iFood denuncia Keeta ao Cade por práticas predatórias com descontos agressivos

Restaurantes enfrentam pressão operacional e entregadores tiveram redução de renda entre 30% e 50% em mercados onde Keeta operou.
O Brasil tem a oportunidade de agir antes que o dano se consolide
Vice-presidente jurídico do iFood argumenta que regulador deve intervir rapidamente, antes que padrão de outros mercados se repita.
Mark

Por que o iFood está trazendo isso agora, e não antes?

Mimi

A Keeta começou a operar no Brasil há pouco tempo, mas o padrão que ela segue em outros países é bem documentado. O iFood está tentando agir antes que o mercado se consolide — antes que restaurantes saiam, antes que a estrutura de comissões mude.

Luke

Mas quanto tempo a Keeta está operando aqui? O texto não diz.

Mimi

Não diz mesmo. Sabemos que a Meituan mencionou o Brasil em teleconferências de 2025 como parte da expansão, mas não temos a data exata de entrada da Keeta.

Mark

E essas evidências que o iFood apresentou — a análise da Compass Lexecon mostrando prejuízo por pedido — isso é verificável?

Mimi

É uma consultoria contratada pelo iFood, então há um interesse óbvio. Mas o iFood também cita dados públicos: as reservas de caixa da Meituan, as perdas operacionais, as declarações em teleconferências com investidores.

Luke

Exatamente. Os números da Meituan são públicos. Mas "prejuízo por pedido" no Brasil — isso só o iFood está dizendo. O Cade vai precisar verificar.

Mark

E se o Cade concordar? Qual é o impacto real?

Mimi

Se conceder a medida preventiva, a Keeta teria que parar com os descontos de 80% e os cupons de R$ 250 enquanto a investigação acontece. Isso muda completamente a dinâmica de mercado.

Luke

Mas o Cade já fez isso antes? Conceder medida preventiva em caso de preços abaixo do custo?

Mimi

Não é comum, não. Geralmente o processo é mais longo. Por isso o iFood está citando a urgência — em Hong Kong levou menos de um ano para a Deliveroo sair.

Mark

E os restaurantes? Como eles estão reagindo?

Mimi

O texto não traz reações de restaurantes. Sabemos que em outros mercados eles foram prejudicados — tiveram que expandir capacidade sem ganhar receita real. Mas aqui no Brasil, não há depoimentos.

Luke

Isso é importante notar. A denúncia fala sobre impacto em restaurantes e entregadores em outros países, mas não temos voz de restaurantes brasileiros dizendo se estão sentindo pressão.

Mark

E a Keeta? Ela respondeu?

Mimi

Não há resposta da Keeta no texto. Isso é uma denúncia que acabou de ser protocolada.

Luke

Então estamos vendo um lado da história. O Cade vai ouvir a Keeta também.

  • Keeta oferece descontos de até 80% e cupons de R$ 250, operando com prejuízo por pedido
  • Meituan encerrou 2025 com US$ 23 bilhões em reservas e prejuízo de US$ 3,4 bilhões
  • Em Hong Kong, Keeta alcançou 50% do mercado; comissões aos restaurantes subiram de 15% para 30-35% após saída de concorrente
  • Estudo da Universidade Fudan: pedidos cresceram 7% mas receita caiu 4% durante guerra de subsídios na China

Keeta oferece descontos de até 80% e cupons de R$ 250, operando com prejuízo por pedido financiado pela matriz Meituan. Em Hong Kong, Keeta alcançou 50% do mercado antes de concorrente sair; comissões aos restaurantes subiram de 15% para 30-35% após consolidação.

iFood apresenta denúncia ao Cade contra Keeta, acusando a plataforma chinesa de operar com preços abaixo dos custos e subsídios agressivos para conquistar mercado de delivery no Brasil.

Na segunda-feira, o iFood protocolou uma denúncia formal contra a Keeta junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica, pedindo que o órgão regulador interrompa imediatamente as práticas comerciais da plataforma chinesa enquanto investiga sua atuação no mercado brasileiro de delivery. A acusação é direta: a Keeta opera com prejuízo intencional em cada pedido, financiada pelos cofres da Meituan, sua controladora chinesa, para conquistar espaço e expulsar concorrentes do mercado.

