iFood denuncia Keeta ao Cade por práticas predatórias e pede medida preventiva

Quem tem mais dinheiro para subsidiar consegue capturar a maior parcela
O vice-presidente jurídico do iFood resume a acusação contra a Keeta em uma frase sobre competição financeira versus competição por qualidade.
Mark

Por que o iFood está trazendo essa denúncia agora, especificamente? Qual é o gatilho?

Mimi

A Keeta cresceu muito rápido nos últimos meses, e o iFood vê o modelo de subsídio chinês como uma ameaça existencial. Mas também há o timing — o Cade publicou aquela nota técnica em junho sobre empresas com "deep pockets", e o iFood está usando isso como munição.

Luke

Mas a Keeta está realmente operando com prejuízo por pedido? Ou é só a alegação do iFood? Porque a Keeta não divulga esses números, e o Cade ainda não investigou.

Mimi

Exatamente. É a alegação do iFood. A Keeta nega e diz que usa cupons como qualquer outra empresa faz. O que é verdade — o próprio iFood vende cupons.

Mark

Então qual é a diferença entre um cupom e um subsídio predatório?

Mimi

A escala e a intenção. Se você oferece cupons para atrair clientes, é marketing. Se você oferece cupons permanentemente, em volume massivo, financiado por capital externo, com o objetivo de eliminar concorrentes — isso é predatório, segundo o iFood.

Luke

Mas quem prova a intenção? E quem prova que é permanente e em volume massivo? Esses são números que o Cade teria que verificar.

Mark

E o iFood pediu acesso aos dados da Keeta?

Mimi

Sim, pediu monitoramento independente dos custos e precificação da Keeta. É uma forma de tentar forçar transparência.

Luke

O que é interessante porque o iFood também não divulga seus números de custo por pedido. Ninguém nesse mercado é transparente.

Mark

Então o que o Cade vai fazer com tudo isso?

Mimi

Vai ter que decidir se abre o processo administrativo. E tem aquele outro caso da Keeta contra 99Food sobre exclusividade que sai essa semana.

Luke

Que é um caso completamente diferente, com acusações invertidas. A Keeta diz que o iFood usa exclusividade para bloquear concorrentes. O iFood diz que a Keeta usa subsídio para bloquear concorrentes. Ambos podem estar certos.

  • O iFood formalizou denúncia ao Cade pedindo processo administrativo e medida preventiva imediata contra a Keeta, alegando que a plataforma opera com prejuízo por pedido subsidiado pela matriz chinesa Meituan.
  • O vice-presidente jurídico do iFood alertou que a disputa não é de tecnologia ou serviço, mas de profundidade de bolso — quem subsidia mais captura restaurantes, consumidores e entregadores, distorcendo a competição real.
  • A Keeta revidou chamando a denúncia de 'estratégia monopolista' do iFood, que controla mais de 80% do delivery brasileiro e já foi alvo de investigações por contratos de exclusividade que bloqueiam concorrentes.
  • O Cade deve julgar ainda esta semana outro caso envolvendo Keeta e 99Food sobre exclusividade, revelando múltiplas frentes abertas simultaneamente e argumentos que se cruzam e se contradizem entre os players.

No mercado brasileiro de delivery, onde a conveniência se tornou infraestrutura cotidiana, duas visões opostas de concorrência se enfrentam diante do Cade: o iFood, dominante com mais de 80% do setor, acusa a Keeta — braço da gigante chinesa Meituan — de usar capital estrangeiro para subsidiar prejuízos e eliminar rivais; a Keeta, por sua vez, enxerga na denúncia uma manobra de quem já consolidou o monopólio para impedir que novos entrantes o desafiem. O regulador antitruste brasileiro se vê, assim, convocado a arbitrar não apenas uma disputa comercial, mas uma questão filosófica mais profunda: até onde o poder do capital é concorrência legítima, e a partir de onde se torna predação?

O iFood apresentou denúncia formal ao Cade contra a Keeta, plataforma controlada pela chinesa Meituan, acusando-a de operar com prejuízo em cada pedido no Brasil e subsidiar artificialmente essa operação com capital da matriz para conquistar mercado e eliminar concorrentes. Além da abertura de processo administrativo, o iFood pediu medida preventiva imediata e monitoramento independente dos custos e preços da rival pelo próprio Cade.

O argumento central do iFood se apoia em nota técnica publicada pelo Cade em junho, na qual o Departamento de Estudos Econômicos alertou para o risco de empresas com 'deep pockets' operarem abaixo do custo por longos períodos até consolidar domínio. Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico da empresa, foi direto: a competição com a Keeta não se decide por tecnologia ou qualidade de serviço, mas por quem tem mais dinheiro para subsidiar os três lados da plataforma — restaurantes, consumidores e entregadores.

