atingiram Guarapuava e Turvo, confirmando a gravidade do surto meteorológico.
Os meteorologistas do Simepar identificaram as condições que tornaram aquela sexta-feira propícia à tragédia: calor intenso, umidade elevada e mudanças bruscas na direção e intensidade dos ventos em diferentes altitudes. A análise combinou imagens de radar, um sobrevoo com engenheiros do Corpo de Bombeiros e registros compartilhados pela população.
O desastre reacendeu o debate sobre mudanças climáticas. Márcio Astrini, do Observatório do Clima, descreveu o evento como um sinal de urgência que deveria ecoar na COP-30, aberta naquele mesmo dia, inserindo a tragédia paranaense em um padrão global que inclui enchentes, deslizamentos e secas extremas. A oceanógrafa Renata Nagai, da USP, explicou que tornados não são causados exclusivamente pelo aquecimento global, mas que o desequilíbrio climático os torna mais frequentes e intensos — combustíveis fósseis aquecem a atmosfera e os oceanos, elevam a evaporação e fornecem mais energia para eventos extremos. Michel Mahiques, também da USP, completou: as mudanças climáticas intensificam as diferenças de pressão entre massas de ar, criando condições cada vez mais favoráveis a fenômenos como o que destruiu Rio Bonito do Iguaçu. O que aconteceu naquela noite não é um acidente isolado — é um aviso de um padrão que tende a se repetir.
Na noite de sexta-feira, 7 de novembro, câmeras instaladas na Universidade Federal da Fronteira Sul, em Laranjeiras do Sul, capturaram o momento exato em que uma supercélula — uma formação de nuvens de proporções imensuráveis — atravessava a região. Dentro dessa estrutura giratória estava um tornado que, cinco quilômetros adiante, transformaria Rio Bonito do Iguaçu em escombros. As imagens registram a força bruta do fenômeno: a formação da tempestade, a passagem da coluna de ar rotacionando em velocidade extrema, a destruição que se aproximava.
O tornado atingiu Rio Bonito do Iguaçu por volta das 18 horas. Classificado como F3 na escala Fujita, seus ventos oscilavam entre 300 e 330 quilômetros por hora. O resultado foi devastador: 90% da cidade destruída, seis pessoas mortas, pelo menos 750 feridas. Casas foram arrasadas, telhados arrancados, veículos tombados como brinquedos. Moradores descrevem momentos de desespero enquanto o vento levantava caminhões e arrastava construções inteiras. Naquela mesma noite, duas outras tempestades severas geraram tornados adicionais — um em Guarapuava, na região do distrito de Entre Rios, classificado como F2 com ventos próximos de 250 quilômetros por hora, e outro em Turvo, ao sul, também F2, com ventos em torno de 200 quilômetros por hora.
Os meteorologistas do Simepar identificaram as condições que tornaram aquela sexta-feira propícia para a tragédia: calor intenso, umidade elevada e mudanças significativas na direção e intensidade dos ventos em diferentes altitudes. Essas circunstâncias criaram o ambiente perfeito para o surgimento de tornados. A análise foi feita a partir de imagens de radar, de um sobrevoo realizado por meteorologista do Simepar junto com engenheiros do Corpo de Bombeiros, e de registros compartilhados pela população e pela mídia.
O desastre reacendeu o debate sobre mudanças climáticas. Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, descreveu o evento como um sinal de desespero e urgência que deveria ecoar na Conferência das Nações Unidas para o Clima, a COP-30, que começava naquele mesmo dia. Ele apontou que a tragédia no Paraná se insere em um padrão mais amplo: enchentes no Rio Grande do Sul, deslizamentos em São Sebastião e Petrópolis, secas no norte de Minas e sul da Bahia — fenômenos que se repetem não apenas no Brasil, mas em todo o mundo.
Renata Nagai, oceanógrafa pesquisadora da Universidade de São Paulo, ofereceu uma perspectiva técnica: tornados não são causados exclusivamente por mudanças climáticas, mas o desequilíbrio do clima pode torná-los mais frequentes e intensos. O mecanismo é direto. Combustíveis fósseis e gases de efeito estufa aumentam a energia na atmosfera, aquecendo-a e também os oceanos. Esse calor adicional provoca maior evaporação, elevando a umidade. Mais calor e mais umidade funcionam como combustível para eventos meteorológicos extremos. Tornados são colunas de ar que giram em altíssima velocidade, formadas a partir de nuvens de tempestades. Apesar de rápidos e de pequena extensão, seu poder destrutivo é imenso quando tocam o solo.
Michel Mahiques, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo, complementou a análise: tornados ocorrem por causa de grandes diferenças de pressão, geradas por massas de ar com propriedades muito distintas, especialmente temperatura. Com as mudanças climáticas, essas diferenças se intensificam, aumentando a possibilidade de eventos extremos como o que devastou Rio Bonito do Iguaçu. O que aconteceu naquela sexta-feira à noite, portanto, não é um acidente isolado — é um aviso de um padrão que tende a se repetir e se intensificar.
Citazioni salienti
O que aconteceu no Paraná é mais uma repetição do que vem acontecendo não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro— Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima
Com as mudanças climáticas, essas diferenças de pressão se intensificam, e a possibilidade de ocorrer eventos extremos como esse aumenta— Michel Mahiques, professor e pesquisador da USP