Segundo a representação do iFood, a estratégia inclui cupons de até R$ 250 e descontos que chegam a 80%. O problema, argumenta a empresa, não é apenas o preço baixo ao consumidor — é que esses subsídios criam uma demanda artificial que força restaurantes a expandir sua capacidade operacional sem que isso represente crescimento real de receita. O iFood apresentou análise da consultoria Compass Lexecon mostrando que a Keeta registra perdas significativas por pedido no Brasil, financiadas diretamente pela caixa da Meituan, que encerrou 2025 com aproximadamente US$ 23 bilhões em reservas e acumulou prejuízo de US$ 3,4 bilhões no ano.

O iFood não está apenas reclamando de concorrência agressiva. A empresa cita um estudo da Universidade Fudan sobre o mercado chinês que revela o padrão: durante o auge da guerra de subsídios em 2025, o número de pedidos dos restaurantes cresceu 7%, mas a receita efetivamente recebida caiu 4%. Restaurantes foram fechados. A renda mensal de entregadores despencou entre 30% e 50%. Esse cenário, argumenta o iFood, não é hipotético — é histórico.

Em Hong Kong, a Keeta alcançou mais de 50% do mercado antes que a Deliveroo saísse. Depois disso, as comissões cobradas dos restaurantes subiram de 15% para entre 30% e 35% em menos de um ano. No Kuwait, um concorrente local encerrou as atividades dois meses após a entrada da Keeta. Precedentes semelhantes aparecem na Arábia Saudita e no Qatar. O padrão é consistente: descontos agressivos na entrada, saída de concorrentes, consolidação de mercado, aumento de comissões. O iFood afirma que o Brasil ainda está no início desse ciclo.

A denúncia se apoia no artigo 36 da Lei nº 12.529/2011, que proíbe práticas destinadas a dominar mercados ou eliminar concorrentes, incluindo a prestação de serviços abaixo dos custos. O iFood também invoca o artigo 84 para pedir uma medida preventiva imediata, argumentando que em outros países a saída de concorrentes aconteceu em poucos meses — antes que processos de investigação chegassem ao fim. A empresa cita ainda uma nota técnica do próprio Cade de junho de 2026 alertando para os riscos de empresas com "deep pockets", ou seja, recursos financeiros tão superiores aos concorrentes que podem operar abaixo dos custos indefinidamente.

O iFood pede três coisas ao Cade: abertura de processo administrativo contra a Keeta, adoção de medida preventiva para interromper preços abaixo dos custos, e acesso periódico aos dados de custos e preços da plataforma. Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico do iFood, foi direto: "É uma pena que tenhamos que desviar recursos que poderiam ser empregados para o setor evoluir, para fazer frente a uma guerra de subsídios que não se sustenta pelo mérito, pela melhor tecnologia, pelo melhor serviço ou pela melhor experiência para quem usa a plataforma." Ao final, o iFood pede que o Cade condene a Keeta e determine a interrupção definitiva das práticas. "O Brasil tem a oportunidade de agir antes que o dano se consolide", afirmou Pittioni.

A denúncia também aponta que a Meituan, controladora da Keeta, já foi multada na China. Em 2021, levou uma multa de 3,44 bilhões de yuans por práticas anticoncorrenciais. Em junho de 2026, o regulador chinês propôs novas regras contra o uso de vantagem financeira para concorrência desleal e contra venda abaixo do custo — e a Meituan declarou apoio às novas regras. O iFood argumenta que com menos recursos sendo gastos no mercado chinês, a Meituan teria ainda mais capacidade para financiar sua expansão internacional, incluindo o Brasil. O que acontece agora depende de como o Cade responde.

É uma pena que tenhamos que desviar recursos que poderiam ser empregados para o setor evoluir, para fazer frente a uma guerra de subsídios que não se sustenta pelo mérito, pela melhor tecnologia, pelo melhor serviço ou pela melhor experiência
— Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico do iFood
O Brasil tem a oportunidade de agir antes que o dano se consolide
— Lucas Pittioni, vice-presidente jurídico do iFood
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