A Keeta negou as acusações e inverteu a narrativa. Para a empresa chinesa, o mercado brasileiro de delivery é 'bloqueado e disfuncional' há anos, dominado por um único player com mais de 80% do segmento. A Keeta classificou a denúncia como manobra para desviar atenções de investigações anteriores sofridas pelo próprio iFood por contratos de exclusividade. Sobre os cupons que usa para atrair usuários, a empresa argumentou que se trata de prática comum de marketing, utilizada inclusive pelo iFood por meio do Clube iFood.

O momento da denúncia é revelador: o Plenário do Cade deve julgar nesta semana outro caso envolvendo Keeta e 99Food, desta vez com a chinesa no papel de acusadora, apontando contratos de exclusividade que a excluem do mercado. A sequência de ações simultâneas expõe a intensidade da disputa antitruste no setor e coloca o regulador no centro de um debate em que cada lado ocupa, ao mesmo tempo, o lugar de vítima e de suspeito.

O iFood entrou com uma denúncia formal no Conselho Administrativo de Defesa Econômica contra a Keeta, plataforma de delivery controlada pela chinesa Meituan, acusando-a de práticas predatórias no mercado brasileiro. Além de pedir a abertura de um processo administrativo, o iFood solicitou também uma medida preventiva imediata para interromper o que chama de operação prejudicial à concorrência.

O cerne da acusação é direto: a Keeta opera com prejuízo em cada pedido entregue no Brasil, subsidiando artificialmente essa operação com capital da matriz chinesa para conquistar fatia de mercado e eliminar concorrentes. O iFood argumenta que a empresa não precisa ter posição dominante para que o Cade investigue — basta ter capacidade financeira superior à dos rivais e usar essa vantagem para impedir que cresçam. Esse argumento se apoia em uma nota técnica publicada pelo próprio Cade em junho, na qual o Departamento de Estudos Econômicos alertou para o risco de empresas com "deep pockets" operarem abaixo do custo por longos períodos até consolidar domínio de mercado.

Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico do iFood, resumiu a preocupação da empresa em termos claros. A competição com a Keeta, disse ele, não se dá por quem oferece melhor tecnologia, melhor serviço ou melhor seleção de restaurantes. A disputa é pelo tamanho do bolso — quem tem mais dinheiro para subsidiar os três lados da plataforma (restaurantes, consumidores e entregadores) consegue capturar a maior parcela do mercado. Pittioni afirmou estar "muito preocupado" com os efeitos que esse modelo de competição trará no médio e longo prazo tanto para restaurantes quanto para entregadores.

Além de pedir a abertura do processo administrativo e a medida preventiva para eliminar as alegadas práticas de precificação abaixo de custo, o iFood solicitou acesso periódico aos dados de custos e precificação da Keeta por meio de monitoramento independente realizado pelo próprio Cade. O pedido se insere em um contexto mais amplo de disputa antitruste no setor de delivery, que já envolveu o iFood em outras ações — a empresa já teve seus contratos de exclusividade limitados pelo Cade em uma ação anterior.

A Keeta respondeu à denúncia com uma nota em que nega as acusações e inverte a narrativa. Segundo a empresa, o mercado brasileiro de delivery permanece "bloqueado e disfuncional" há anos, caracterizado por um monopólio no qual um único player controla mais de 80% do segmento — uma clara referência ao iFood. Para a Keeta, a nova ação do iFood é uma "estratégia monopolista" para desviar a atenção das autoridades de investigações anteriores às quais o iFood foi alvo, especialmente relacionadas a contratos de exclusividade que prejudicam o mercado.

A empresa chinesa argumenta que, ao entrar em um setor marcado por cláusulas de exclusividade e banimento, utiliza cupons para incentivar experimentação inicial — uma prática comum no mercado, usada por todos os players, inclusive pelo próprio iFood, que inclusive os vende por meio do Clube iFood. Essa defesa tenta reposicionar o que o iFood chama de subsídio predatório como simples ferramenta de marketing disponível a qualquer concorrente.

O timing da denúncia é significativo. O Plenário do Cade deve julgar nesta semana outro caso relevante para o setor, envolvendo Keeta e 99Food, no qual a acusação é da chinesa, que aponta contratos de exclusividade que a excluem especificamente do mercado. A sequência de ações judiciais e administrativas sinaliza uma intensificação da disputa antitruste no segmento de delivery brasileiro, com múltiplos fronts abertos simultaneamente e argumentos que se cruzam e se contradizem.

Estamos muito preocupados com o efeito que esse tipo de competição que tem sido trazido pela Keeta vai trazer no médio e longo prazo tanto para restaurantes quanto entregadores
— Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico do iFood
Este é o único mercado no mundo caracterizado por um monopólio, com um único player controlando mais de 80% do segmento
— Keeta, em nota de resposta
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